Os olhos de Aninha

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Aninha era chamada no diminutivo não pela delicadeza de sua forma física, o diminutivo era na verdade um mimo ao seu caráter sempre meigo, independentemente do que lhe ocorresse.  Embora sempre fora frágil como uma rosa em um campo, daquelas que seriam aniquiladas no primeiro vento forte devido à estrutura mais tênue, ela tinha uma força própria, tão própria como os espinhos que podem arrancar sangue do dedo que fora hipnotizado pelo encanto da flor. Aninha mantinha nos lábios um sorriso que só se encontra no rosto dos sábios, pois tinha a candura de uma experiência diferente de entender a vida. Desde pequena, Aninha viveu cercada de mato, animais e pouquíssimo contato humano, isso lhe deu uma forma diferenciada de enxergar a vida. Sua infância foi uma semente que tornou sua alma em uma gigantesca árvore que cresceu sem parar lançando suas folhas sempre no sentido dos sonhos. Um corpo tão pequenino com uma alma tão vasta era uma contradição que enchia os olhos de quem conhecia Aninha. Como toda a menina, Aninha brincava, corria, dançava, pintava e fazia tudo que o léxico da meninice permitia, porém sempre sozinha, não tinha amigos, pelo menos para quem olhasse de fora, porque ela criava amizades, tinha a companhia dos pássaros, das árvores, da terra, das galinhas, cachorros e gatos e ficava muito feliz quando a chuva também se juntava à brincadeira, chegando de surpresa, coisa que enfurecia sua mãe que gritava para ela sair da chuva temendo um resfriado, mas ela adorava.

Aninha tinha uma pureza primitiva que se confundia com a inocência. Por esse contato tão espontâneo da natureza, sua experiência não transformou o mundo em interrogações gigantescas em que passamos a vida tentando encontrar suas respostas. No caso de Aninha, o mundo tinha sido transformado em momentos; para ela rir era mais natural, dispensava porquês. No equinócio de sua juventude Aninha foi para a cidade, longe dos pais, para estudar e trabalhar e manter-se viva na floresta de almas. E assim, aquele meigo sorriso conheceu outra selva: a de concreto; conheceu outro animal: o Homem. A princípio, Aninha percebeu a diferença que havia entre o mundo em que crescera livre e o mundo em que entrava, preso às obrigações, horários e distinção social. Seu parco contato com o bicho Homem lhe fez curiosa para conhecer outras pessoas, mas estas eram muito fechadas dentro de si mesmas e isso momentaneamente enfraqueceu seu doce sorriso, pois ela era solidária com aqueles animais que admirava e via que eles próprios recusavam ajuda e andavam perdidos em meio à confusão.

Sim, Aninha admirava sua espécie, a dádiva de viver como um ser humano era para ela o presente máximo da natureza e isso era um alento à sua alegria. Ela não tinha a visão do Homem explorador, visto muitas vezes como praga pelas suas atitudes que tem sempre a finalidade hedonista sem a responsabilidade de enxergar o próximo. Sua experiência o havia construído de outra forma que não atrelava ao capitalismo voraz, às desigualdades, injustiças, preconceitos, ganância, egoísmo, entre outras características que tiram a beleza do animal humano. Para ela, o pensamento era uma ferramenta que transformava o mundo, era o instrumento que conseguia captar além, dando significado; a inteligência que diferenciava os Homens daqueles amigos selvagens com que ela vivia em sua puerilidade permitia a nós uma felicidade em viver enquanto eles apenas viviam. Essas características negativas do Homem era simplesmente o mal uso da ferramenta do pensar. Também via de forma diferente dos intelectuais e filósofos que apontam as frustrações e a dor como caminho do conhecimento e da sabedoria, para ela a existência não era atrelada ao termo Weltschmerz que muitos pensadores se referem e da mesma forma diferenciada ela entendia a natureza.

