Os três porquinhos*

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*Esta é uma releitura do tradicional conto infantil, baseada na versão de James Orchard Halliwell-Phillipps.

O inverno havia chegado com o gélido toque monocromático às cores da floresta. O mundo fica ainda mais hostil nesta estação, enfatizando a trágica seleção natural que obriga a bestialidade florescer sobre a paz do descanso. Os animais se escondiam para se proteger das baixas temperaturas e do perigo dos predadores. As espécies procuravam abrigos dentro da imprevisibilidade do existir, construindo moradas que representassem a ilusão da segurança na sentença peremptória que chamamos de vida.

Entre os animais, destacavam-se três porquinhos que traziam alegria por toda a floresta. Eram, antes de tudo, amantes da arte. Gozavam da contemplação, da admiração das belezas da natureza e isso os dotava de uma energia única de vigor. Levavam diversão e arrancavam sorrisos por onde passavam, todos tinham simpatia e carinho pelos três irmãos, que eram vistos como amigos até aos mais reservados. Com o período cinza de reclusão, os porquinhos não viam outra alternativa a não ser também se preparar para o refúgio dos males da existência. Dizia-se que nessa estação, um Lobo faminto rondava por ali em busca de presas desatentas, portanto era preciso ter cautela. Todos os animais se puseram a trabalhar para enfrentar esse período de introspecção.

Piguer, Phatos e Praktikos eram os nomes dos porquinhos. Com a solidão da floresta, decidiram os três a se empenhar e buscar os materiais que seriam os alicerces físicos dessa normativa. Começaram assim uma caminhada em busca deste objetivo, mas ela logo foi interrompida. Há poucos passos foram surpreendidos por Piguer, que juntando algumas palhas tentou persuadir os irmãos a acompanhá-lo e fazer a própria casa com esse material sob a justificativa de ser tão abundante e fácil de achar, dessa forma sobraria muito mais tempo para brincar. Os irmãos se entreolharam com desconfiança e Praktikos alertou: “não seja preguiçoso, vamos andar mais um pouco e arranjar algo que realmente possa nos proteger. Tua casa seria desfeita na primeira tempestade, sem falar que seria muito frágil contra o Lobo e sua ferocidade”.

Piguer tinha a alma receptiva, tudo que se apresentava a ela era recebido com prazer e júbilo, nunca com seriedade. De temperamento dócil e natureza apaziguadora, queria ser livre da necessidade, acreditava que no ócio morava o grande segredo da felicidade, tendo no sorrir seu maior vício. Era contrário à produção incessante, vivia com total ausência de finalidade. Via no esforço o peso do tempo, enquanto o prazer lubrificava as horas fazendo-as deslizarem por ele sem sentir os dissabores que o passado carrega. Não ouviu o irmão e pôs-se a cantar e construir sua morada com afinco, deixando partir os outros dois porquinhos que buscavam outra maneira de se proteger dos riscos.

Os dois irmãos continuavam sua busca até que Phatos reclamou que suas patas doíam e encostou-se a um tronco de madeira para recuperar o fôlego. Praktikos tentou apressá-lo com medo que a noite se intensificasse e o Lobo por ali chegasse, mas Phatos justificou que já haviam andado bastante e que Piguer já ficara a muito para trás, que não era bom manter-se tão distante e, numa crítica velada de preocupação, falou ainda sobre a fragilidade da casa do irmão, que certamente viria precisar de abrigo. Além do que, a noite já caía e andar mais poderia ser arriscado. Os argumentos eram verossímeis e, para arrematar, Phatos teve a brilhante ideia de construir sua casa de madeira, depois de perceber que seu traseiro doía ao sentar naquele tronco, soando como uma desculpa perfeita ao irmão mais exigente. “Olha como é dura e resistente, temos tudo aqui para nos proteger do inverno e do Lobo com seus dentes”. Depois, discursou longamente sobre as vantagens do lugar, sobre o quanto poderiam se divertir ali e do quão seguro seriam as instalações.

Phatos usava as paixões para convencer Praktikos, pois como bem nos lembra Aristóteles, as paixões são as causas que introduzem mudanças em nossos juízos. Para convencer o irmão ao seu desejo, usou o sentimento para torná-lo ainda mais incisivo, lacrimejando ao ouvir a recusa de Praktikos, que ainda não convencido da firmeza das tábuas, decidiu buscar algo ainda mais forte e resistente.

A manhã surgiu com uma luz fria. Piguer tinha terminado sua casa no mesmo dia. Foi atrás dos irmãos para gabar-se de sua feitoria. Viu Phatos a construir sua morada e riu do seu trabalho, feliz por já ter uma casa e estar brincando enquanto o irmão ainda trabalhava. “Viu só, eu disse que a palha além de proteger é mais prática! Já estou livre para brincar enquanto você, meu pobre irmão, ainda tem muito que trabalhar!”. Gargalhou e pulou nos arbustos. Phatos apressou a obra e naquele mesmo dia terminou sua casinha para poder brincar sem se preocupar.

