O abismo do riso

em

Quando acordei, Jéssica já estava sentada ao meu lado, com aqueles olhos brilhantes e o mais doce dos sorrisos, além daquela barrigona imensa que carregava o fruto do nosso amor e me dava esperanças de que aquele dia seria bom. Ela estava mais ansiosa que eu, imagino. Se esforçava ao máximo para não demonstrar e não causar “pressão”, mas ela mentia muito mal. Eu sabia que aquele dia era de grande importância não só para mim, mas para o futuro de nós três. Eu havia me preparado tanto, me esforçado tanto, que era compreensível ela estar ali com aquela confiança que no íntimo me faltava.

Nossa situação era a mais crítica desde que eu havia perdido o emprego, há 4 meses, as despesas só aumentavam e as contas se atrasavam com frequência, minha família me ajudava a comprar comida e eu estava cansado de tentar não me afogar nisso tudo, maquiando com paciência uma angústia incontrolável. Em poucas horas eu estaria diante da última etapa de uma seleção para a vaga dos meus sonhos, ou melhor, nossos sonhos. Depois de intensas dinâmicas, análises psicológicas e fases que se prolongaram por meses, eu era um dos quatro finalistas para um alto cargo administrativo em uma das maiores empresas de tecnologia.

A prova finalmente chegara e consistia em um teste completamente técnico e focado à função, com perguntas dissertativas. Ancorando minhas expectativas naquela oportunidade única, motivado em conseguir minha dignidade e sanidade de volta, encarei a realidade com um toque de humor nos lábios para afastar a tensão do momento, afinal, viver é jogar com o improvável, é dar sentido ao não-sentido, é assim que se cria o existir.

Foi então que me deparei com meus adversários, duas mulheres e um homem, eu parecia o mais velho entre eles e também o mais qualificado. Escrevemos nossos nomes completos em etiquetas autoadesivas que colamos ao peito, feito aqueles programas de auditório que passam no domingo à tarde. Fomos colocados numa sala, em uma espera interminável que talvez fosse proposital para nos forçar a interagir, mas meus motivos eram suficientes para fazer companhia aos meus pensamentos, portanto eu estava altamente focado em conseguir aquele cargo e me mantive em silêncio, evitando encarar os outros participantes.

As moças conversavam, de um modo educado pareciam querer mostrar-se superior uma a outra. O outro rapaz me deu bom dia, chamando-me pelo nome que estava exposto na etiqueta, respondi timidamente com um aceno com a cabeça. Meu celular tocou, fazendo-me lembrar que não é de bom tom manter o celular ligado nesta situação, ouvi um ruído de deboche vindo de alguma das mulheres que me causou grande desconforto. Era Jéssica, atendi. Sua doce voz me desejava boa sorte, sorri nervoso, agradeci e desliguei o aparelho o mais rápido possível tentando disfarçar o constrangimento, quando entrou na sala o instrutor que aplicaria o teste. Após entregar as provas, informou que quem a terminasse poderia sair deixando-a dentro de um envelope localizado em cima de uma carteira vazia, depois saiu prometendo voltar em 45 minutos para recolher o envelope com os testes.

Não sei dizer o que ocorreu, simplesmente eu não sabia nenhuma das cinco questões daquela folha. Na sala havia um imenso relógio de parede com um ponteiro vermelho e espesso dos segundos, ele deslizava sobre os números como uma foice a ceifar minhas esperanças. Vi que o tempo sentenciava à morte meus sonhos como um despertador rompe o descanso numa segunda-feira de manhã. Pensei em Jéssica, no meu filho e divagava inutilmente em meu nervosismo. É incrível como toda a desilusão tem um gosto excessivo de realidade. Senti uma vontade desesperadora de berrar e chorar, de dizer o quanto eu era qualificado e de como minhas necessidades eram nobres. Que aquela prova não poderia mensurar meu potencial, que as duas moças eram nitidamente ricas e o rapaz educado demais para quem precisa de um emprego, explicar que muitos sonhos estavam se despedaçando naquele momento.

