Marginal

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Nascemos como quem tem um encontro marcado com os significados e na busca deles passamos o resto de nossos dias. Desde que rompemos a placenta e entramos em contato com o ambiente buscamos completar uma falta, um vazio que, ironicamente, enche nossa história de adjetivos na constante procura, que chamamos de sentido. Nunca se sabe ao certo o que falta, porém estamos sempre nesta eterna busca. Sua finalidade é o entendimento, da mesma forma que talvez o choro seja uma maneira de entender a dor ou se alimentar um modo de entender a fome, a questão é que todas nossas ações buscam certo entendimento. É nessa relação que desvendamos e interpretamos o mundo. A compreensão, diferente do entendimento que tende estar sujeito ao preconceito, vê verdadeiramente e isenta o julgamento próprio sobre as coisas, por isso ela é tão rara, nem o amor e nem a fé têm este poder, apesar da intensidade da crença são frágeis e volúveis como qualquer dúvida.

Dentre as descobertas, a maior é perceber que nascemos para o contato. Existir é a troca. Somos visão, audição, paladar, tato e olfato com objetivo do afeto. Feitos de sentidos no intuito de sentir o verdadeiro sentido. Ele estava ali, sendo observado, mas não assistido. Olhares que tinham a sensação física do toque, de um toque opressivo e violento, olhares envergonhados que se desviavam rapidamente numa omissão ou encaravam com julgamentos e nunca o perdão. Sentia aqueles olhares como uma agressão, um desconforto lhe percorria com o impacto daquele encontro. Eles eram, sobretudo, curiosos e repletos de pena. Ele também sentia pena de si mesmo e sua condição abandonada. Ele era a diferença incômoda, uma parcela social exclusa, suja, que berrava no silêncio da ignorância que o conforto nos dá. Marginal.

Sabia exatamente o que estava acontecendo. Ouviu alguma voz ao fundo dizendo “ligue para uma ambulância”, mas curiosamente via as pessoas apenas observando, nenhum sinal de ajuda, sua experiência dizia que o descaso do mundo, sempre presente, não haveria de lhe faltar nesta hora. Sua consciência estava bastante nítida para saber que morreria naquela calçada, porém, através do toque de todos aqueles olhares a morte não lhe assombrava – sentia-se  mais vivo do que nunca em toda sua memória. Conseguiu fazer de um suspiro um sorriso mesmo sentindo sua respiração falhar e fortes dores no peito. “Esse aí tá é louco de crack, é uma overdose, deixe ele morrer!”, arriscou alguém. A palavra crack lhe veio como uma esperança de vida que dilatou seu olhar, um fôlego para sua alma. Era como se Romeu ouvisse o nome de Julieta, ele sentia amor pelo crack e sabia que aquilo era a razão de sua morte, mas não havia culpa, aceitava aquilo submisso porque o amor nos tira o orgulho. A obsessão do vício é traço dos românticos, poetas e, agora, dos delinquentes. Seu amor irresponsável que lhe enchera de excessos era puro, mas o mataria. Nesse momento, como um presente de seus últimos instantes, a revelação surgiu frente aos seus olhos como uma epifania; compreendeu.

Não há jeito, ser humano é buscar o sentido da própria existência. Não há Homem nesta Terra que não passe a vida em busca dessa significação que o justifique de ser, por isso faz questão de haver: a definição é o que lhe mantém a sanidade. Porém, poucos têm a sorte e êxito em alcançar a plenitude que há em viver da certeza, ou do mais puro amor, que um viciado. No seu vício ele encontra seu orgasmo que o faz transcender, o prazer que ele encontrava no crack era como o mel dos lábios de Capitu para Bentinho. Naquela calçada pôde ver seu amor como uma chaga que lhe consumiu e enfim soube que o importante não era amar, mas sim o que amamos. Amar é a obsessão humana, é o remédio da falta, estamos sempre amando algo, mesmo que se ame o nada. Viu o crack com os olhos da compreensão e por isso não o condenou, mas deixou de amá-lo. Fez o mesmo com aquelas pessoas que testemunhavam sua despedida; não eram culpadas e nem inocentes de sua trajetória e escolhas. Morria em silêncio, percebia que seu encontro tivera sido sempre uma exclusão, mas isso não importava mais, pois o encontro é sempre uma colisão e nunca a integralidade do todo. Estava feliz em compreender seus erros e encontrou sua paz na forma da overdose, afinal, morto ele representaria aquilo que os outros acreditavam que ele era.

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