Dia de missa

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O pároco da cidade enlouquecera, gritavam as fervorosas cristãs na praça em frente à única igreja daquela simples cidade com costumes tão pequenos quanto sua proporção. Típico local interiorano, onde todos se conhecem, se comentam e se fuxicam. O que mais intrigava as senhoras moralistas era que o simpático jovem que comandava as missas aos domingos tornou-se misantropo e irascível de forma abrupta, sem nenhum motivo aparente e sem dar alguma explicação. Quem imaginaria que tão amável rapaz fosse causar um problema desses, comentava Judith; um garoto tão sorridente e prestativo que começou a agir dessa forma insociável deve estar metido com drogas, inferia Odete; é obra de Satanás, arriscou histericamente Hilda; enquanto isso, no quarto nu de objetos da casa de Deus, o padre se trancara e raramente se dirigia a alguém, fez um voto de silêncio e de sua boca não se ouvia uma palavra.

Era um absurdo e as senhoras já se amontoavam na singela delegacia da cidade que tinha apenas duas celas sem presos e pouquíssimos policiais. Elas exigiam providências e o delegado ficou em uma situação delicada, afinal, o que poderia fazer ele? Obrigar o padre a rezar? Prendê-lo? A cidade estava há três semanas sem uma missa por causa da loucura do reverendo. Em uma cidade em que nada acontecia, aquela situação tinha tomado as proporções do tédio daquelas senhoras, ou seja, alarmou-se muito o fato, fazendo com que o delegado tivesse que intervir para dar fim àquilo, indo até lá tentar arrancar algumas respostas daquele silêncio.

O delegado simpatizava com o clérigo e também não entendia a posição que este havia tomado. Em cidade pequena todo mundo se cumprimenta e sempre que cruzava com o semblante do padre via uma juventude harmoniosa, que transmitia calma e autocontrole. Foi à igreja e junto da porta inflexível do quarto do religioso insistiu em diferentes abordagens para persuadi-lo a deixá-lo entrar, porém em vão. Os diáconos já rondavam com curiosidade o corredor, mas o delegado se encarregou de deixar o ambiente completamente vazio e chegou ao extremo de fechar porta da igreja em pleno domingo de missa. Vão assistir televisão, bradou o delegado enquanto expulsava as últimas ovelhas dos corredores sagrados. Voltou pacientemente para a porta do padre e sentou ali e começou a falar. Filho, eu fechei a igreja, agora somos nós dois, somente, até Deus eu expulsei, fique tranquilo, esse será seu confessionário, toda a ferida tem uma história, assim como sua cura, e quando um orador resolve entrar em silêncio, significa que ele está berrando. Você pode me contar o que acontece, agora você é o penitente e eu dou a ética da confissão que tuas palavras serão mais que ouvidas, mas sentidas.

Um soluço foi ouvido, de um choro contido lá de dentro, algo que o delegado dissera surtiu uma identificação que liberou alguma coisa ou o simples desespero forçou uma ação. Sentiu, através da madeira mássica, um corpo se chocando com força na porta; ouviu a voz metálica do padre, aquela voz enferrujada que estava a dias sem sair. Que divaguem filósofos, poetas e até os humanos sobre sentidos e sensações. Entendi porque dizem sobre a genialidade do que é simples, inclusive, entendi demais das coisas e tudo que é demais vira facilmente um problema.

Para o delegado aquela confissão era um milagre, era a oportunidade perfeita para fazer o padre falar e resolver de uma vez por toda aquela situação. Quis confortá-lo, para incentivar sua fala. Na realidade meu filho, disse com intimidade, tudo o que acontece existe apenas em uma superfície tênue chamada percepção, ela fina e leve (justamente por isso não pode carregar vastos significados) e também totalmente transparente e uniforme. Tudo no mundo acontece naquele ponto, veja a simplicidade. Essa linha da existência transborda realidades, sentimentos e projeções, é necessário cuidado para não se perder entre suas diversas interpretações. O simples deveria ser fácil.

O senhor não entende, replicou o padre do outro lado. A semente do amor é regada a muito suor, dediquei minha vida de amor a Deus e creio que esgotei esta seiva… perdi a fé, como eu posso pregar ou estar aqui? Hesitou, esperou um julgamento do outro lado, o delegado sabia que precisava dizer algo para não destruir o elo que se criava, rapidamente pensou em amor, como resgatar a fé de alguém que estava cansado de acreditar? Ainda mais naquele caso em que o delgado não era religioso, tinha uma morna, quase fria, espiritualidade. Pensou em sua vida e disse apostando na sinceridade. Chega o momento que você descobre que o amor são apenas quatro letras que podem ser ditas sem nenhuma responsabilidade, evocadas sem nenhum entusiasmo, pronunciadas sem respeito, alguns chamam isso de amadurecimento, mas para mim sempre foi um suicídio. Minha fé também morre quando percebo isso, este trair-se todo envolto de inocência. Os amores não têm culpados, têm sempre vítimas. O padre ouvia e fazia sons do lado de dentro como com desse a entender que compreendia, ele sentia as palavras sinceras do delegado. É incrível como sempre há uma esperança violenta dentro da crença do cético, o padre se agarrou a isso, ser visto como vítima do amor é sempre um reconhecimento a uma vida de sacrifícios e castrações.

O delegado continuou, apostando na exposição de sua sincera percepção. Com o tempo você aprende a escutar o amor sem precisar ouvi-lo e somente quando isso acontece é que você entende a verdade. Porque amar é muito mais que uma declaração, é uma série de ações em que tantos valores se concentram que é necessário sintetizá-los por esse nome. Mas cuidado ao escutar, amor não dura um segundo como sua pronúncia, ele dura o tempo da atenção e dedicação, ele dura o tempo do reconhecimento e da admiração. É o único que pode ser eterno e por isso cobiçado. A maçã de Eva era o amor, que escolheu Adão ao invés do Paraíso, é pra sempre.

O padre não respondia mais. Como que despertado de uma introspecção, o delegado deixou espaço para que as palavras do outro lado voltassem a fluir. Aquele silêncio questionava ambos sobre a origem da verdadeira fé. Depois de um tempo que narrativa nenhuma conseguiria descrever, o padre perguntou: você ama alguém? A resposta veio como um reflexo involuntário. Sou pai, e marido. Ouviu a porta destrancar. Ela se abriu e estava o padre, vestido impecavelmente em sua batina, com sua bíblia na mão. O olhar assustado do delegado fazia mais perguntas que as palavras. Sou padre, disse o reverendo, abra a igreja que hoje é dia de missa.

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