Lendo a sorte

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“Ei, Jeferson. Sei que você verá isso, anote meu telefone para eu ler sua sorte.” – Era só o que me faltava, eu já estava bastante atrasado para ir trabalhar e ao sair de casa me deparo com este cartaz colado ao primeiro poste que vejo. Bem no estilo daqueles que existem de trazer o amor de volta em sete dias, mas aquilo era do tipo marketing direto, uma publicidade personalizada. A princípio tive um choque, meu nome estampado num poste, assim ao público. Coincidência? Uma campanha publicitária que aleatoriamente escolheu um nome que era como o meu? Tenho mania de acreditar nas coisas por mais absurdas que elas possam parecer, basta elas se apresentarem com um pouco de lógica, mas ali tudo estava meio sem sentido. Depois de um tempo atônito, o raciocínio exercitou a razão e deu sentido àquilo: algum amigo filho da puta estava de sacanagem e havia planejado esta brincadeira. Com receio de estar sendo vigiado por alguém (talvez pelo amigo sacana) e me sentindo como quem faz algo ilegal, arranquei o mais rápido possível o cartaz e com ele amassado em mãos continuei a andar com cara fechada, ninguém se manifestou ou parecia suspeito enquanto isso acontecia. Jogaria fora o cartaz, a lixeira bagunçada e cheia de coisas que não prestavam mais passou uma ideia estranha de parecer ser meu destino.

Analogia que me causou desconforto. Continuei a andar pensando em quem poderia ter feito aquilo. Bateu o arrependimento de ter jogado “minha sorte” no lixo, pela simbologia e por não ter anotado o número que lá estava, mas para minha surpresa lembrei facilmente dele (e sou péssimo para números) ao tentar recordá-lo. Era uma combinação tão fácil que parecia parte daquela besteirada toda. Não custava nada tentar ligar e me certificar que ele não existia só para comprovar a brincadeira sem graça. Andava depressa para chegar logo ao trabalho repetindo mentalmente o número para não esquecer. Paro quase sem acreditar em frente a outro poste. Mais um cartaz. Dessa vez fiquei visivelmente perturbado. “Preciso mesmo falar com você, não jogue este fora, ligue-me…” e novamente o telefone. Tenso, fui até o poste me sentindo observado e arranquei cuidadosamente o papel, guardando-o no bolso. Era como se o cartaz lesse os meus pensamentos, mas este não tinha meu nome e achei que o fato do cartaz não ter adivinhado que eu tinha decorado o número falho. Voltei a caminhar, dessa vez sem me importar tanto com meu atraso, absorto em pensamentos até que recorri novamente à razão e pensei que o maldito que estava me zoando realmente me conhecia a ponto de conseguir prever minhas atitudes (tanto que pensou que eu esqueceria o telefone) ou eu estava sendo pego na melhor campanha publicitária do mundo. Voltei ao foco do meu trabalho, mas novamente fiquei com a pulga atrás da orelha quando encontrei um terceiro cartaz (que também recolhi), ironicamente bem próximo do meu destino, que dizia “O número está no seu bolso e cabeça, ligue”.

A curiosidade tomou conta de mim e mesmo estando atrasado cheguei e nem fui a minha mesa, entrei imediatamente no banheiro. Engraçado que o número se fixou na minha memória de tal forma que peguei o papel do bolso apenas para conferir se realmente ele estava certo. Antes de discar tive medo, esta adivinhação toda não deixava de ser um tanto assustadora, o terceiro cartaz tinha me deixado realmente intrigado. Eu poderia ter outras atitudes ou nem ter reparado também nos postes, se a pessoa que fez aquilo me conhecia tão bem deveria saber o quanto sou desligado para tornar essa possibilidade totalmente viável. A sensação do ridículo também surgiu, seria uma série de coincidências que estava me afetando e eu estava juntando as partes de um nada? De qualquer forma, acabaria com aquele mistério. Disquei; primeiro toque, fiquei apreensivo porque o número existia e chamou; segundo toque, um silêncio repleto de angústia pelas possibilidades fazia o suor escorrer do meu rosto; terceiro toque, ouço alguém tirar um telefone do gancho, mas ninguém diz nada. Arrisco um “alô” que como um eco se repete do outro lado, “alô”. Talvez a ligação estivesse com problema e eu estava me ouvindo, repeti: “alô” e o eco respondeu “como vai?”. Empalideci no banheiro, a voz do outro lado da linha era exatamente como a minha, o silêncio não durou muito, a pessoa do outro lado se soltou a falar.

