Presente

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Estava acordado há tempo na cama, não sentia sono, sentia algo muito pior, sentia preguiça. Preguiça de tudo: de levantar, de respirar, até de existir. Preguiça é uma doença séria de quem tem alma envelhecida, que julga conhecer de tudo e por isso não consegue alcançar o interessante de coisa alguma. Este é um dos piores estados de espírito que o homem pode ter, ele estava impregnando minha alma. Talvez eu realmente fosse velho e esse entendimento era a maturidade. Viver é de grande responsabilidade, todos um dia vão perceber isso, mas eu sempre busquei o não saber da imaturidade porque esse é o útero do interesse. Entregue aos lençóis, meu desejo era dormir, para me isentar de mim, pois o berço de Morpheu era um silencioso refúgio, já que eu pouco sonhava, e as horas de meu sono passam no negro.

Minha boca estava seca e me incomodava. Ouvi dizer por aí que todos os prazeres são orais. Pus-me a refletir, de fato no começo da vida a boca é o tato para perceber e entender a realidade. Os psicanalistas classificam como fase oral, período que a fome e a sede são os motores de viver. Depois expandimos nossas sensações de prazer, talvez todas as outras fases sejam o aperfeiçoamento desta origem. A boca é onde experimentamos o mundo, por isso que beijamos quem se ama, para sentir-lhe a essência. Ali encontramos o sabor que nos agrada e nos repugna, dali que saem os sons com seus gostos adocicados ou amargos e esta fazedora de palavras é um prato cheio de sensações. Este nosso primeiro elo com a realidade traz consigo aquilo que caracteriza a vida: a fome, pois tudo que não tem apetite é morto.

Eu tinha sede. Completava naquele dia mais um ano e queria fugir disso. Nessas circunstâncias comemoram, mas o que eu queria era o silêncio das bocas e a solidão do esquecimento. A solidão é uma abundância que poucos entendem. Quando mais eu presto atenção ao silêncio mais ele me diz; não se ouve no barulho. Alguns têm a visão que envelhecer é desencantar, era bem verdade que a maturidade e fantasia andam por aí em direções opostas. Este era meu medo nesta data festiva, quando as duas voltariam a se encontrar?

Pequenos instrumentos dão força ao movimento que rotaciona o viver, que impulsionam a vontade. Como uma engrenagem mecânica e natural, que é natural por ser mecânica. A percepção de mundo começa a ser uma desavença quando os olhos veem mais do que os sonhos querem enxergar. A experiência começou a destruir minha fantasia e eu não queria envelhecer como até então. Com o tempo eu vi a magia das fábulas se tornar ilusão, as crenças dos homens caírem em fracasso, vi minha fé perder força para a razão, vi coisas que eram e não são mais, com o tempo tudo que era verdade foi enrugando e se transformando. Gostaria de apenas uma intacta, resistente ao tempo. Queria a força que existe na juventude, essa fonte inesgotável de buscar e não o bafo sem apetite da velhice.

O engraçado é que temos a plena ciência que não se pode controlar tudo, mas ao mesmo tempo tudo é controlável. Sabe qual o segredo? Um pouco de fé. Cega e ignorante, para ser sábia e doravante. O problema é que a fé tem fome assim como a boca e quando lhe falta o alimento o desespero lhe toma. Qual o alimento da fé? Acreditar é sempre uma afirmação, nunca uma dúvida ou desilusão. A fé se alimenta da luz que um irradia ao outro, porque sempre seremos de verdade no próximo que nos reconhece e nos distingue do meio dessas máscaras em que vivemos. Ultimamente ninguém vê ninguém. A boca desesperada fala e não se consegue o tempo do silêncio, do sentir. Eu queria escutar, aprender, queria somente sentir a inocência que há no prestar atenção.

Quem escuta sabe que tudo já está escrito de certa forma nas entrelinhas que não são ditas, porém não serem ditas as transformam em malditas. Aquele “eu te amo” que dizemos nunca será o mesmo que o outro ouve. Falamos dialetos distintos sobre os mesmos signos. A humildade pode se tornar arrogância por simples interpretação. A diferença entre o elogio e a ofensa é o tom. E assim o mundo segue com verbetes que têm os mesmos nomes e nunca os mesmos significados. Tudo contido nas entrelinhas não ditas, essas malditas.

Muitos tendem ao conflito e perdem-se na obscuridade dos caminhos incertos. Nessas desavenças há muitas possibilidades… o que pode ser é aquilo que não é, este charme pode ser apaixonante. De fato não há melhores escolhas, certo e errado não são valores nessa equação. A verdade é que acidentes não existem. O que há são determinações que alguns místicos insistem em chamar de destino. Nada mais é que o curso natural do que já era para ser, esta lucidez não é mágica, mas sim lógica. Porém o que falta é atenção… Falta a tensão. O telefone tocou, alguém para dizer parabéns. Atendi, agradeci, desliguei. Atendi, agradeci, desliguei. Atendi, agradeci, desliguei. E continuei na cama pensando, cansado e sem sono.

Minhas memórias visitavam minha história e lá estava um garoto confuso com 13 anos. Aí, foi como um suspiro. Levantei num só lance e pensei em voz alta: a partir de agora. Sem querer foram as mesmas palavras de uma antiga promessa feita a mim mesmo naquela idade. Sei que sou alguém de palavra, nunca quebraria uma promessa. A palavra é alimento da fé e acreditar é a esperança que move o agora. Um arrepio tomou conta de mim… foi a plenitude. A ponto de sentir o presente como um presente, de aniversário. Meu corpo, somente meu corpo, estava mais velho, sorri ao encontrar o garoto que tinha, assim como eu, tomado uma decisão importante dizendo para si mesmo as mesmas palavras, “a partir de agora”. Ri de mim quebrando meu silêncio, bebi água, pois tinha sede. Eu tinha apetite em buscar. Pensei na ironia do meu dizer, aquilo foi necessário no final, pois nós sempre dizemos, porque quem não diz morre sufocado com o que poderia ser dito. Bendito.

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