Enquanto os outros rabiscavam freneticamente suas folhas, eu nem havia preenchido o nome e a data. Pensei em entregar assim, em branco, sair no anonimato escondendo minha vergonha, pois talvez pensariam que eu estivesse faltado. Ledo engano, era inútil tentar esconder minha humilhação, não é possível encarar-se sob o manto das ilusões, a realidade é única, e é preciso ter muita força para vê-la frente a frente. Sairia dali com dignidade, assinando ao menos meu nome e entregando, usaria a sinceridade e perderia aquele jogo com honra. Meu receio era mais com as expectativas de Jéssica do que por minha própria falha.

Minha mão suava, quando firmei a caneta para preencher  a única coisa que sabia daquele teste, o outro rapaz, que estava algumas carteiras atrás, tropeçou e quase caiu em cima de mim. Ao se desculpar ele trocou as provas, pegou minha e deixou a dele na minha mesa. Antes de que eu pudesse protestar, ele apontou com força para o nome e raparei que ele havia posto o meu na prova dele. Fiquei totalmente sem ação, olhando pra folha. Antes de colocar a prova dele no envelope, ele se curvou e preencheu o nome, colocando-a em branco dentro do envelope, deixando um sorriso sincero como adeus.

Mal podia acreditar naquela prova em minhas mãos quando o instrutor entrou dizendo para entregar o teste que o tempo havia acabado há cinco minutos. Ao sair da sala, procurei o rapaz por toda a parte, mas não o encontrei . Dias depois fui chamado para o cargo, pois atingi a pontuação máxima no teste. Jéssica achou a história um absurdo, prometi a ela que quando estivesse na empresa arranjaria um jeito de conseguir a ficha daquele cara para pelo menos agradecer e talvez entender.

No meu primeiro dia de trabalho fui apresentado aos meus superiores, quem eu deveria responder pelas responsabilidades que me foram dadas, entre eles havia um que também estava em seu primeiro dia, por isso promoveram uma reunião de boas-vindas. Ao entrar na sala, uma surpresa: o outro novato era aquele homem a quem eu devia meu cargo.

Ele não pareceu surpreso ao me ver, na primeira oportunidade perguntei por que ele havia feito aquilo. Ele era um homem assustador, porém inofensivo, o fato é que sua presença intimidava. Não consegui encará-lo muito apesar dele aparentar ser uma pessoa totalmente amigável e nada hostil, mas seu olhar tinha uma força inquietante. Apesar de transmitir segurança, a força também pode ser prejudicial por não ser flexível. A ligação que há num olhar é muito intensa, e só me dei conta disso ao sentir dificuldade em fitá-lo, dando um sentindo mais amplo à expressão “janelas da alma”, enxergar é também ser visto.

Ele havia quebrado um ciclo, foi o que me disse em justificativa. No jogo sempre há vitória e derrota e fazemos da vida um imenso campo que cria uma rotina que nos leva à destruição, que não entende que enquanto a exclusão for o caminho, o entendimento pleno nunca será possível. Buscava, então, modos de romper esses ciclos e criar realidades melhores, pois é através do vínculo que se encontra uma forma de ultrapassar a si mesmo. Nada é mais desconcertante de que uma alteridade sincera deste tipo. Depois, ele me contou que, inesperadamente, a empresa estranhou uma prova em branco e entrou em contato para saber o que havia acontecido. Eles gostaram da atitude que ele usou como justificativa, da sinceridade de assumir e da prova de caráter, convidando-o a fazer outro teste, para uma outra vaga relacionada, já que aquela havia sido preenchida por mim.

Neste dia percebi que não há felicidade mais plena que a gratidão, e num sorriso que brotou em meu rosto senti o abismo que podemos criar na realidade nesta simples expressão. Quando vindo da alma, o sorriso é inalcançável e vai além de todas as definições, resumindo o valor de ser humano em um único gesto. Mesmo que o real e o fantástico sejam sempre opostos, extrair isso das pessoas é nossa possibilidade de criar uma realidade fantástica e completa, rompendo os ciclos que prendem nossas almas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s