Todo este contraste do olhar de meninice de Aninha, junto com a candura de suas convicções, formava um mundo à parte da realidade que talvez seja mais real ou plausível do que a maioria dos valores comuns. Por exemplo, a esperança para Aninha era uma doença do homem, pois ela sempre é para amanhã, o hoje não admite a esperança e ela é apenas um futuro deformado, um retrato do amanhã que reflete um hoje insatisfeito, descontente, é um otimismo da infelicidade e as ricas expressões do mundo não admitia essa palavra: para Aninha o mundo acontecia agora. A moral era outra incógnita para Aninha, para ela agir como se deveria e não como gostaria era negar o que se sente, ela via necessidade na moral, mas ao mesmo tempo, acreditava que a moral era um egoísmo coletivo.

Era domingo, dia sacro do descanso e do tédio, dia de família, dia de missa, dia de programação ruim na televisão, dia em que até Deus teve preguiça de criar, mas era o dia favorito de Aninha por remeter à sua criancice em que o dia era preenchido do que ele realmente é: de nada. Já costumada com um relógio pautado de compromissos dos dias habituais, as horas no domingo seguiam-se livres para pensamentos e conclusões que resultavam sua nova experiência de viver, e estas conclusões a resignavam. Perto de seu humilde quarto da pensão em que morara havia um grande parque onde ela foi passear para deitar na grama e ver o dia passar. Lá ela conheceu um rapaz que se aproximou fascinado com a singela beleza de Aninha.

Eles conversaram. O nome dele era Henrique, dizia-se poeta e contemplava a tranquilidade do parque expressando-a para Aninha em forma de versos. Aninha sorriu com uma sabedoria silenciosa como quem esconde um segredo e Henrique tinha sensibilidade para perceber essa sutil diferença em seu riso. Aninha ouvia muito e aprendeu com a natureza sua filosofia, assim como Sidarta ouvira o mar, Aninha ouvia a vida. Então Henrique indagou-lhe sobre aquele segredo que lhe percorria os lábios.

– Espera, estou esperando a oportunidade de te dizer. – Disse ela enfim, olhando o horizonte enquanto ele foi buscar o que via seu olhar. Ela contemplava um filhote de gatinho que tentava, em vão, agarrar algumas borboletas que disputavam o pólen das flores. Ambos estavam auscultando com satisfação, quando de repente um grande cão salta de dentro de uma moita e abocanha o pequeno gato que mal teve tempo de miar. Henrique horrorizado solta um grito e tenta se levantar para espantar o cão, quando é parado por uma mão tão forte quanto a da mãe natureza. Era Aninha que o segurava, e sem olhá-lo fitava o cão que já limpava seu focinho ensanguentado. Henrique não sabia qual cena lhe amedrontara mais: a expressão límpida de Aninha ou a brutalidade do cão.

– Foi mais do que eu esperava. – Concluiu Aninha ao lado do atônito rapaz que não sabia o que dizer e reservava-se em uma abstinência de pensamentos. Aninha olhou séria, de um modo que raramente fazia e prosseguiu. – Você parece não entender o que seus olhos veem. Vê este campo? Vê estas formas? Vê essa paz que você verbalizava em versos? Esta natureza repleta de beleza que você me dizia até outrora? Consegue ver? Agora entende a grandeza em ser Homem? – Henrique ainda não entendia aquelas palavras, com esforço Aninha prosseguiu – O mundo não é sua poesia, a natureza nada mais é que um campo de sobrevivência, todos os animais mantêm-se alertas pois são caçados e caçadores, a natureza é uma feroz batalha constante. Porém, dentre todas as espécies, a nossa tem um grande poder que está acima de tudo que há nesse mundo: o pensamento. E através dele extraímos a beleza e fazemos a poesia da vida como você o fez tão bem e aconselho que continue a fazer, pois aí que reside a magia do viver. – Henrique olhava para baixo como uma criança contrariada e Aninha entendeu aquilo, mesmo assim prosseguiu, mas não planejava ir muito além. – Afinal, o que você acha que aquele pequeno gatinho fazia ao tentar poeticamente alcançar as borboletas? Ele as destroçaria com a mesma brutalidade na qual fora destroçado. Não mantenha esse rosto triste, não há motivo para isso.

Aninha levantou-se, ela tinha olhos azuis de melancolia terrestre e uma felicidade neutra em seus traços.

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