No outro dia, Piguer e Phatos encontraram Praktikos trabalhando sem parar. Praktikos parecia um engenheiro a organizar tijolos e estrutura. Extremamente concentrado, mal notou a chacota que os irmãos faziam, zombando o muito que faltava para que aquela construção ficasse pronta. Dia a dia Piguer e Phatos por ali um inferno faziam, até que enfim a casa de Praktikos foi concluída. Tinha chaminé e jardim, cheia de detalhes, com tijolos robustos, a mais bonita de todas as moradias. Finalmente, os três brincavam longe das obrigações, quando Praktikos percebeu as pegadas do Lobo por aquelas regiões. Com medo, os porquinhos foram para suas casas e se trancaram por lá.

Sua respiração tinha a temperatura da necessidade, aquele contraste com o clima gélido da inanição invernal provocava um vapor e um ruído característicos de um faro desesperado. Temido pela sua ferocidade, ele era a personificação da fome e do desejo, tinha uma ninhada que dava voz a sua pulsão de caçador. Onde não há calor, não há sustento, por isso, a escassez tornava ainda mais aguda a carência. Farejando as redondezas, logo sentiu o temor de um porquinho vindo de uma rústica construção de palha. Piguer ouviu do lado de fora os passos inquietantes, cobriu-se de silêncio para tentar se ocultar, mas o silêncio não é ausência, um faro apurado pode ouvir até a mudez.

O Lobo era magro e a falta o fez fraco, porém tinha a persistência da urgência. Sentiu que havia um porco ali escondido e tentou convencê-lo a sair, sabendo da fama que estes animais tinham em gostar de brincar. Piguer, muito esperto, não deu ouvidos às possíveis tentações e julgava-se protegido em sua morada. O Lobo lembrou-se dos seus filhotes, da sua prole esfomeada e sabia que precisava alimentá-los para salvá-los daquela escassa estação. Juntando todas as suas forças e agarrado a esta esperança, soprou forte, mas tão forte, que a casa de palha foi pelos ares desvendando o indefeso Piguer. Este, desesperado em ver-se nu diante do medo, tentou fugir, mas logo foi pego pelo o Lobo, que o devorou para ganhar forças e conseguir pegar mais presas aos seus filhotes.

Animado com sua vitória, o Lobo continuou a seguir seu faro e encontrou uma harmoniosa casa de madeira, havia um cheiro similar à outra casa de palha ali. Phatos tremia e sabia que sua casa não era tão resistente, tinha certeza que o Lobo conseguiria entrar ali. Ficou paralisado ao ouvir do lado de fora os cortejos do animal convidando-o a sair. Quando tentava, o mais silenciosamente possível, fugir pelos fundos, sentiu o tremor de uma rajada de vento que desestruturou tudo que havia por lá. Na segunda rajada, as madeiras foram para os ares. Phatos tentou correr para a casa do irmão, gritando pedindo ajuda, porém, quando já podia ver o irmão na janela, foi interrompido pelo Lobo, que o jogou no chão mutilando-o com os dentes. Guardou a carcaça e ficou feliz em ver que havia um terceiro mais à frente. Certamente aquilo satisfaria sua ninhada.

Praktikos observava de longe o lobo e sua chegada. Ainda voraz e cantando com entonação de autoconfiança. Sentiu medo. O que era mais aterrorizante não era a ideia de ser pego, mas a convicção e segurança do Lobo. Praktikos pensara que havia trabalhado tanto, se preparado com tanto esmero, que não seria possível que sua casa fosse ceder. Desta vez sem pestanejar, o lobo inflou o peito de esperança e confiança, e soprou. E soprou. Soprou. Soprou. Soprou. Soprou. E soprou.

Exausto pela frustração, se impressionou com a força que tinha aquela resistente proteção. Tinha de haver outro modo de invadir a casinha. O Lobo avistou uma chaminé e logo começou a por seu plano em ação. “Aqui é minha entrada, este porquinho teve tanto trabalho para nada”, e desceu a chaminé, caindo direto em um caldeirão de água fervente, que o porquinho inteligente já preparava contra o plano da besta de dentes.

A moral da história? Na metafísica da fábula, presas e os predadores formam um amálgama de nossa multiplicidade nas caóticas estações da atmosfera da alma. O homem dentro de si guarda as mais variadas criaturas que ganham força de acordo com os suprimentos que nossa imaginação nutre. Vence aquele que alimentamos na floresta obscura de nossa existência.

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