Ser criança

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Alice preferia ficar em casa brincando com a avó a ir se divertir com as coleguinhas da mesma idade na rua. As duas gargalhavam nas tardes quentes do verão de São Paulo, que tinham sido o cenário de inesquecíveis memórias para elas. Alice tinha apenas 7 anos e era grudada na amiguinha mais velha. Muitas pessoas dizem que os idosos voltam a ser como as crianças, mas este não era o caso de dona Luzia; ela mesma dizia que era criança há 76 anos.

As brincadeiras eram de todo o tipo, mas a parte que Alice mais gostava era as histórias de noite antes de dormir. A regra da brincadeira era clara, como eram duas crianças, os dias estavam revezados igualmente entre elas. Em um dia era Luzia que lia no quarto de Alice, noutro, era Alice que lia no quarto de Luzia. Nos dias que eram a vez da Alice ouvir a história, ela já acordava feliz da vida sabendo que depois de um dia inteiro de diversão ainda teria uma história incrível para levar para a cama. A coisa era tão boa que às vezes a mãe de Alice tratava de interromper (quase sempre na melhor parte) a história para colocar as duas meninas em seus devidos lugares, alegando como justificativa a hora que avança sem atraso.

O sol batia à janela de Alice iluminando aqueles olhinhos espertos. Saltou da cama e foi correndo para a cozinha, onde encontrava com sua avó que usualmente já estaria se balançando em uma velha cadeira que lhe era a preferida, enquanto costumava ler algum livro. Naquele dia a cozinha estava vazia e silenciosa. Depois de procurar no banheiro e no quintal, frustrada pelo desencontro, correu no sentido do quarto de Luzia que estava com a porta entreaberta, mas foi impedida de entrar pelo repentino aparecimento de sua mãe que lhe disse que a vovó estava dodói e não poderia brincar naquele dia. Cabisbaixa, a menina concordou em silêncio e então decidiu ajudar preparando um café da manhã curativo e reforçado para a amiga ficar boa logo. Afinal, hoje era a vez de Luzia contar uma história e Alice chegou a duvidar se aquilo não seria uma artimanha da avó para ouvir a continuação da história de A porquinha do rabo esticadinho, que ela não terminara na noite passada.

As mãozinhas frágeis mal conseguiam segurar a bandeja. Imagine só como Alice preparara o café para sua amiga… era reforçado mesmo, ela tinha pegado tudo que havia de gostoso na geladeira e separou tudo por gostos: o que era doce de um lado, as coisas salgadas de outro, frutas, que fazem muito bem à saúde, tinham sido cuidadosamente selecionadas e lavadas, entre muitas outras coisas inusitadas que só uma criança colocaria, como a sua boneca favorita, um livro de colorir com lápis de cor e uma flor da planta favorita de sua avó que estava no quintal da casa. Antes de um estrago maior, o esforço de Alice foi amparado pelas mãos de sua mãe que não sabia se brigava, elogiava, ria ou chorava ao ver a menina desajeitada e com todo o carinho irromper a porta do quarto de Luzia para entregar o café da manhã.

A vovó precisava descansar e não comeu nada que Alice preparou, mas a menina recebeu um sorriso de recompensa da avó que era mais gostoso que toda a bandeja junta! Durante o dia pessoas estranhas transitavam a casa de Alice, que estava mais quieta que o normal e brincou de tentar ajudar o máximo que podia. Logo ao anoitecer a mãe lhe mandou para a cama, sem escolha e com rosto sério, a boa menina obedeceu, já que brincava de ajudar. Quando percebeu que o intenso movimento daquele dia na casa cessara, Alice colocou em prática seu plano. Sabia que não era manha da avó ficar de cama para ouvir a continuação da história e foi, sem que ninguém lhe dissesse, prosseguir a leitura para sua amiga dormir.

Dona Luzia acordou quando Alice entrou. Ver a amiga com o livro na mão a encheu de alegria e logo aquele sorriso que remoça qualquer experiência surgiu. Dona Luzia disse à amiga que já sabia que ela viria. Intrigada, a menina quis saber como já sabia se ela mesma ficou o dia todo calada para lhe fazer a surpresa. Luzia explicou: durante o dia ficava a imaginar que Alice viria naquela noite, e, de fato, ela estava lá! A menina sentou-se perto da avó que parecia muito bem disposta, diferente da imagem que a manhã conservava em sua memória quando entrou ali com o café da manhã curador. Acho que ela comeu todo meu café e já ficou bem melhor. – concluiu a menina.

