Não está no dicionário

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Ele era um homem de significados. Como todo o homem de sentido, via a necessidade do conteúdo, da definição. Procurava as palavras certas para assim conseguir ser exato e passar aquilo que sentia com precisão. Na coesão de letras, via o poder de concretizar. Ao escrever e nomear ele sentia que tornava o intangível em real, tudo ficava concreto e demarcado. Longe das definições, as sensações se perdiam como animais não adestrados, que por não terem nome não atendem aos comandos e chamados. A palavra era o controle, a maneira de colocar a caótica existência em harmonia com as formas, moldando-a nos caracteres dos vocábulos.

Há dias ele andava pela casa com um papel e caneta em mãos, fazendo um grande suspense e criando uma expectativa enorme em Marta, sua mulher. Era importante para Jorge encontrar as palavras certas, ansioso para ver a surpresa invadir a expressão delicada da futura esposa. Queria preparar o discurso do seu casamento, marcado com uma antecedência planejada e aguardado por ambos com excitação.   Jorge e Marta formavam o tipo de casal que se completa.  O segredo, diziam, estava justamente na comunicação. A grande diferença entre eles e a maioria dos casais é que eles se aceitavam, respeitavam seus limites, entendiam as necessidades, não usavam o pronome possessivo para definir aquela sintonia. A posse que há no MEU é veneno num mundo onde o domínio também é uma espécie de prisão. Um não tentava mudar o outro: compreendiam-se.

Haviam se conhecido na praia, local que seria feita a cerimônia de união, algo que na verdade era meramente formal, pois já viviam juntos. Porém, os rituais são importantes para pessoas de definições, por isso era tão especial aquele momento, mesmo que não alterasse nada na rotina. Ainda mais especial, era o discurso que Jorge faria. Este tinha a curiosa obsessão pelos dicionários, passava muitas vezes manhãs, tardes e noites lendo as palavras e anotando ou grifando as que mais gostava. Levava aquilo a sério. Conhecido pelos amigos por sua habilidade com as palavras, certamente não deixaria de menos uma ocasião como esta.

Jorge andava visivelmente incomodado com a suposta ausência de inspiração. Percebeu que todas as palavras de seu extenso universo léxico sumiram, pairava sobre um nada que tinha uma densidade injustificável. Logo ele que tinha uma afinidade tão grande com as palavras, vê-las fugir dessa forma era um abandono. Passou algumas noites olhando o nada sentado a uma poltrona enquanto Marta apenas observava aquela aflição carinhosa. Jorge não entendia a dificuldade de dizer algo que lhe era tão claro, talvez o excesso de expectativas que colocavam naquilo o travava, preferiu acreditar que os vocábulos eram irrisórios demais para demonstrar a extensão do sentimento que tinha.

Naquela manhã Marta acordou e havia um verdadeiro banquete montado para o café. Surpresa, questionou sobre o motivo de tamanha regalia e honra. Recebeu afeto como resposta, soube que finalmente ele tinha feito os votos para o grande dia e guardara em um envelope o tão batalhado discurso. Aquilo era uma comemoração. Marta brincou insinuar uma busca pelo conteúdo, impedida por abraços e beijos de ternura.  Faltavam poucas semanas para o casamento, Marta estava mais feliz em ver a tranquilidade no rosto da sua metade do que com a possibilidade sobre o conteúdo que o futuro marido se esforçara a escrever.

Estavam se preparando para ir trabalhar leves e com uma alegria fora do comum, com sonhos lúcidos no peito e promessas previamente cumpridas de felicidade. Jorge estava especialmente agitado, como se tivesse feito uma grande descoberta com a conclusão do seu discurso. Antes de se separarem, ele tinha lágrimas nos olhos. Marta espantou-se com tamanha emoção e ficou verdadeiramente curiosa sobre o conteúdo do envelope, o indagou.

Este respondeu com um sorriso silencioso, deixando a delicadeza de seu olhar replicar à Marta que, sem poder explicar, também se emocionou.

Era à tarde quando o telefone no trabalho de Marta tocou. A voz do outro lado era de uma grande amiga dela, e de Jorge também. Ouviu o que o telefone lhe dizia sem conseguir se mover, com uma imobilidade assustadora e olhos arregalados, seus lábios esboçaram algum movimento, mas foram em vão, a voz não saía, por fim, desmaiou.   Tanto controle e expectativa para que a pomposa realidade rasgasse aqueles planos como o despertar de um sonho. Um futuro que parecia perfeito foi marcado pela tragédia. Jorge tivera um infarto durante o horário de almoço, foi fulminante como um erro de percurso. A fatalidade do viver desnuda nossa ilusão de controle. Nem todas as linhas do mundo poderiam descrever a intensidade daquela notícia. A dor de Marta não caberia nas definições.

Passou pelo estágio da recusa, depois da inconformidade para depois iniciar o processo de aceitação. Em seu luto, se desfez de tudo do marido. Roupas, livros, dicionários. Estava viúva de alma, a vida perdia seu encanto atada às lembranças do perfeito amanhã que se extinguira. Foi quando encontrou o tal envelope dos votos do casamento, com o papel dobrado dentro dele. O peso daquilo foi incomensurável. Relutou, deveria ou não abrir e sofrer por um futuro que nunca alcançaria? Refletiu, aquelas palavras ainda eram vivas, deveriam ser lidas, lembrou-se da felicidade do amado em ter conseguido, enfim, expressar o que sentia. A surpresa realmente lhe tomou o semblante quando ela desdobrou a folha que o envelope carregava, pois dizia algo que ela tinha aprendido com aquela experiência e essa sincronia tinha tornado o entendimento integral e legítimo. Lá dentro, uma folha totalmente em branco, sem nenhum rabisco, nenhuma palavra, nenhum voto.

Abraçou o papel e compreendeu Jorge, o homem das palavras, de bom coração, do tipo que se achasse dinheiro na rua pensava primeiro no azar de quem o perdeu ao invés na sorte de ter encontrado, entendeu todo o sentido que aquela ausência dizia em sua mudez. As palavras constituem uma fraude. Quando se diz, mente. A leveza de Jorge naquela manhã era a evidência desta epifania, Marta entendia bem a intensidade que nos torna silentes, tendo na fatalidade a prova de que as palavras fogem às definições quando a alma é tocada. Naquele nada, Jorge expressava tudo que nenhuma sentença poderia dizer.

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