Heautontimorumenos

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Não queria mais ficar pensando, descobri que fazer isso é algo que não resolve muita coisa se não for procedido por uma ação. O dia era útil, e se você paga contas, trabalha e se sustenta sabe que isso não é por acaso. Estava cansado das obrigações e com a música alta, mesmo tarde da noite, preparei algo com bastante álcool para beber e acendi um cigarro, sentado na poltrona que eu havia posicionado em frente minha janela para olhar o mundo com singularidade e conforto. Por que não aproveitar? Afinal a ilegalidade é um prazer sem igual. Só pelo fato de estar transgredindo um limite, mesmo que seja um irrisório como essa autossabotagem, há um prazer especial. Um gostinho saboroso de maldade, com astúcia vanguardista e nobre. O momento não poderia ser mais ideal. Tarde da noite de um dia desgastante, de um trabalho cansativo e ainda por cima uma noite altamente social para um amanhecer cheio de regras, compromissos e trabalhos, materializando os dias passando frente a frente a você. O tempo e toda a pureza que se baseia na ansiedade. E lá eu estava, o único prejudicado por aquilo seria eu, que teria que trabalhar no outro dia, cansado por uma noite mal dormida, me arrastando no dia almejando minha cama com todas as minhas forças. Um sofrimento opcional.

Eu transgredia a regra e elas são amarras de nossa personalidade, o homem não consegue viver sem regras, quando elas não existem, criamos, e assim eu amarrava minha alma para diversas atividades, uma tentativa de definir o tempo e limitar o pensamento. Porém isso começou a ser o ponto de discussão entre meu eu. Na verdade somos as regras que criamos.

Dicotomia, a contradição que faz a própria personalidade algo interessante. O problema do homem é que aprendemos a mentir desde cedo. Fazem-nos acreditar em milhares de contos de fadas e depois crescemos, arrancam aquilo com a simples justificativa de que somos grandes demais para aquilo. Acreditávamos. E agora somos obrigados a ver que tudo que depositávamos esperança era mentira, era falso, e dizem simplesmente “continuem” com tapas de simpatia nas costas. Eu aprendi a mentir, melhor do que ninguém, eu menti para mim mesmo e de propósito acreditei naquela mentira. A vida foi acontecendo e quebrou tudo que eu acreditava. Dessa forma eu resolvi quebrar minhas próprias regras e fazer a não-regra uma regra. Naquela noite eu via pessoas da minha janela, morava bem no centro da cidade e o movimento sempre é intenso, não importa o horário. Via massas, pequenos grupos, médios grupos e pseudos grandes grupos, diferenças e semelhanças no mundo em que não via tanta graça, todas aquelas teorias sociológicas acontecendo em tempo real. Foucault, Lévi-Strauss, Durkheim, todos transparecendo em atitudes e personalidades. A mensuração é feita pela quantidade, ironicamente cabeças, tão individuais e tão iguais, entretanto, grupos. Podia ver as regras e inclusive as não-regras, pessoas submersas em ideais quaisquer. Eu aguardava a tragédia, a mesma que Marla Singer em Fight Club, entorpecido numa realidade anestésica, um pleonasmo hipérbole, a realidade e o tempo como ouroboros.

Toda essa convicção dos meus sentimentos e do meu estado emocional não era bom para mim. Eu tenho a plena ciência das minhas próprias necessidades, e esse processo é altamente pungente.

Heautontimorumenos. O ponto de encontro com o eu interior em mais um confronto comigo mesmo. Eu me odeio tanto e novamente o duelo. Eu era o meu próprio ceifador e sempre somos um oponente forte. Essa autocrítica, o tempo, as amarras, as coisas imutáveis como compromissos, mesquinhez e todo o cunho hierárquico de compromisso e dever, que é grande âncora de almas, escravizadas nas amarras que eu tentava me libertar, transgredindo, transbordando.

Pensando sobre isso e observando com conforto o mundo, percebi que estava sendo observado, de outra janela. Aquilo me causou uma sensação de ter sido invadido, como se aquele fosse meu momento de Deus. De soslaio olhei novamente, e vi um movimento, era uma lanterna, a pessoa estava fazendo algum sinal, olhei com atenção e vi um cara com uma lanterna em uma mão e a outra levantada. Retribuí levantando minha mão, apesar de ter me incomodado com a “invasão” permiti envolver-me. Para mim aquilo era o mundo que sempre me bloqueava, era essa a impressão que eu tinha, novamente ele estava me observando por olhos de terceiros, essa sensação fez as amarras voltarem, lembrei dos julgamentos e compromissos. Tímido, sai da cena fui preparar mais bebida e voltei a agir como julguei ser natural. Quando voltei na poltrona de frente a janela não havia ninguém de onde viera o sinal e a luz estava apagada. Compreensível, já era tarde. Até que eu fui surpreendido pelo meu interfone, meu coração disparou. Coincidência? Tive dúvida de deveria atender, era tarde da noite, mas hesitante eu o fiz.

Pausei a música e esperei novamente um toque, que não aconteceu, resolvi atender e disse um simples “Alô”.  Do outro lado não havia nenhum sinal, o que me perturbou muito. Verifiquei a porta e voltei rapidamente para minha janela a fim de ver se havia algo na rua, algum movimento na janela vizinha. Mas não consegui chegar à janela, fiquei em choque na porta do meu quarto quando vi no parapeito uma lanterna. Eu não tinha lanternas e ela não estava lá antes de eu ir atender ao interfone.

Tive medo, muito medo. A invasão que eu sentia antes agora era física e poderia ser classificada como tangível. Aquela lanterna era algo assustador, não havia ninguém em casa, a porta não tinha sido aberta e mesmo assim alguém esteve ou estava ali. Deixei a casa no silêncio para conseguir ouvir qualquer som de terceiro. Pálido, andei lentamente e parei no parapeito, a princípio não toquei na lanterna, apenas observei e depois voltei meus olhos para a janela vizinha, minha surpresa foi ver que lá estava o rapaz, fazendo sinais com uma lanterna. Resolvi pegar a lanterna e ela estava com pilhas, ligava e funcionava, olhei para trás, nenhum som, nada. Olhei novamente para meu amigo e ele havia parado de acender a apagar a sua luz, eu emiti a minha. Foquei a luz no rosto dele e assim eu consegui ver com nitidez sua expressão, era um homem, sério, se parecia comigo. Foi quando de repente senti algo empurrar minha cabeça para frente e fiquei olhando para o abismo do 6º andar de onde eu morava, alguém havia me dominado, eu não conseguia sair dali, alguém empurrava com força minha cabeça para baixo e eu não conseguia levantar. Tentei pedir ajuda, seja lá o que estava fazendo aquilo, era muito forte, eu não conseguia me mover. Deixei a lanterna cair e depois de gritar o bastante percebi que era tarde demais, e eu estava num lugar alto demais, ninguém me escutaria. Por um momento pensei no meu amigo da janela que via tudo aquilo, pensei em procurá-lo depois e pensei também se existiria depois. A pessoa que estava me segurando de forma que impedia meus movimentos era bem silenciosa. Só ouvi a respiração dela atrás de mim e resolvi perguntar, já ofegante, o que estava acontecendo. Uma voz doce respondeu “vim te ajudar”. Nisso eu cai, do 6º andar.

Acordei na poltrona, apavorado, suando. Não havia janelas abertas, não havia lanterna, não havia vizinho. Senti falta daquela pressão na cabeça e vi que se alguém me jogasse naquele abismo onírico, eu voaria.

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