Abandono

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Aquele lugar era seu refúgio do mundo. Sempre que a existência a machucava, ela corria para lá. Uma casa velha e caindo aos pedaços, inabitável. Não tinha telhado e mantinha um aspecto cadavérico, com paredes teimosas pelo tempo como um esqueleto esquecido num terreno baldio. Era um local visivelmente abandonado há muito tempo, talvez por essa semelhança, ela mantinha aquela ligação tão forte com o lugar. O abandono concreto simpatizava com sua sensação de desamparo.

Ao contrário dos outros afetos, há um vazio singular no abandono, pois ele consegue ser pior que o desprezo: é um ato de consciência. Chega a ser uma crueldade, infinitamente mais agressiva que o esquecimento. Quando se escolhe esquecer, abandona-se. A nobreza do perdão é justamente o fato de acolher, mesmo após uma grave injúria. Já o abandono é o seu oposto e por isso é tão perverso.

Sozinha e sem nenhum rastro humano, ela se sentia completa. A ausência de vida presente no abandono da velha casa era repouso para suas frustrações. O silêncio era o descanso que fazia calar suas angústias. Encontrava naquele não-abrigo um lugar habitável, do tamanho e significância de sua miséria. Não havia lágrimas em seus olhos, secos como sentimentos desgastados. Assim como as escamas trocadas de uma cobra, sentia-se resto. Um corpo abandonado que outrora revestia sonhos, mas que como a serpente, fugira… Deixando aqueles trapos de histórias, futuros inanimados.

Deixou-se largar, perder, desaprender. E no vazio do nada, esqueceu seus objetivos. Quando isso acontece, todos os detalhes ficam mais evidentes, pois o problema do foco é justamente ignorar todo o resto. O resto. Percebeu que ser resto não era necessariamente ser irrelevante. A possibilidade de ser tudo é a vantagem do nada. E naquele não-ser sentiu-se; concreta como o abandono daquela casa.

Perdoar-se é esquecer-se. Ignorar quem se é e daí poder reconstruir. Ali ela se redimiu de todo seu passado, abandonou todo seu futuro e foi apenas presente. Assim como aquela casa, ela tinha sido, mas não era mais; e poderia ser, mas já não era. Que futuro terá aquele que não sabe o que é? E ao se distrair com a resposta, lhe surgiu o inesperado. Viu que não precisava de mais nada. Pois “mais” era o verdadeiro abandono de si. Ele menospreza o presente por ansiar um futuro. O mais nunca é completo.

Teve no vazio a experiência sofrósina dos gregos, na qual o entendimento do resto é a compreensão do todo. Fez as pazes com suas limitações e por este senso superou-as, criando novas e inexploradas restrições. O saber também tem seu veneno. O defeito da sabedoria é a ausência da surpresa, seu toque torna tudo previsível e opaco. É preciso desaprender. O que era necessário era perdoar-se diariamente e conter-se, podar seus “mais”, que lhe impediam o agora, o reconstruir. Olhou à sua volta, viu quantos detalhes o abandono continha. Percebeu dessa forma que todos têm as bases, são apenas as vontades que nos ornam. A beleza na amplitude daquele abandono lhe deixava claro que reter é a melhor forma de transbordar. Adjetivos podem se alterar, significados não. Tornou-se abandono e saiu dali renovada de simplicidade, pronta para habitar o novo de novo.

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