Orfanato Rosa

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Nos últimos tempos, o Orfanato Rosa passava por uma situação que nunca havia ocorrido antes. As chaves das salas, quartos, depósitos e outros locais daquele imenso casarão com crianças estavam desaparecendo. No começo, quando os sumiços começaram, os casos eram isolados e tidos como acidentes, ou seja, simples perdas. O que faziam era trocar as fechaduras e reporem as chaves no quadro. Depois viram que a frequência dessas “perdas” estava aumentando, dessa forma, desconfiavam que o descuido fosse roubo. Intensificaram a segurança e até os funcionários que trabalhavam por ali foram remanejados para outras partes da instituição, a fim de não constranger ninguém com uma acusação infundada. A direção tinha dado o caso como resolvido quando adotou uma importante inovação: uma câmera de vídeo que gravava 24h quem tinha acesso ao quadro de chaves. No dia seguinte que todas essas medidas de segurança foram tomadas, três chaves simplesmente sumiram sem nenhum vestígio.

A diretoria ficou perplexa ao assistir as gravações da câmera que não captaram nada de anormal na movimentação do dia anterior. Os protocolos de retiradas e entregas estavam todos em ordem e foram conferidos à exaustão, era como se algo sobrenatural fizesse as chaves evaporarem. Nos dias seguintes, o acontecimento se repetia nos mesmos moldes e por mais que o orfanato se esforçasse para manter isso longe do conhecimento das crianças, já corriam diversos boatos sobre o caso. A imaginação dá muita fertilidade para a realidade a ponto de transformá-la. Ainda mais em cabeça de criança que graças à leveza de sua bagagem podem ter viagens mais profundas do pensamento. A ideia sobrenatural provocou o medo em muitas delas, e o medo cria. Monstros, fábulas, contos… Eram diversas as existências que o medo paria, a que ficou mais conhecida foi a da menina Dolores, que faleceu poucos dias depois de chegar ao orfanato e ninguém soube muito bem os detalhes.

O mistério e a fatalidade daquela realidade póstuma davam mais força aos boatos, sendo pauta principal dos intervalos, refeitório e principalmente na hora de dormir. Sabiam muito pouco desta menina, ela era tão tímida que a julgavam muda. Durante seus escassos dias no orfanato, não se aproximou de ninguém, exceto de Laura, uma garota diferente. Laura era vista como louca pelos colegas, mas era feliz demais para se preocupar com os outros, seu sucesso no orfanato era por contar histórias sem pé nem cabeça. Todos a escutavam sem a ouvir, não a levavam a sério, porém a fértil imaginação da menina era cativante. Gostava de brincar sozinha, mas quando se via obrigada a se juntar aos demais sempre era do contra. Enquanto as meninas queriam brincar de boneca, ela corria com os meninos atrás da bola de futebol; quando a atividade era jogos eletrônicos ela não gostava de jogar, mas sim de narrar o jogo. Laura era falante e cheia dessas particularidades excêntricas. Na hora do almoço, tinha fome de leitura e não de comida, escondendo-se na biblioteca e levando as inspetoras à loucura. Depois, devorava escondido algum lanche no fundo da sala, salvo quando a professora a via e repreendia, aí ela passava o dia morrendo de fome até o jantar. Essas e outras várias diferenças que Laura colecionava a tornara alvo de zombarias que a menina não dava atenção, habituada ao seu mundo imaginário e suas ocupações solitárias, ela se sentia alegre em sua realidade alheia ao real.

