Orgasmo

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É natural que a gente fuja daquilo que nos traz dor e busque o que nos dá prazer, porém isso pode tornar o altruísmo em mesquinhez, e questiona-se o objetivo de toda a consciência: até quanto podemos alterar a natureza? De qualquer forma, a opção que ela tinha feito foi seguir a natureza, mas talvez não tenhamos o que escolher e somos exatamente aquilo que nossa essência nos diz ser, com a ilusão de decidir. Os polegares opositores que põem esta espécie à frente de outras não puderam, senão, usar da mentira para desvendar a metafísica do viver. E quão fecunda é a mentira. Ninguém vive verdadeiramente porque a mais notável característica do pensamento é criar desculpas; toda a definição é o perdão que a consciência faz ao sentido de algo, a justificativa não é traço da inteligência, mas sim a inútil tentativa de dar razão a um fato que quase sempre é mais real que seus motivos. Deixando as desculpas, ela assumia a culpa, por tudo e todos. Entendia a loucura que a cercava como fruto de uma árvore que ela própria plantara, em algum momento aqueles frutos apodreceriam e cairiam.

Quando não temos controle da situação, e somos expectadores da vida, o todo toma um sentido lúcido e completo que se torna impossível de ser explicado. É uma sensação de silêncio completo, como se a ausência e o tudo coexistissem uníssonos, plenos. Foi assim que ela percebeu o quanto havia sido obscena, não por comercializar seu corpo e acabar daquele jeito: amarrada, amordaçada, com um homem rezando uma bíblia como um juiz para purificar os pecados da sua alma, dotado de uma grande e afiada faca na mão. A indecência dela (e este sim o seu maior pecado) foi entender o corpo acima da sua definição real, em percebê-lo na crueza de seu aglomerado de células que envelhecem, enrugam, respiram e morrem. Foi concluir que o beijo que um dia incendiou sua alma e despertou grandes paixões na época em que a inocência era personalidade, como se abraçasse o invisível fazendo dele algo concreto, não passava de um devaneio sobre o toque das línguas, o enlace das salivas, cheiros e gostos de dois corpos sedentos por sensações. Trocou seus ideais pela percepção. Entendeu que entregar seu corpo não era a magia da intimidade, mas apenas uma chaga do desejo, um sintoma do instinto.

Primeiro, a surpresa de se descobrir animal; desvendar que sua estrutura onírica era antes de qualquer consciência veias, nervos, sangue, esqueleto, sinapses. Depois descobrir-se humana; com as complexidades de seus desejos, a instabilidade e desassossego de suas emoções se debatendo atrás da lógica do querer. A frustração de não ser especial. Sabia que com a imaginação podia tudo, pois se lhe foi possível transformar secreções e esperma em amor, poderia usar a potência que havia em seu sonhar para enxergar a verdade, e assim o fazia. Deste modo que enxergou uma oportunidade para por fim às constantes desavenças que há quando um sonhador acorda do seu sono de idealismos. Depois de exaustivamente tentar alcançar uma grandeza que talvez não exista, entregou-se à correnteza, mas não de qualquer forma. Ela poderia ser apenas mais uma vadia gozando a vida na intensidade do presente, mas era necessário ser mais humana que isso, preferiu ser puta, quis lucrar com o prazer. Despiu sua alma da vaidade, pretensão estúpida para subjugar o mundo aos próprios preceitos, via que tudo não passava de um simples e egocêntrico orgulho e a combinação dele com a vaidade era o útero da fé. Nada é mais humano que acreditar. E sabendo desta origem começou a desconfiar de suas crenças. Sempre a sua confiança lhe traia e com isso a dor, secando a vitalidade dos seus sonhos. Quis o real para deixar de sofrer e para isso deixaria de ser quem acreditava que era para ser exatamente o que era, foi puta.

O extremo da situação trouxe um último suspiro que reavivou tudo que já tinha sido. Era a memória rompendo o silêncio da maturidade com suas estrondosas sensações e arrepios, que domina o físico pelo o irreal da alma, transpondo o presente nem para o futuro e nem para o passado, mas sim para um campo atemporal, eterno e perfeito, por isso mentiroso. Era o suficiente; aquele rasgo era fértil como qualquer esperança. Lunáticos sofrem de esperança. Em um momento pensou que se livraria de tudo e poderia viver seu sonho e notou o absurdo que seria isso. Os homens costumam chamar sonhos que são muito próximos da realidade de pesadelos, logo a realização de seu sonho seria a tragédia em sua vida. A tragédia estava acontecendo naquele momento e foi surpreendida por não ser quem pensava que fosse. Em sua experiência tinha visto que nunca encontrou alguém que pudesse mentir enquanto goza. Ela buscava a sinceridade, apenas isso, questionou-se se é possível ser sincero na mentira, vendo que aquele homem a mataria por estar sendo sincero em sua fé. No fim sabia que a verdade é uma porra, e não há nada de muito interessante nisso. O que a impressionava é que os excessos sempre condenam qualquer existência em suas hipóteses, água demais pode matar uma planta, fé demais nos deixa cegos para o mundo, o excesso sempre tira o valor, afinal um tesouro só o é pela sua escassez. Em contrapartida existe o orgasmo como contradição dessa lei, mostrando a abundância como um sentido de vida. Sentia-se cada vez mais animal, perscrutando suas vísceras irracionais, a estrutura biológica e por fim assemelhando-se àqueles que estão abaixo na cadeia evolutiva, aos animais sem consciência de serem o que são e por isso parecem felizes em sua existência, a única coisa que a diferenciava deles era a qualidade de seus sonhos. Quando a faca rasgava seu corpo ela gemeu, foi o seu último orgasmo.

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