Para sempre

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Os dias corriam com o mesmo itinerário, porém sempre diversos. Isso me impressionava um pouco; o desdobramento da mesma coisa em muitas formas inimagináveis. Como uma rotina que por definição tem um vínculo forte com a monotonia pode ser assim tão variada e distinta? Todo dia eu fazia o mesmo caminho para chegar ao trabalho, e mesmo assim, durante o trajeto, eu sempre encontrava algo novo, descobria uma desigualdade na mesmice.

Certa vez, num filme, um homem procurando a paz interior perguntou para um samurai conhecido como o homem mais sábio do Japão como fazer para alcançar a plenitude. A resposta dele me surpreendeu, ele disse que o homem deveria escrever um poema todos os dias. Não é tão simples como se pensa, eu não consegui, mas entendi o recado. Desde então policio meu olhar de forma a extrair a poesia que há no dia a dia. Essa força criadora é como luz, e com o tempo aprendi que esta luz ilumina ou ofusca, o segredo está na intensidade. A criação é a arma mais eficaz na luta contra o desinteresse – útero de todas as doenças da alma. Meus olhos arrancavam versos do cotidiano.

Num desses dias iguais, algo diferente aconteceu. Uma garota calou meus pensamentos e subjugou meu olhar como raramente acontece. Quando esquecemos nossos motivos somos realmente humanos, é aí que o mundo se transforma. Ela tinha cabelos despenteados, mas antes que você me entenda mal era um despenteado especial, como se fizesse parte daquele ar alternativo que ela passava com seus olhos pintados, dando ainda mais vida aos suaves traços de seu imponente rosto. Ela me notou, estava doutro lado da calçada e passava apressada, com fones de ouvido, mas mesmo assim me notou e passou olhando para mim. Todo o contato me causa um impacto e todo impacto me causa uma marca, este tinha deixado a bela imagem do seu rosto pelo resto do dia em minha memória.

Na manhã seguinte, novamente, o mesmo se fez diferente: e único. São Paulo é uma cidade em que o tempo muda como alguém que troca os canais em uma televisão. O belo dia que fazia ao amanhecer quando sai de casa deu lugar a um clima de tempestade de verão no meio do meu caminho, daqueles que a noite parece ter resolvido chegar bem mais cedo. Desprevenido, fui pego em uma enxurrada de água que me fez parar embaixo de um toldo de loja a fim de não me afogar naquele dilúvio atípico. No toldo em que eu tinha chegado afobado para me proteger da aguaceira tinha uma pessoa com o mesmo despreparo que eu, e sim era ela: a musa da minha memória do dia anterior. Os olhares tímidos se cruzaram e um aceno com a cabeça deixou uma simpatia mútua no ar. A simpatia sem intimidade é um terreno fértil, com isso, até o tempo que é tido como um assunto protagonista para momentos de silêncio mortal naquela ocasião pareceu propício para iniciar uma intimidade.

Falamos do tempo e de como era surreal aquilo ter acontecido do nada. Sorriamos demais e sabíamos que isso significava. A ironia do caos da tempestade com a paz embaixo do toldo era poética, era singular. Seus cabelos escuros ainda estavam despenteados, daquela forma especial, e levemente úmidos. Um cigarro queimava entre seus dedos, tinha algo escrito nele enquanto queimava. Só consegui ler “que a desilusão.”, o resto já havia sido tragado. Curioso, perguntei o que era. Com o mais belo sorriso que vi na vida ela explicou que tinha a estranha mania de escrever frases em seus cigarros, acreditava que dessa forma tragava a morte com mais poesia. Minha admiração virou uma forte paixão na mesma hora. Perguntei qual era a frase daquele cigarro e ela não quis me dizer, envergonhada da sua genialidade.

A tempestade não amenizava sendo conivente com aquela interação, e com o diálogo sua insegurança de menina pareceu ganhar intimidade o suficiente para, antes de amassar o cigarro e cuidadosamente colocá-lo em uma caixinha vazia, dizer: “não há maior realidade que a desilusão; esta era a frase”. Aquele anúncio veio como uma premonição, fazendo a tempestade parar da mesma forma abrupta com que veio. Nos entreolhamos surpresos com a cena e sabendo o que aquilo queria dizer. A realidade chamava aos compromissos e com ela a desilusão da separação, da despedida. Eu já estava atrasado para chegar ao trabalho e ela mais ainda. A tempestade se desfez como a ilusão que criamos para encontrar nossa paz na tempestade do cotidiano. Ela não quis me dar seu telefone, na verdade ficamos tímidos em pedir apostando em um próximo acaso. Eu, que não fumo, pedi a ela um cigarro antes de partir. Sorrindo ela me deu. Estava escrito “Eterna, somente a lembrança.”, e foi assim que pra sempre ela ficou na minha memória, pois mesmo presente em meus pensamentos, nunca mais a encontrei na diversidade das minhas mesmices.

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