Sete demônios

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Entrar em pânico é a derrota. Olhei com calma para a fúria que se aproximava, a serenidade é a morada dos caminhos mais nobres. O céu púrpura era como uma flor de lótus frente ao deserto de almas, pântano da civilização. Aquele era o primeiro, bufando o ar quente do desconforto, tão ruim quanto uma vida com gosto de perda. Ele tinha diversas faces, todas elas com máscaras que representavam as mais diversas emoções, e em todas havia desespero. Quantas vidas havia ali? Impossível dizer, o som de multidão que tinha seus gritos abafava qualquer tipo de argumento que tentasse contê-lo, coibia minhas armas. Rapidamente, corria em minha direção, tornando insuportável o som de seus gritos. Desviar seria impossível, suas várias faces começaram a se deslocar de seu corpo que lembrava um touro, coladas a um líquido preto como petróleo que se expandia de forma a triplicar suas dimensões, que já eram monstruosas. Eu precisava conter aquela massa disforme e teria de ser algo maior que aquilo. Pronto para o combate saltei o mais alto que pude, e usei minha fé para criar uma rede que envolvesse todas as facetas. A rede por si só não iria prender o Medo, antes que ele se livrasse, prendi estacas de vontade ao chão e comecei a focar em meu objetivo, comprimindo-o até acalmá-lo e dissipá-lo.

Num repente, algo quente se aproximava das minhas costas enquanto eu via o Medo evaporar. Pude sentir garras de ilusões tocarem de leve minhas costas que arderam em frustrações. Era o segundo, a Insegurança. Com a ironia de seus olhos vermelhos, sorriu para mim e de seu corpo esguio começou a brotar raízes. As sementes de vícios fincavam no chão que brotavam na sequência árvores sem folhas e secas de um taciturno outono.  A base da Insegurança é o apego, por isso sabia que no céu ela não poderia me alcançar, porém seus galhos eram altos. Comecei a desapegar da minha carcaça os preconceitos e me despir da experiência para ser mais leve que o ar. O segredo do desapego não é a indiferença e sim a transição. Ao aceitá-la como condição universal, ganhei asas da liberdade e minhas memórias fizeram uma torrente cristalina como a inocência que a afogou em ondas de compreensão.

Quando meus pés tocaram o chão, o líquido havia sido absorvido pelo solo e as árvores germinaram num lindo e vistoso jardim, colorindo o rastro das árvores secas que a Insegurança tinha deixado. Mas um riso sádico que vinha detrás da uma imensa cerejeira me chamou atenção. Quando olhei, algo pulou daquela árvore para outra, sempre oculto e com um cheiro forte de infecção. Apontei a espada da verdade para a origem dos risos e vi o terceiro demônio, que para minha surpresa era idêntico a mim, só que com feridas por todo o corpo e com um sadismo impressionante estampado nos lábios. Era o Egoísmo, com sua sede de vantagem, que avançou tão rápido que pensei que não poderia me defender, mas no reflexo eu me protegi de todos seus golpes. Como lutar com uma força que é igual a sua? Defendíamos e atacávamos em vão. Eu precisava superar a mim mesmo para destruir este demônio. Foi com a lâmina do altruísmo que perfurei o olho do Egoísmo, que gritou de prazer. Por algum motivo ele ficou mais forte, talvez o altruísmo alimentasse o ego, tornando-o mais forte.  Foi quando vi que atrás dele uma fumaça negra se desprendia de seu corpo como se saísse de uma chaminé industrial, era tarde demais, ele invocava o quarto demônio e agora eu tinha dois oponentes.

Tudo ficou escuro e sem som. Era como se eu estivesse no nada, envolto em um manto negro de um vazio com sede de tudo, que comprimia meu corpo como se quisesse me apagar, esmagando minha existência com o pesar de sua ausência. Era um sofrimento sem fim e sem escolha, a Dor materializada no imensurável. O tempo não era meu aliado, precisava ser rápido antes que, afundado naquela imensa solidão, eu extinguisse. Lutar contra mim mesmo e ainda combater a Dor da solidão era um grande problema e para resolver isso eu precisaria de atitudes extremas. Armei-me com flechas que continham a força mais vital da existência, a amizade verdadeira. Rompendo a escuridão elas explodiam por todos os lados. Meu Egoísmo, farejei-lhe pela infecção. A Dor, preenchi com gratidão.

Sabia que havia mais, que havia chegado antes de eu destruir os dois últimos. De repente o jardim, agora longe da escuridão, começava a arder sem fogo, como um imenso incenso. Era o demônio da Angústia, uma fumaça difícil de atingir, mas fácil de sentir. A Angústia estava armada, com a preguiça e a desatenção e em diversos formatos que dançavam com o vento tentava me atingir, enquanto a única coisa que podia ser feita era esquivar-se. Meus ataques não surtiam efeito, é impossível perfurar uma fumaça que se desfazia e escapava de meus golpes. Essa sensação morna de infelicidade que é a Angústia começou a consumir as minhas vontades e me deixar apático. Segui o conselho de Buda ao iluminar-se com as quatro verdades e usei a felicidade como arma, sabendo que eu deveria ser o mais rápido possível, porque felicidade é poucos segundos. Ela é permanência, enquanto a mudança faz parte da vida. Mas ela foi o suficiente para me dar inspiração, o bastante para inspirar toda a fumaça negra para dentro da minha coleção efêmera de tesouros.

O sexto demônio era tão pesado quanto a culpa. Sua lâmina rasgou o sossego e me empurrou com força fazendo com que eu descesse ao inferno. A Ansiedade se alimentava de esperança, que também faz parte da seiva de nossos sonhos. Sua força brutal era amplificada pelo tempo, em uma combinação que desconstruía caminhos. Consegui bloqueá-la com um manto de lembranças, que me fincaram na história e não me levou para o abismo das incertezas. O demônio da Ansiedade usava a desconstrução do futuro como base de sua força, o que lhe era muito apraz, uma vez que o futuro por essência é incerto. Mas eu tinha a única força que pode transformar aquilo que não tem forma. Com meu esforço eu controlei o universo e direcionei minha alma à superfície, afundando-o no inferno em que havia me jogado, aprisionando sua inquietante existência com minha dedicação.

Só me restara uma arma, que tinha que servir para o último demônio.  Como preâmbulo, veio como um terremoto. “Os inimigos do homem são os da sua própria casa”, Miquéias 7.6. Era o invencível contra mim. Tudo começou a se despedaçar, tudo que estava ao meu redor se desfazia como se arrancados com mãos imaginárias, sumindo em um buraco negro tão grande quanto a fome. O som era tão ensurdecedor que eu não conseguia me manter em pé, fiquei ajoelhado em meio ao caos, com as mãos no ouvido. Para me livrar do esquecimento eu tinha a arma ideal e precisava usá-la agora; juntei minhas verdades em meio à balbúrdia e desconstruí-las, fazendo nascer o conhecimento. Foi certeiro, o sacrifício deve ser superior à graça, desfazer-me das verdades levou-me ao coração do último demônio, que pulsou num rubro quente, vermelho, como sangue venoso. Cansado, olhei para o céu e o dia já amanhecia e estava apenas começando, eu sabia que a verdadeira batalha estava por vir.

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