Pronta para continuar a leitura, Alice foi surpreendida pela a avó. “Como assim, hoje é minha vez!” – gritou ela, embora estivesse sem livro algum na mão. Alice disse que por ela estar dodói, iria continuar a história, e contou também que pensou que ela não tinha se levantado de manhã como desculpa para ouvir a continuação, se envergonhando disso. Luzia riu e disse que o conto que estava planejando contar para Alice ela sabia de cor e já adiantou: é uma história de medo. A menina arregalou o olho de interesse e atenção, deixando sem notar seu livro de lado. “Esta é uma história antiga e secreta que é passada por gerações e quem me contou foi minha avó, você deverá guardar esse segredo até um dia que você saberá o momento certo de contar e para quem, o meu é agora e a pessoa é você!” Alice consentiu com a cabeça com a seriedade de quem aceita uma coroa. “É sobre um dos mais temidos vilões do mundo, um devorador de criancinhas, muito pior que o homem do saco, mais feio que o monstro do armário e mais cruel que qualquer bicho-papão que já existiu. De tão terrível, o nome dele é proibido e ninguém fala”. Hipnotizada, Alice ouvia com atenção enquanto roia as mãozinhas e perguntou interrompendo a narrativa – ‘Onde ele está?!’. Depois de uma pausa dramática e de olhar para os lados com medo que alguém a ouvisse, a avó respondeu – “em todo o lugar!”. A menina se pôs a olhar para os lados e questionou – ‘Aqui?!’. “Calma, eu sei como manter ele bem longe da gente, você também sabe, eu vou apenas te lembrar”. Mesmo com a tentativa da avó de acalmar a menina, mais que depressa Alice perguntou como manter o monstro longe e perguntou também o que ele fazia com as pessoas.

“Alice, essa é a parte mais assustadora da história, não sei se você está preparada para ouvir o que ele faz com as pessoas… mas irei dizer, afinal, sei que ele nunca vai pegar você depois que eu contar essa história porque sei que você fará da forma certa… este monstro que não dizemos o nome aprisiona para sempre quem ele pega. A pessoa nunca mais pode brincar, ela acorda todo o dia para fazer o que não quer e não tem escolha a não ser fazer aquilo. Com isso elas nunca mais sorriem e se arrastam eternamente em uma mesmice sem fim, virando escravos desse monstro”. Antes que a menina interrompesse com uma nova pergunta, dona Luzia adiantou. “Mas eu sei a fórmula mágica para manter ele longe da gente, então anote aí na sua cabeça, são duas coisas: uma delas você deixou aí do lado da sua mão, a outra é mais difícil, é fazer 440 perguntas ao dia.” Com um olhar estranho, a menina perguntou – ‘Só isso?’. Vendo a incredulidade da criança, Luzia continuou, “Você acha que é fácil? As respostas nem sempre são as que a gente quer, na verdade muitas vezes elas não são, mas isso acontece com quem guarda respostas. Largue-as…”. A menina ainda não tinha se dado por satisfeita e perguntou ‘como ter certeza que realmente ele está longe?’. “Enquanto você puder brincar, ele estará bem longe e evite as pessoas que já são escravas desse monstro, elas são chamadas de ‘gente grande’”.

Ainda estavam sem sono. Por ter ido para a cama muito cedo, Alice ainda queria ficar no quarto da avó para ler o final da história que no dia anterior ela contara. Antes de virar a última página, Luzia impediu com a mão que ela fizesse o movimento. A menina, perplexa, perguntou se ela não estava gostando da história. “Quero que você leia o final sozinha no seu quarto, que eu vou ler ele sozinha também… mas a gente sabe que isso é mentira, não estaremos sozinhas coisa nenhuma, vamos fazer assim para que possamos estar sempre juntas, mesmo que separadas!” Deram um abraço apertado de boa noite e a menina ia saindo do quarto, quando Luzia a chamou, já com as luzes apagadas, mas a menina tinha a resposta para a pergunta da amiga antes mesmo dela fazer e a deixou despreocupada – ‘eu sei vovó, esta resposta eu não quero ouvir’. Luzia dormiu em paz.

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