Laura e Dolores se juntaram em uma simbiose estranha. Como Dolores não falava, Laura resolveu ser porta-voz da novata e a acompanhava em todos os lugares. O engraçado era que Dolores parecia gostar disso, pois tudo que Laura pedia em nome dela, era acatado. “Sim, ela prefere o azul”, dizia Laura à monitora que questionou sobre o vestido que ela preferia usar, e Dolores ia com um sorriso no rosto pegar o vestido azul. Quando Dolores morreu, Laura não demonstrou emoção. De uma maneira um pouco mórbida, ela ainda mantinha o cargo de ser porta-voz da amiga, mas ninguém deu muita atenção à menina, afinal ela vivia contando histórias, as professoras acreditavam que aquilo era o modo dela trabalhar a perda. Quando os boatos eclodiram, Laura se tornou figura central do orfanato, pois todos começaram a dizer que ela tinha contato com Dolores e sabia onde estavam as chaves. Um dia, em algum intervalo, Laura estava sozinha no balanço quando um grupo das meninas mais populares chegou e começou a chamar a garota de bruxa. Os apelidos “bruxa” e “louca” tornavam Laura cada vez mais alheia.

Foi quando a situação começou a ficar alarmante que certa tarde um grupo dos professores e a diretora foram até Laura para pedir explicações do que estava acontecendo. Os boatos contagiaram o orfanato e o isolamento da menina começou a preocupar. Disseram a ela para parar com essas coisas de dizer que conversava e falava por Dolores e perguntaram se ela sabia algo sobre as chaves. Além disso, comentaram que não era legal ficar com a fama de bruxa por aí, pois ela não se importava com a zombaria, mas na verdade acreditavam que a menina era suspeita. Laura disse com muita naturalidade.

“Vocês não entendem nada. Sou bruxa de verdade, eu tenho a magia e posso fazer vocês terem também, querem? Antes, saibam que a morte é uma ilusão da consciência, tudo é imortal, tudo que existe sempre existiu. As coisas apenas mudam de formas, como Dolores. E eu sou bruxa porque sei controlar essa magia. Vou explicar: a natureza é vaidosa e está sempre evoluindo com o único objetivo de ter memória, que é o poder de trazer o passado para o presente com a força da vontade e do pensamento. Entenderam? É a memória que vence a tirania do tempo. Não sei se vocês sabem, mas o tempo e a natureza são opostos, encontram-se a todo instante. E um encontro tem o mesmo princípio da colisão, é sempre um choque. Por isso, tudo envelhece. Porém, a magia da minha bruxaria me permite ver o filhote de cão que há em um cachorro adulto, se eu o tivesse conhecido ainda novinho, claro. Quer invocação mais poderosa que esta? Eu também sei ver o futuro, vou contar algo que vejo e ainda não aconteceu. O destino de todas as rosas é desabrochar! Viu, o futuro! Parece óbvio dizendo assim, mas o óbvio é sempre tão complicado de se ver! Nós que tornamos as coisas mais difíceis. É claro que Dolores está pegando as chaves, ela está procurando um lugar para morar como todos aqui buscam, mas podem ficar tranquilos que eu já pensei em tudo e em um lar para ela. Com isso, Dolores irá devolver as chaves. Ainda hoje. Nós devemos seguir o mesmo futuro das rosas. Simplesmente desabrochar, crescer e encantar o que estiver em volta que o resto o mundo faz girar. Quanto mais belezas há em nosso presente, mais poder teremos para tornar as experiências em situações atemporais, imortais e imutáveis, tudo através da magia da memória! Ser esquecido é a verdadeira extinção, Dolores não quer ser esquecida.”

Todos a escutavam sem a ouvir, mas se atentaram ao fato dela dizer que traria as chaves ainda hoje. A diretora se aproximou da garota e pediu para ela ir buscar as chaves, convencida de que aquilo era uma confissão e não um relato.

O tilintar das chaves sincronizado com os passos velozes de Laura davam certa musicalidade àquele final de tarde. Caminhou resoluta e grave. Soube que foi incapaz de explicar a posse daquilo que estava desaparecido, não gostaria que pensassem que ela roubara as chaves, ao mesmo tempo a verdade não era verossímil. A garota que inventava histórias só sabia dizer aquilo que acreditava. Ao esparramar de um saco de veludo negro as 32 chaves na mesa da diretora, ela não havia preparado nenhum discurso para sua defesa, disse somente: “Dolores precisava de um lar e agora ela já encontrou, não precisa mais dessas chaves”. A diretora apenas perguntou, “onde Dolores está morando agora?”. A menina apontou para o coração.

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