Brincando de Deus

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Espaçoso. Sim, sou desses. A sabedoria da natureza me fez nascer com uma estatura abaixo da normal talvez por intuir que eu seria esse pequeno desastre. Louças e coisas frágeis perto de mim estão fadadas à extinção, é muito provável que eu venha a quebrar. Não faço por mal, acontece que não tenho muita noção de espaço, o distante e o perto são para mim questões de pura perspectiva e não de física. Quando menos percebo, aquilo que está perto foi para longe e o que estava longe se aproximou sem avisar. A fragilidade convive atenta comigo e nos evitamos por saber o resultado desse encontro. Apenas o robusto dura. Quer um exemplo? Nenéns. Nunca pegarei um bebê de colo nos braços, seria uma tentativa de homicídio, meu jeito abrutalhado não combina com moleira, choro, manha ou pessoas que não expressam de modo claro seus desejos, por isso mantenho, pelo menos, dois metros de segurança dessas delicadas criaturas.

O evento que se sucede seria habitual se uma personagem não mudasse todo o contexto. Era manhã de um dia que o nada era minha única ocupação, passei um café para acompanhar minha leitura e aproveitava a claridade natural para através das letras viajar na imaginação. Foi quando minha idiossincrasia aflorou e a mão estabanada bateu na xícara de café apoiada no braço do sofá, que já devia estar frio, espatifando a louça e derramando o conteúdo pela sala.  Aquela meleca. Fui à cozinha providenciar um pano e algum produto de limpeza pra tirar o melado que o café faria no chão. Para minha surpresa, quando voltei, uma abelha estava a deleitar-se no meu desastre, achei graça naquilo e fiquei observando suas patinhas que mais e mais entravam no líquido escuro, sem saber que seu encanto por aquele prazer a estava atraindo para o centro da poça, fazendo dali um sarcófago para sua frágil estrutura.

Sorri olhando a ignorância daquele animal e me senti Deus observando sem compaixão os homens na Terra. Aquilo era o arbítrio em exercício. Cada um tem exatamente o que merece por mais que existam injustiças na natureza; raros são os casos em que a culpa da própria mediocridade seja alheia. Mereceria a abelha a morte por seu inocente beijo na face do prazer? Pensei sobre sobrevivência. O instinto básico de todo o ser vivo é sobreviver, mas aquilo era contraditório. Olhando a abelha que agonizava (se de júbilo ou de desgosto só ela poderia responder) em seu banho de morte e prazer refleti se a satisfação é mais importante que a vida. Esta é a ganância intrínseca à natureza, essa necessidade em ter mais. Afinal o planeta vem há muito tempo evoluindo suas espécies, esta evolução é, na verdade, um pecado: a gula. Se a abelha fosse sábia ela absorveria todo o melado do café apenas na borda da poça, mas ela foi inconsequente e mergulhou em sua paixão, um ato de suicídio inconsciente, condenada por sua ignorância.

Assumi o papel de criador e interferi no destino daquele inseto. Pensei sobre a maçã que Eva pegou condenando os homens, tentei entender o desejo dela, acredito que seu verdadeiro desejo não fosse a maçã, mas sim a serpente, e como a abelha ela mergulhou na poça. Tentei entender o desejo da abelha. Três foram as vezes que afastei o animal da morte e do prazer, com uma caneta eu arrastava a abelha para uma área segura e seca, porém próxima da sua tentação. Como eu previa, ela cedeu. Voltou todas as três vezes que a afastei do perigo do negror de seu prazer. Não escolhi à toa as oportunidades dadas à abelha, obedeci a métrica perfeita de Aristóteles que divide as coisas em três partes para a compreensão total; a plenitude da trindade; o número da sabedoria, raciocínio e lógica na Cabala. Três é o número da perfeição. A abelha foi firme em suas escolhas, ignorou os presságios, motivada apenas pelo seu prazer e em três tentativas mostrou perfeitamente sua origem.

A evolução é o amadurecimento que faz um fruto fenecer, por exemplo. Será a ignorância a eternidade? A consciência desnuda a fantasia e ao mesmo tempo é a única verdade. Estaria a abelha transcendendo ao invés de se matando, a decidir, como a Ophélia de Shakespeare, fazer seu último mergulho? Não se morre na superfície, apenas na profundidade, por isso muitos são rasos. O que a abelha queria deixou de ser um mistério. Eu poderia retirá-la de seu torpor e devolver-lhe a vida. No fim, matei-a na plenitude de seu deleite, pois sabia que ao salvar aquele animal e devolver-lhe a realidade seria mais dolorido e cruel do que acabar com sua existência.

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