O vírus

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Aqueles olhos brilhantes e sempre atentos, ornados com uma expressão jovial e ao mesmo tempo experiente, lhe distraia a idade e despertava a curiosidade até aos mais isolados e misantropos. Não se sabia explicar o que acontecia, mas havia uma empatia acima do normal nele, alguma atração que fazia com que as pessoas simpatizassem previamente com sua presença, tornando-as suscetíveis aos seus cortejos. Talvez o motivo fosse aquele sorriso que sempre lhe servia o rosto, dando um aspecto bem-humorado a qualquer assunto mais sério ou então uma ironia requintada a qualquer tragédia. Era extremamente recatado, mas expandia-se com facilidade nos espaços que lhe concediam. Como um quadro exposto em uma parede lisa e branca, ele se destacava da mesmice das expressões com uma autenticidade cheia de segurança e isenta de soberba.

Era seu primeiro dia naquela grande multinacional. A princípio, a curiosidade da novidade; depois, a atenção da excentricidade. Uma vez lá dentro, pouco a pouco no refeitório ia conhecendo as pessoas e falava suas ideias. Tinha uma mania que era o gancho que servia de pretexto para uma abordagem: todos os dias ele esperava a comida de seu almoço esfriar antes de comer, o que fazia do momento uma oportunidade perfeita para as pessoas se aproximarem e para ele fazer longos discursos.

Sua oratória era tão incrível e seu pensamento tão singular que as pessoas passavam a admirá-lo por tamanha eloquência e vivacidade. Explicava aos curiosos, por exemplo, que esperar a comida esfriar era um processo que devia ser aplicado em todas as situações da vida, na qual a analogia do quente era um dos extremos que impedia sentir o verdadeiro sabor da experiência. O quente é sempre quente, não se degusta a essência – afirmava ele.

E como é grande o poder que a admiração tem! É a inocência da inveja, a solidariedade da cobiça. Mais e mais os colegas o admiravam nessas conversas. E sabe-se muito bem que a admiração é a base nobre de diversos sentimentos. As pessoas subjugadas a ela são transformadas por seu toque. O novato tinha verdadeiros fãs ali, e vocês sabem como a paixão fanática é violenta. Os mais incrédulos diriam que as vítimas perdem a identidade, já os otimistas apostariam no desenvolvimento de novas habilidades. Mas o fato que devemos destacar é que eles se refletiam.

À hora do almoço, a hierarquia também deixava o expediente. Foi aí que muita gente se transformou. Faxineiro que se descobriu pintor, analista que se viu professor, teve até estagiário que se encontrou filósofo. Certa vez, defendeu que a existência só acontecia no coletivo, dando ainda mais importância aos encontros que tinham naqueles 60 minutos, que era mais aguardado que o próprio fim do expediente. Seus argumentos eram tão reais e próximos que convenciam a todos que a vida não valia nada se não participasse da existência.

A simplicidade da sua sabedoria servia como ímã. Isso dava uma sensação de pertencimento àquelas pessoas, fornecia justamente sustentação ao desamparo e impotência que é sentir-se vivo numa pulsação solitária. Juntos eles eram um organismo. Agrupavam-se pelo desespero de testemunhar os dias. Porém, o mais importante resultado daqueles momentos era o de fazer com que eles enxergassem a superficialidade do cotidiano, despertando suas vontades para as coisas que representassem mais em suas vidas do que a rotina em que viviam submersos, ensurdecedora de possibilidades e expansões.

Em pouco tempo o rapaz cresceu bastante lá dentro. Conseguiu ter importância mantendo a mesma clareza de seus métodos. Tanta notoriedade começou a chamar atenção principalmente pelas consequências que despertavam. Alcançou posições vitais, estava no coração da empresa. Até que então, do nada, em uma manhã ele pediu sua demissão. Seus motivos eram ocultos, mas suas marcas inconfundíveis.

Para sempre aquela empresa seria como ele, os que lá ficaram eram como sósias de seus pensamentos e reproduziam perfeitamente seus ideais. Enxergava dessa forma sua missão: efêmera e cheia de energia, porém sempre voltada à finitude. A condição de a vida existir é estar fadada ao fim, é um significado intrínseco, sentia isso em seu corpo. Quando percebia que tudo lhe ficava igual, via-se uniforme, sem características. Perdia sua forma na igualdade, e tudo que não tem forma, não tem sentido. Precisava sair. Tinha em seu íntimo o conhecimento que todos seus esforços sempre levariam à destruição, ao fenecimento, aprendeu a identificar e entender que a porção de morte que há nas coisas reflete a verdadeira vitalidade delas. Por isso era mutável e mutante. Por isso transformava.

Seu trabalho era dinâmico como ele. Era da área de TI e tinha um apelido engraçado por causa desse seu ofício. Tinha um currículo muito bom e logo conseguiu uma nova oportunidade em outra empresa de grande porte. Estava em um novo primeiro dia, do mesmo modo tímido e solicito. Quando entrou, sabia exatamente o que iria acontecer a seguir. Ainda assim, o mesmo para ele era sempre surpreendente. Perguntaram seu nome ao indagarem por que ele estava imóvel com o prato de comida no refeitório da empresa, ele sorriu e disse que preferia ser chamado pelo apelido, que era Vírus, e começou a explicar o motivo que o fazia ficar parado em frente ao prato.

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