O crime

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Sua cabeça doía tanto que o tilintar do telefone tinha um volume estratosférico em seu tímpano. Era uma ressaca junto de uma enxaqueca que tornava o ato de respirar insuportável. Buscou o telefone ainda cego de dor e sono com o único objetivo de fazê-lo parar. Atendeu e disse alô mecanicamente enquanto procurava analgésicos. Era do seu trabalho, que lhe procurava com a intensidade de um amante apaixonado e transformava sua rotina de policial pior que de um médico de plantão.

Sua reputação profissional era de ser um gênio, resolvia com facilidade casos complexos apenas com o poder de sua aguçada observação, era o melhor no que fazia. Não havia crime sem solução nas mãos de Charlie. Sua genialidade era tão genuína que tornava natural o sucesso em suas realizações, ele acreditava que as pessoas superestimavam-no e não via seu dom como algo especial. Na sua aguçada observação, seu segredo era simples, ele apenas se comprometia com aquilo que propunha, mergulhava de cabeça.

Dizem que todo o gênio tem um laivo de loucura, e se tinha um sintoma da genialidade que ele próprio reconhecia era isso. Seus colegas mantinham certa distância daquela personalidade intimista, um tanto prepotente. Ninguém era próximo de Charlie, em contrapartida todos o admiravam muito, talvez uma coisa seja diretamente ligada à outra. O ofício de investigador da polícia era denso e aquilo vinha fatigando seu espírito. Nos últimos meses tinha tido apagões como aquele que a pouco despertou, mas mantinha aquilo em segredo; Charlie apenas dizia o que tinha certeza e por isso se calava frente ao fato.

Lembrava que o telefone lhe dissera de um novo caso que acabaram de descobrir e que ele deveria comparecer, Charlie não sabia onde nem como tinha chegado ao local que se encontrava e logo se arrumou para sair daquele quarto barato com cheiro de mofo. Por sorte o endereço do caso que precisava ir era próximo daquele casarão em que estava hospedado. Perguntou na recepção do hotel a que horas tinha chegado e se havia alguém com ele, dessa forma soube que chegou pela madrugada e sozinho, timidamente, a atendente arriscou o palpite que ele estava bêbado, ela deveria estar certa pelo embaraço do comentário.

Entender pode ser encarado como ser, de uma maneira platônica. Charlie era um bom policial porque provavelmente poderia ser um bom criminoso. Sua visão aguçada para o crime era também a revelação de seu íntimo marginal. Um crime é sempre uma violência, o criminoso é um agressor e nessas nuances, tornam-se frágeis qualquer tipo de movimento. O idealizado é de alguma forma o real, uma vontade latente de infringir alguma barreira adormece no leito da justiça; Charlie não admitia injustiças, era alguém extremamente reto em suas convicções e valores, por isso também se mostrava tão áspero. Toda a segurança é rígida, inclusive a própria.

Chegou à cena do crime. As circunstâncias da morte naquele apartamento eram misteriosas, Charlie havia sido chamado exatamente por isso. Sua chegada causava intenso alvoroço em todos os presentes, sua reputação era realmente esmagadora. Charlie simplesmente não suportava aquilo. Mais para conforto pessoal do que para concentração, era costume todos saírem do local do crime quando ele chegava para analisar. Ele precisava de silêncio absoluto e uma solidão profunda para dar seu parecer, que nunca teve um erro.

Sozinho com um cadáver. Lá estava ele olhando a cena composta de um corpo nu sem marcas de violência no chão do banheiro, a luz fluorescente dava um aspecto mais mórbido ainda que um cadáver pode ter. A morte certamente tinha sido por sufocação, uma morte íntima, de alguém próximo, algo como uma traição. Não há sinais de luta, examinando o corpo e suas expressões ele percebeu que a vítima tinha se entregado à morte, como se a surpresa daquele ato cruel fosse mais forte que sua vontade de viver. Sua cabeça ainda doía muito, o barulho agudo do silêncio parecia uma lâmina no seu raciocínio, procurou suas aspirinas no bolso e encontrou apenas o pedaço de um guardanapo rasgado, percebeu que as tinha esquecido no hotel.

Passeou pelo apartamento, na cozinha apenas um copo sujo na pia, provavelmente o agressor havia bebido algo naquele copo, pela disposição e organização dos utensílios ficara óbvio que um descuido como um copo sujo na pia não era usual, tampouco admissível. Viu os livros, os discos, algumas anotações, papéis inúteis de propagandas de viagens; parecia uma pessoa interessante e boa. A assimetria das almofadas chamou sua atenção, haviam estado ali certamente, Charlie inexplicavelmente sentia algumas intuições que eram praticamente evidências, e visualizou ali a vítima ainda com vida.

Encontrou um pequeno papel, um fragmento de uma intimidade reveladora. Era um bilhete romântico, uma promessa, uma jura. Aquele papel rasgado lhe trouxera uma estranha sensação. Sem pensar e olhando fixamente o bilhete a punho, com a outra mão tirou do bolso o guardanapo rasgado. Eles se encaixavam perfeitamente. Aquela era sua letra.

Os investigadores no corredor do apartamento estavam inquietos com a demora de Charlie, a complexidade do caso e sua falta de evidências talvez justificassem aquela espera agonizante. A polícia tinha reunido todas as informações possíveis: ninguém viu nada, ninguém sabia de nada, as explicações se especulavam no nada. Charlie saiu do apartamento sério, porém com respostas. Todos ouviram e acreditaram, a fé que depositavam na sua experiência era justamente o detalhe que faria Charlie nunca ser suspeito. Há uma fé muito mais pura na verdadeira dúvida do que na crença pré-estabelecida. Essa estratégia era perfeita.

Charlie é um ser humano admirável, seu amor à justiça e sua dedicação contra o crime, seus inúmeros casos bem sucedidos, toda aquela trajetória de reconhecimento e admiração que o elencavam como um exemplo, tudo aquilo estava de acordo com quem ele era. Seu amor… era outro de seus segredos. Porque o amor é o único que constrói e destrói, com uma beleza terrível e doce, tinha sido por amor que ele reconstruiu um novo exemplo. Sem dúvida um ser humano admirável. Mas ainda assim, humano.

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