O despir

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Somos animais vestidos. A mais incontestável distinção que separa os homens dos outros animais são suas vestes. Estas também são as mais reveladoras. O modo que nos trajamos diz muito sobre o indizível. É tão comum pôr roupas que a nudez é como um assalto à intimidade, por um momento o natural deixou de ser o espontâneo e o disfarce tornou-se uma forma óbvia de ser. Aprendemos a ter vergonha de nós mesmos. Trocamos de roupas e estilos, somos diariamente diferentes. A multiplicidade que se define ao reinventar o mesmo, e o infinito que reside nisso, é o universo que mora em nós. Fórmula que nos brinda com possibilidades e a criação.

De corpo e alma usamos disfarces que nos demarcam. Ao perceber a quantidade de acessórios que usamos foi que entendi o poder da imaginação. Uma monstruosa capacidade da existência de transformar o nada em tudo e vice-versa. Essa virtude de criar o sentido através do vazio, vazio que abre espaço e anseia ser preenchido.

A vida é muito longa, como diz um poema de T.S. Eliot. Aqueles que dizem que ela é curta provavelmente nunca se apaixonaram para sentir a eternidade que são os segundos longe do ente amado. Ou talvez se apaixonaram demais, a ponto de não perceber as diversas realidades contidas na percepção. Aos efêmeros e imediatistas, não cabe a contemplação que há na arte ou nos poemas. Eu precisei de um impacto para frear o demônio da ansiedade que roía minha alma, este frágil tecido onírico que gera atrito ao chocar-se com a densa realidade. Porém, isso sempre é diluído em nossa percepção e toda percepção é injusta.

Vamos por partes, porque o todo sempre foi uma interpretação.

Como um grito, explodia uma manhã de um dia maravilhoso. Ela nos convidava ao sorriso e eu não resisti a estes apelos naturais. Aproveitei o bom clima para correr, coisa que sempre gostei muito de fazer por considerar um momento meu, uma oportunidade de superação, talvez alguma figuração mental de uma zona segura onde nada pode me alcançar. Existia algo de inexplicável que eu procurava não entender naquela manhã. Curioso o fato de procurar não entender. São extremamente raros os momentos em que não procuramos a compreensão.

Neste êxtase, sai e, distraído em meus devaneios, fui interrompido por um forte esbarrão com a realidade. Primeiro o susto por algo obstruir meu caminho, depois o desconforto por perceber que era um mendigo que cruzara a pista sem eu perceber. Aquele choque levantou um forte cheiro de urina, característico aos moradores de rua, e isso me causou repulsa. Senti vergonha como quem é pego nu e desprevenido, era como se o mundo me dissesse nas entrelinhas que a realidade não era apenas a beleza que eu via, mas também as dores que eu escondia.

Senti o choque como um castigo, uma palmada. Foi necessário o impacto, ou melhor, um encontro com uma realidade que não me pertencia para me forçar ver. Desta forma percebi que a diferença entre o carinho e a agressão é a intensidade, não a intenção. Nada sai ileso à experiência do encontro e esse choque me causou espanto. Na dúvida de quem era a culpa, assumi a responsabilidade e pedi desculpas, ainda atordoado, me esquivando, mas fiquei paralisado quando acidentalmente meus olhos se cruzaram com os dele: aquele homem era exatamente igual a mim.

Era como se eu estivesse olhando um espelho. Era nítido demais, mesmo por baixo da barba malcuidada, da pele maltratada pelo sol. Era nítido. Ele também se mostrou em choque como eu, pelo encontro e pela percepção. Fugi, diferente dele que ficou parado me olhando, continuei correndo tão confuso que ao invés de avançar recuei, voltando pelo caminho que tinha vindo, e a poucos passos o ouvi dizer meu nome.  Parei novamente um pouco distante, mas não o bastante para que aquele contato acabasse. Parei mais pela surpresa do que pelo chamado. Olhei para ele e (com a voz trêmula e quase inaudível) perguntei o que ele tinha dito. Ele não entendeu, mas sua resposta me assustou mais. “Eu lhe disse meu nome”. Sorri desconcertado e continuei a correr como quem deseja acordar de um pesadelo.

A razão não saberia explicar o que havia acontecido. Muito menos minha reação àquilo. Não queria ter fugido. Na espontaneidade de nossas ações nos descobrimos e somos verdadeiramente no desconhecido. A última coisa que somos é aquilo que acreditamos, o ideal e o real se misturam à percepção até a surpresa surgir. A sinceridade mora no imprevisto, todo mundo é verdadeiro no susto. Aí está a doçura das novidades, pois nesses encontros a verdade sobre nós mesmos se revela, e somos bastante curiosos. Aquele encontro ficou na minha cabeça por dias, a culpa pela covardia me corroía, até que de tanto ser atormentado pelas dúvidas, fui ao local que houve o encontro e lá vi o homem tão igual e tão diferente de mim, cercado por cães tão descuidados quanto ele.

Fui ao seu encontro, desta vez como uma palma que vai mutuamente a outra, e, por isso, não causa estalo. Neste contado, sofri a humilhação de me conhecer. Aquele farrapo humano vestido de eu me fez abrir de forma libertadora. Quando cheguei ao seu lado ele não se mostrou surpreso com minha aproximação e simpático perguntou como eu estava lidando com a solidão. O que poderia dizer ele sobre mim se não nos conhecíamos? Minhas motivações ali poderiam ser apenas a curiosidade das coincidências e não uma necessidade de conversar, o que o faria pensar que eu não tinha amigos ou outras pessoas? Mas olhando aquele homem como um reflexo, vi-me como os outros me veem e fui tomado por sensações desconhecidas.

Não pode ser um espírito covarde aquele que assume sua condição de sobrevivente, sua finitude e a insignificância da sua existência frente à Natureza. Ver-me como um algo destituído de moralidade, de admirações, confundir a visão daquele mendigo como um espelho e ver a crueza de uma vida que poderia ser oposta a todos meus ideais mostrou fraquezas que tornavam aquele homem uma forma de vida extremamente mais evoluída que a minha. Percebi meus valores distorcidos e lógicos, como se um excesso de lucidez ferisse todos meus sonhos e me fizesse acordar de todos eles. O despertar é o fim de um sonho. Assim, vi na sua forma plena e nua, sem as vestes da moralidade, ética, religião ou política: a realidade.

“Por que você não fica?”, disse ele depois de um longo silêncio. Sentei ali com os cães. É preciso muita coragem para reconhecer a miséria em nós e criar uma adaptação ao próprio destino. Sem revolta, consciente. Naquele contato, percebi que criamos incapacidades uns nos outros de sentir juntos e que nada somos. Somos apenas sem disfarces quando percebemos e somos percebidos. A sutileza que há na poesia da natureza em nos dizer sobre esse nada e ao mesmo tempo como isso é tudo atordoa. Resolvi ficar e lhe fazer companhia, o encontro dos nossos nadas foi o suficiente para criar tudo.

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