Nada a dizer

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Até aquele dia ele atribuía seu problema a um nome. Ele tinha lido em algum lugar e ficava ligeiramente feliz por ter descoberto a origem do seu mal. Era o gene FOXP2, no cromossomo 7. Segundo cientistas esse era o gene responsável pela comunicação, mais especificamente pela a fala. Para Lui, mesmo que ele conhecesse as mais de 350 mil palavras da constelação léxica do português elas sempre lhe faltavam quando solicitadas pela língua. Seria cômico se não fosse trágico para ele, que não conseguia explicar nada com profundidade, as palavras simplesmente eram rasas demais para definir qualquer coisa. Quando queria dizer algo, tudo soava débil e parvo por mais importante que fosse.

Sentia-se como um receptáculo que se enche ao ponto de explodir. Sua alma estava constantemente entorpecida de sentimentos pela dificuldade de se fazer entender, não havia por onde escoar estes sentidos na realidade e, dessa forma, via-se afogado em suas próprias pulsões. Apesar de nunca saber ao certo o que era normal, ele considerava-se anormal ou simplesmente não-normal. Mesmo que seus olhos mostrassem as pessoas sendo como ele, gestos semelhantes, expressões semelhantes, até sentimentos semelhantes, ele achava essas semelhanças excêntricas, diferentes demais por mais idênticas que fossem visualmente. Parecia brincadeira, uma sacanagem da vida, a voz lhe falhava quando tentava dizer uma simples frase, o som das suas cordas vocais era metálico como instrumento enferrujado de tanto tempo que ficava sem uso.

Um pintor expressa seus sentimentos através dos traços que tingem as telas em branco, o escritor usa a verborragia para definir com exatidão seu espírito, o cantor eleva sua voz à emoção de sua alma dando forma a esses sentimentos, todos estes tem subterfúgios de acalentar a dor, porém Lui não podia, tinha que viver com todos seus prazeres e martírios dentro dele e seu silêncio era muito mais barulhento que qualquer expressão que a arte possa definir. Era possível considerá-lo um artista, onde o nada era sua grande obra prima.

Acostumou-se a exclusão, o que não era uma escolha, mas sim uma adaptação a este silêncio. Desde criança Lui tinha comportamentos estranhos. Por exemplo, dormia sempre que podia. Diferente das outras crianças de sua idade que costumavam brincar de bola, correr na rua, fazer barulho e gastar aquela energia infinita que elas parecem ter na forma de atividades, Lui apenas se interessava pelo sono, dormia a maior parte do tempo. “Não é possível que essa criança durma tanto!” dizia sua mãe. Lembrou-se de quando ela lhe contou do dia de seu nascimento, ela pensou que ele estava morto, pois não fez som algum ao nascer, os próprios médicos estranharam a criança não chorar e teve que dar mais que dois tapas na bunda do neném para que ele esboçasse alguma reação. Ele não queria nascer, exclamou um risonho médico.

Passou a infância assim, quando acordado deixava-se levar por uma vontade sem vontade, uma inércia que controlava autômato o que devia ser espontâneo. Na verdade Lui era apaixonado pelo sonho, apenas encontrava paz quando seus olhos apagavam a luz da vida real e se entregava à sua imaginação. Lá ele podia tudo, qualquer coisa. Pensava constantemente como seria bom se pudéssemos nos entregar às alfurjas dos sonhos onde a alma se revela sem preconceito. O mundo estava sempre privando a gente das coisas, impondo limites, mas o mundo onírico é despido da vergonha e a nossa essência vaga livre entre os desejos absurdos que a realidade nos priva. Queria afundar-se e livrar-se da constante negação da realidade, indo para o intocável que parecia falhar na sua concepção de ilusão, que durante o sono se tornava mais real que a própria realidade. Para ele, era a recriação, o sonho era se tornar como Deus, permitia um mundo onde o “Eu” era todas as partes, ou simplesmente um modo de esquecer a verdade.

Por que as palavras lhe fugiam? A ausência sempre ensina o valor daquilo que lhe falta, entendeu assim a importância da fala, da expressão. Do que adiantava sentir se não pudesse dizer que estava sentindo. Pensava que era um amaldiçoado. Observando aqueles que falavam sempre sem parar entendeu que a sua condição, por mais muda que fosse, tinha algo a dizer.

Sua paz veio naquela tarde em que pode entender com exatidão a ausência da palavra. Sentado numa praça e vendo o movimento das ruas, Lui achava que tudo parecia mecânico, vidas como engrenagens de um relógio espiritual que fazia o mundo girar. Seus olhos cansados cruzaram com de uma garota pequena e por algum motivo os dois não desviavam o olhar, como se algo ligassem aqueles corpos, um reconhecimento. A menina se aproximou com seus olhos azuis e sorriu, ele retribuiu o sorriso. Por que o senhor está com olhos tão tristes, perguntou a menina. Seus olhos riram junto com seus lábios, ficou impressionado como aquela criança sentiu sua áurea sem que ele dissesse uma palavra, hesitou em responder, mas a menina prosseguiu. Sabe, seu moço, eu brinco muito sozinha e reconheço de longe esse tipo de expressão, seus olhos chegam a ter um tom avermelhado até como os meus, mas está vendo aquela moça ali sentada – seu dedinho apontou uma bela jovem que lia distraída num banco oposto ao de Lui – então, é uma amiga e está cuidando de mim, vou te dar um dica moço, o segredo não é se fazer entender… de repente a menina parou e só ficou sorrindo para ele, Lui estava olhando atônito para ela e nem percebeu que  a outra moça se aproximara.

Desculpe senhor, disse a moça, e depois virou para a menina e perguntou, você está atrapalhando o moço? Lui a defendeu e falou rapidamente, tropeçando nas palavras. Imagina, continue garotinha, diga o que você estava dizendo. A menina não disse nada e apenas sorria para ele, a jovem que a acompanhava olhou para Lui com um olhar estranho, até que depois de um silêncio disse: senhor, essa menina é muda, desculpe e incômodo.

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