Escolhas

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Certo, errado, certo, errado, sempre é assim quando se trata de escolhas, por mais dúbio que é o acerto ou o erro, quando escolhemos nos privamos de alguma coisa para optar por outra. Há vitórias e perdas em cada decisão. Há quem acredite que não se pode ter tudo ao mesmo tempo, por isso as escolhas frequentemente dizem muito sobre as pessoas. Porém existe algo que não podemos escolher, talvez a única e mais importante das coisas, ela é a fome. Não há ser que não sofra do insaciável apetite de viver e nisto nada nos diferencia. A vida é o nada cheio de fome que não nos dá escolhas.

Quando a fome grita perdemos o controle. A razão se perde, os sentidos não respondem, as lembranças se ausentam e só importa o objetivo de alimentar esta necessidade. Saciar o apetite é um ato de vitória, é alcançar uma meta. Seu sabor pode ser tão agradável que às vezes é letal. Raramente sabemos lidar com aquilo que nos agrada por sermos vítimas da gula, uma forma de excesso envolvido de prazer pessoal e aceitação social, um fantasma da filosofia materialista, e ela nos mostra um lado da personalidade extremamente natural e, por isso, incauto.

Carla era uma criança carente e tinha fome. Atenta às limitações de suas escolhas e no auge de sua meninice de 10 anos ela tinha atenção especial para o que seu indicador apontava. A necessidade é uma grande professora e a história da garota era cheia de derrotas. Dizia-lhe que suas alternativas sempre traziam consequências que iam além de suas escolhas.

Andando perto de uma feira com sua mãe, ela se distraia com a curiosidade de seus olhos numa barraca de doce e mal percebia estar sendo arrastada pela frágil mão. Carla queria todos os doces da barraca, mas sabia que isso era impossível, portanto escolheu um doce especial para amar e chamar de dela. Viu um sapinho verde, em uma fôrma bonita e com tantos detalhes que comê-lo seria um atentado àquela arte. Carla olhou-o e se prometeram. O engano é a forma mais sincera de se envolver, Carla sabia disso e imaginava que o sapinho ficaria ali aguardando por ela e que decidira não buscá-lo simplesmente por ter a certeza que depois eles se reencontrariam. Sentindo a resistência nos passos da garota e rompendo sua fantasia, sua mãe a viu namorando os doces e disse baixinho à Carla: você é uma boa menina e pode escolher um dos doces para você.

Quanta felicidade. A menina desacostumada à mordomia achou aquele gesto um privilégio sem igual e esboçou um sorriso tão belo quanto o amanhecer. Lentamente, aproximou-se da barraquinha e olhou todas aquelas opções que tentavam inutilmente persuadi-la com chocolates cremosos e coberturas saborosas. Ela estava tão encantada com os doces que se desligou completamente do mundo em sua volta, como se toda a existência fosse adocicada e o mundo, delicioso. Quando, como num ritual, olhou para sua mãe e apontando para o sapinho, disse “aquele pode ser meu?”, olhou novamente para a barraca e ele tinha desaparecido. Desesperada atrás de seu paradeiro, viu que um garoto gordo havia pegado ele e quase todos os outros doces que tinham ali expostos. A menina protestou em vão. Gutão, nome que a madame não parava de gritar para andar lado, era um menino mimado. Sua mãe estava disposta a discutir pelo doce que o filho escolhera entre tantos outros que já se desfaziam e sujavam os cantos de sua molenga boca.

Gutão ouviu a discussão das mães, enquanto uma pedia com humildade à outra que deixasse aquele doce para a menina, num gesto rápido, ele enfiou o sapinho (que não era pequeno) inteiro na boca que se pintou com um sorriso forçado e irônico. Carla estava atônita.

Somos verdadeiramente em nossas derrotas. Transparentes e sem a glória da vitória, podemos nos assustar ou nos encantar com a figura que resulta da perda, pois ali que está grande parte do seu eu, nas tentativas que se foram e não retornaram. Carla, vendo a impotência da mãe e a crueldade do mimado Gutão, disse com firmeza com seus olhos mais brilhantes que de costume que não queria mais o sapinho e pediu para ir embora. E assim se foram, sem o sapo.

A intensidade é uma medida que pode ser letal a qualquer existência. E aquela vitória, ali nas mãos de Carla, escorreu pelos seus dedos fazendo-a questionar e pensar na dor de sua perda, na sua escolha e na derrota. Sofrer de um excesso é um mal? Mesmo sendo amor que ela sentira pelo sapinho? Não sabia, mas via em sua gula o mais sincero dos pecados. Amantes justificam muito bem como a intensidade funciona, ela aplicada aos sentimentos pode anular aquilo que não se pode esquecer, como o tempo, por exemplo. A arte da paixão está em transformar o agora em sempre. E sua escolha tinha, quando se prometeram em sua brincadeira, o sempre.

O silêncio acompanhava o lento passo de mãe e filha, cada uma com sua frustração. Confiante de que jamais veria novamente o sapinho, Carla caminhava pensativa ainda sobre o menino que escolhera o mesmo que ela e na vitória dele. A confiança é a mais forte das traições, e sua convicção foi traída. A convicção do nunca mais foi interrompida por passos que se aproximavam com força, correndo. Era uma menina que chegava com um pacote nas mãos. Sorridente, estendeu-o a Carla. Hesitante, ela pegou da mão da menina que lhe disse ser um presente, e apontou para a barraca de doces que se afastaram a pouco, em que a atendente sorria e acenava. Carla fez o mesmo, depois abriu a caixa, seus olhos se iluminaram e lá dentro havia diversos sapinhos adocicados de várias cores. O sorriso estava em todos os rostos, Carla agradeceu efusivamente a moça, de longe, e ofereceu para a menina que trouxera o embrulho alguns sapinhos, dando-o depois à sua mãe, sem pegar nenhum.

Contente, a menina segurava a mão da mãe e saltitava pela rua, mas a mãe estranhara por que ela não comeu os doces. A resposta foi resoluta: quero me surpreender sempre com eles! Todos fazem escolhas, mas elas nunca afetam só a uma pessoa. Carla entendeu a importância das consequências e foi assim que ela escolheu até aquilo que não se tem escolha.

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