Condenado

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Chegou o tão aguardado dia que o calendário não poderia mais adiar: a data marcada para a execução. O homem caminhava por aquele longo corredor fitando apenas seus passos, num ar de quem se resigna com o destino, de quem aceita e se conforma com a penitência da vida, ao mesmo tempo em que havia certa ansiedade em suas mãos que involuntariamente se apertavam com a proximidade da porta vermelha, porta que poria fim a sua liberdade.

Pensava de si para si na sua condição de condenado, estava pagando pela consequência de seus atos e sabia que seu julgamento tivera um bom resultado. O que lhe aguardava era fruto de merecimento e pagar aquela dívida com a vida demonstrava a seriedade de suas ações. Porém, a certeza do futuro lhe dava uma serenidade que só é possível encontrar na sabedoria, o condenado estava envolto dessa paz agonizante que despreza tudo, uma paz de quem é extremamente consciente de todo o contexto. Naquele momento decidira ser herói de sua existência, a compreensão que tinha daquele sacrifício era maior que sua vontade de viver. Seu respeito pela vida agora era tão grande que estava disposto a renegar todas as oportunidades e variantes que ela oferece para por fim a tudo naquela porta vermelha.

Aquele radicalismo lhe tirava por completo a esperança, que é quem traz à alma toda a decepção. Alegre como dança é a espera que define a esperança. Ele doou-se à penitência e por isso não esperava nada desta devoção. Via ali apenas seu dever. Os direitos na sua visão também são um dever, e a falta da esperança fazia que eles não fossem esperados. Para um homem condenado não há margem para especulações e a decepção não era mais uma alternativa concreta, apesar de sentir na garganta o gosto amargo de sua passagem. É necessária muita ingenuidade para se alcançar a satisfação, naquele momento ele estava satisfeito e foi como uma criança que espera ansiosa no Natal pelo Papai Noel. Não precisava de evidências, apenas acreditava em uma voz que estava em seu coração que lhe dizia para acatar aquele destino com hombridade e desafiar o peso de suas escolhas.

A maior crueldade que pode existir contra alguém é a sinceridade crua, isso passa a ser torturante quando usada contra nós mesmos. Exposta, nos torna vulneráveis. A alma humana não suporta o excesso de realidade e constantemente foge para artifícios emocionais que afugentam a dicotomia da natureza e alma. Alcançar o equilíbrio disso é como andar os passos do condenado naquele corredor; apenas uma direção com uma única resposta. Amadurecer é quase sempre igual a morrer, aquela iluminação que indicava a porta vermelha era já a morte anunciada e o seu amadurecimento suavizava as expressões do rosto outrora cansado, fazendo as marcas que desenhavam traços de dor e de felicidade remoçassem com a verdadeira maturidade, deixando-o perpetuamente jovem.

Úmido pelo trajeto, parou em frente ao seu destino vermelho. Viu-se hesitando. Agarrou-se a sua certeza e bateu convicto na porta. Um homem austero atendeu e após encarar gravemente aquela expressão juntou coragem e disse, “gostaria de pedir a mão de sua filha em casamento”. O amor é a ficção mais realista do homem. Estava condenado ao amor e seguro de sua culpa.

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