Estrangeiro

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O que estou contando é um relato fidedigno da história. O único filtro que distingue ela da realidade é minha memória, que te prometo reproduzir as minúcias deste profundo episódio.

Tenho a mania de reparar nas pessoas e em seus hábitos, não para censurá-las, julgá-las ou coisa do tipo; faço simplesmente por hábito. Naquele dia meus olhos se cruzaram de uma garota que tinha um caderno com folhas coloridas e sem pautas em um das mãos e na outra um lápis. Meu olhar a deixou sem graça e logo foi desviado, tratei de fazer o mesmo pelo mesmo motivo. Como poderia ela pensar em escrever num lugar daqueles? De repente, “paft!” e tomei um susto tão grande que esbocei uma reação semelhante a um soluço; o barulho vinha do chão que eu pisava, e não era de se esperar algo de diferente: aquela lata velha em formato de ônibus estava caindo aos pedaços e qualquer curva ou freada mais brusca fazia o mesmo “paft!” que tinha me assustado.

A moça que com seu caderno colorido na mão e com um ar excêntrico tipo Clarice Lispector riu do meu susto, e eu ri da risada dela. Rimos juntos. “Paft!” veio de novo, e contendo o sorriso nos lábios ela olhou para o lado de fora da janela. A partir de então ela começou a escrever com uma vontade incrível; seu lápis violentava a folha com voracidade e precisão, em breves momentos ela parava e olhava a sua volta, como se perscrutasse o ambiente e se embebia dele para a inspiração, para depois voltar em sua imersão rica de silêncio e conteúdo. Por vezes ela escrevia sem olhar o papel, olhando fixamente outro objeto, e a pergunta que me restava era o que dizia suas palavras mudas. Eu já estava apaixonado por aquela mulher misteriosa e assim que vagou o lugar ao lado dela eu fui sentar-me ali, na tentativa de ver o que o mundo lhe dizia sussurrando em movimentos.

A surpresa dela quando me viu ao seu lado me trouxe uma desilusão. Pensei que aquelas linhas preenchidas afinco tinham partido do nosso instante em que sorrimos. Acreditava que eu a tinha inspirado, mas me enganei e vi que a ela bastava o mundo. Tudo bem, os imprevistos são sempre os detalhes mais importantes da história. Desta vez, algo extremamente raro aconteceu: puxei papo. Perguntei se era pessoal o que ela havia escrito. E como se aquilo fosse um jogo, seus olhos me sorriram e ela disse escondendo seu caderno colorido com anotação, “Sempre é. Já que você é curioso, para saber o que tem aqui, tem que me contar de você”. Aproveitei o acaso e seu anonimato de um primeiro, e talvez único, encontro para falar.

…Gosto de movimentos ruidosos. Daqueles que se movem sem barulho e são cheios de tanta ação que causam estrondos. Por exemplo, vi uma mulher que tinha em suas mãos os pequeninos e esforçados dedos de uma criança, que com suas pernas sem prática caminhava na rua aprendendo seus primeiros passos. É este apoio, você me entende? Isso é um movimento ruidoso, como quando agradecemos sinceramente alguém apenas com o leve balançar da cabeça, essa cumplicidade que existe num ato verdadeiro.

(eu apenas falava, não tinha certeza sobre o interesse de quem ouvia o que eu dizia. Esse estado era muito raro de minha parte e bom a meu ver. Dificilmente eu digo sem ter certeza de “poder” dizer. Essa permissão sempre me é dada com o interesse, que é como um ingresso para que minhas palavras entrem em determinado assunto, pois sou fortemente convencido que qualquer coisa – mas qualquer coisa mesmo – só pode ser assimilada através do interesse. Por isso sou tão quieto e cada vez mais, pois ninguém se interessa por nada que não lhes diga respeito e não gosto de falar da vida dos outros, também não gosto de barulhos desnecessários).

Vim de um lugar diferente daqui. Hoje eu vivo em uma cidade onde há grades entre as pessoas. Elas criam isso para se defender e vão fechadas em seus mundos feitos de medos. É difícil eliminar o medo de quem tem medo de ter coragem. Por que elas não cultivam o medo de ter medo? Poderia ser mais produtivo. Quando comecei a não me preocupar com isso fiquei realmente preocupado, pois isso me fez deduzir que eu estava igual a eles, como se contaminado pelo vírus da inanição social. As relações entre as pessoas precisam de intimidade, que por sua vez precisa de contato, pois o que toca é sempre íntimo. E com o tempo percebi que todas as pessoas podem ser íntimas e que isso só está se tornando raro porque o contato está debilitado. Lembra-se de quando você era criança? Certamente seus melhores amigos eram seus vizinhos, pessoas próximas. Sei lá! Essa modernidade, comunicação, globalização… a gente brinca com as distâncias e tudo fica perto e longe ao mesmo tempo. A possibilidade sempre é mais atrativa que a realidade e se aumentamos as possibilidades, sobra menos realidade, entende?

(seus olhos fitavam meus lábios e por vezes minhas mãos que gesticulavam à moda italiana de ser. Eu pressentia aquele momento crucial em que o supérfluo o deixa de ser para tornar-se necessário. Meu capricho com a palavra ia além e transbordava em um desabafo sem valor, vazio para o mundo e sem efeito algum. Eu sempre fazia exatamente aquilo que eu criticava e perdia meu respeito por mim. Eu era o herói dos pecados. Eu estaria sendo supérfluo ou necessário? Não sabia mais diferenciar, de qualquer forma os dois são idênticos, diferindo apenas pelo tempo. Sem dar espaço para o diálogo, a torrente de palavras que fugia da minha boca fazia barulhos desnecessários…)

Aí eu fiquei doente. Fui ao médico para saber o que eu tinha depois de reparar sintomas estranhos que surgiam e sumiam com a mesma espontaneidade. Sabe qual foi a pergunta que o doutor me fez? Ele disse, ‘o senhor anda passando por algum estresse em sua vida?’… como assim?, questionei. Como se viver já não se encarregasse de ser estressante por definição. Outro médico. Outro problema. ‘O problema é o esforço. Excesso de esforço, você não deve fazer exercícios’. Eu sabia… sabia que a vida é um eterno esforço, e todo o esforço tem o objetivo da permanência. Nem que seja a permanência em um objetivo que você mantém o esforço para atingir sua meta. Assim como os dedos da criança esforçados a agarrar-se nas mãos da mulher, num aprendizado dançante de andar.

( a palavra permanência surtiu efeito nela e ela me interrompeu…)

! Permanência! A maior utopia dos homens! – deu um sorriso abafado, meigo e gostoso como calda de chocolate em um bolo seco. – Aquilo que faz não precisa dizer. Pois as mesmas palavras que definem, também escondem, já as atitudes não! O esforço é de fato um determinante para tudo. Você acha que vence o espermatozóide mais inteligente? Se engana, vence o esforçado! – e riu novamente abafado.

Paft! Estalou o ônibus. A conversa nos fez esquecer do barulho metódico. Rimos juntos novamente. E aquele momento foi para sempre. Eles amavam este modo de sentir o verdadeiro e único eterno que os homens poderiam alcançar. Ela me estendeu o caderno. Li aquelas rasuras e a olhei como quem precisasse de explicação.

Entendeu? – Disse ela. – Faça um esforço, você vai entender. – Falou totalmente estrangeira de si.

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