Sei que você está um pouco confuso e não precisa dizer nada por enquanto, te adianto que sou o cara que SABE das coisas (eu ainda estava impressionado com a similaridade da voz e queria ouvir mais). Além disso, eu pedi pra você ligar e é porque eu tenho algo a dizer, faça bem o papel de ouvir, o que é bem importante nesse caso… Eu tenho a sorte, ou melhor, a sua sorte, para ler. Mas, como uma pergunta nunca tem somente uma resposta, preciso questionar se é isso realmente que você quer, apesar de SABER disso também (tinha ironia na voz, aquilo me irritou um pouco). Pelo seu perfil, acho a proposta bastante tentadora… e se você pudesse saber seu futuro? Gostaria que eu te falasse? (“pelo seu perfil”, ele dizia como se me conhecesse a fundo, isso está muito estranho).

Espera aí cara, quem está falando? Como você sabe meu nome? Você é quem tem que me responder algumas perguntas, eu estou começando a achar essa brincadeira muito sem graça! Que história é essa de futuro, mãe Dinah? SABE das coisas? Sabe então que sou pouco supersticioso pra cair nessa ladainha! – Ei, tenha calma, rapaz! É fácil confundir vivacidade com violência, e de fato elas são sinônimas… você sabia que o mundo é uma expressão das variações do ódio? A fé, o amor, a vida ou qualquer outro elemento da existência tem a raiva como radical. E você é tão vivo! Estar vivo é machucar-se, morrer a cada instante. A finitude apenas confirma isso. E eu já esperava uma reação desse tipo porque eu te conheço. Aliás, sabe o que faz algo ser o que ele é? Não vou te contar, seja você mesmo e descubra, mas vou dizer que não tem justiça mais plena que a da natureza, que de uma forma ou outra faz sermos exatamente o que somos. Os homens frequentemente dizem que o mundo é injusto… hahahaha, macacos dotados de humor… (o que esse cara está dizendo?) Porém, chegamos a um ponto: se eu te digo “seja você mesmo”, como a justiça de sermos o que somos da natureza é aplicável? Não deveria ser óbvio isso, uma vez que a natureza com sua sabedoria faz que sejamos exatamente o que somos? Não é bem assim e você sabe disso, apenas não percebeu ainda. Atente-se a isso: existem muitos caminhos, mas um só trajeto.

Pense que cada partícula do universo acredita ser quem é e não tem dúvida de ser, ela não pensa nisso, pois a certeza é estéril de possibilidades. Você precisa acreditar em mim, como uma partícula, essa é a única condição para SERMOS. (Pensei em desligar o telefone e parar com aquele papo doido, lembrei que já estava há muito tempo no banheiro e ainda tinha chegado atrasado) …e não adianta tentar fugir, não podemos nos esconder de nossa sorte, você teve a de se encontrar, ou melhor, dela encontrar você. Se você acreditar em mim, teremos seu futuro. Eu posso te contar ele. Você só tem que responder se quer.

Ele parou de falar e o silêncio foi reconfortante para organizar aquilo tudo, estava me sentindo atordoado, resolvi aceitar a “brincadeira” estranha e ver no que aquilo daria. Respondi um seco “sim, quero saber”. O outro lado respondeu: deixei sua sorte separada na praça que existe próximo ao lugar que você almoça. Passe lá, ela estará em cima de um banco solitário. A ligação foi finalizada.

Sabia qual era a praça, era uma bem deserta que tinha uma fonte velha que nunca vi funcionando. Trabalhei apreensivo e com passos largos me direcionei para meu “destino” pontualmente na hora do almoço. Cheguei ao local e todos os bancos eram solitários, encontrei uma pedra em cima de um deles, fui chegando perto e reparei que tinha um papel dobrado em baixo. Antes de pegar olhei para os lados, apenas transeuntes atarefados com seu cotidiano. Sentei ao lado da pedra e peguei o papel, quando abri ele estava em branco, não consegui conter um pequeno riso de frustração, antes que eu pensasse sobre isso meu telefone tocou com um número bloqueado. Do outro lado, “minha” voz parecia uma gravação e disse.

“Instável, só o caráter humano. Perceber que na imensidão das possibilidades apenas uma pode ser a verdade é um tanto cruel para uma percepção aflorada e de vastas emoções. Somos estrelas que para produzir a beleza da luz queimam a si própria fazendo do espetáculo da beldade um ritual de morte. Somos estrelas e a arte é a vingança do Homem contra a natureza, não é por acaso que nossa consciência venera tão-somente a beleza que age como uma droga para a alma, entorpece e mata. Somos seres que nos adaptamos, e toda a adaptação não suporta a permanência; Não somos nada, e mesmo assim, o nada é sempre o princípio de tudo.“ A ligação caiu.

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