Sobre vivente

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Com os olhos sem piscar, como num estado de choque, ele havia ficado um bom tempo ali naquela fria estação rodoviária até que os transeuntes começassem a estranhar aquele mórbido quadro de um homem atônito em frente à realidade. Aos poucos alguns se aproximavam e tentavam um contato tímido, mas todos sem sucesso. O rapaz era jovem e tinha os olhos lacrimejantes, lágrimas de origem desconhecida, poderiam ser da fadiga ou de dor, pois sua expressão era longe de ser calma. Aqueles olhos vermelhos não piscavam e miravam apenas o vazio.

A segurança do local logo percebeu a movimentação atípica e afastou os mais curiosos, pondo-se a intentar um diálogo para entender o que acontecia ali. Um segurança mais experiente se aproximou com cautela e viu um volume no bolso do rapaz, que julgava ser a carteira do indivíduo. Aquilo poderia ser uma fonte útil de informação e ter algumas respostas que seriam usadas na tentativa de tirá-lo daquele torpor, um nome já seria um bom início. Com a cautela de um adestrador de feras que entra numa jaula de um animal faminto, o guarda conseguiu pegar a carteira sem que o rapaz esboçasse nenhuma reação. Já com os documentos em mãos, o guarda arregalou os olhos ao fitar os dados e gritou “afastem-se, chamem agora os médicos!”.

Em poucos minutos uma robusta equipe médica apareceu no local e a área foi isolada numa velocidade surpreendente, com plásticos que formaram uma câmara hermética, isolando-o do contato visual daqueles que assistiam com aflição e certo medo. A Dr. Morga iria cuidar do caso, era a mais experiente neste tipo de assunto, especialista em psicologia, neurociência e doenças subjetivas. Ela entraria sozinha na câmara, certa de que conseguira respostas consistentes. Com uma vestimenta similar à de um astronauta, ela se perdeu das vistas curiosas e adentrou a bolha artificial que separava o mundo daquela ameaça, disposta a sair de lá apenas com diagnóstico certeiro.

A cidade de origem do rapaz era um local que foi consumido com uma doença viral extremamente contagiosa. Sabemos que um vírus é um perfeito parasita, seu corpo é constituído apenas por um material genético e se utiliza das células para reproduzir freneticamente, e por isso é, sob o aspecto biológico, fascinante. Sua capacidade de alterar o corpo hospedeiro pode ser surpreendente, e o curioso deste tipo específico de vírus era que ele tinha sido tido como o primeiro “vírus benéfico” da história da humanidade, que alterava nossas estruturas de uma maneira evolutiva. Ele se apresentava como uma forma menos nociva que os vírus comuns, de maneira metabolicamente inativa conhecida como “vírion”, que não chega a ser exatamente um ser vivo, mas uma matéria da evolução por seleção natural extremamente minimalista que tem apenas o necessário para “persistir”. Em curto prazo, sua ação no organismo hospedeiro fazia maravilhas, mas depois de um tempo ele mostrou sua faceta perversa como qualquer outra doença.

Esta cidade proibida estava em constante quarentena, nada saía e nada entrava ali, não se sabia explicar como aquele jovem estava parado naquela estação: sem malas, sem ninguém e reação. Quielf era o nome do rapaz, as informações que conseguiram reunir dele era que este homem tinha sido um importante e competente médico na região e um ativista a favor do vírus no seu descobrimento, em uma incessante busca de decifrá-lo. Porém, como a cidade tinha sido sitiada, não se sabe o que aconteceu com suas pesquisas e conclusões, mas julgaram que esse seu posto pudesse ter dado caminhos para que ele saísse de lá.

A doença nomeada de Dilectio causa uma intensa felicidade a ponto de substituir todos os sentidos de um ser. Os infectados perdem a capacidade crítica sobre o mundo, a percepção parece ganhar mais cor e todos os pensamentos são condicionados por este vírus, agindo como uma droga que altera a consciência. Essa felicidade era plausível na era do conhecimento e da informação, que se estendeu até o ano de 2540, mas hoje, na era da Lucidez, vai totalmente contra os preceitos que estabilizaram a vida social. A cultura hedonista foi vista como um câncer a ser extirpada do âmago coletivo por interferir na evolução, ela levou a humanidade ao colapso subjetivo que impedia o convívio harmônico da espécie. Na era da Lucidez, a razão e a verdade são dogmas absolutos e a sociedade entende que as pulsões intrínsecas do ser são autodestrutivas, por isso usa o conhecimento para controlar e domesticar a verdadeira natureza egocêntrica do homem, valorizando o seu lado comunitário.

A ameaça do Dilectio estava justamente nesta harmonia, alcançada com muito esforço, pois mesmo tendo outra pessoa como objeto de afeto, o infectado busca a si próprio nessa relação e nesta falta (entre o ideal e o real) o vírus desenvolve, alterando todo o funcionamento natural do cérebro. Dessa forma, o vírus cria uma realidade ilusória que dopa o indivíduo, o que não pode ser concebido em uma sociedade realista. A felicidade é, portanto, passageira e depois se apresenta como agonia frente às frustrações que não conseguem encontrar no mundo real os argumentos que precisa para fomentar suas atividades. O sujeito entra em desespero, depressão e comete atos involuntários que levam à autodestruição de si e de seu ecossistema.

A doutora queria saber se o rapaz estava ou não infectado. A julgar pelas condições, o diagnóstico era afirmativo, mas a certeza que regia a sociedade não se contentava com impressões. Aproveitou a imobilidade do homem para tirar sangue de suas veias, este deixou sem resistência e o aparelho decodificador de DNA viu que sua estrutura estava intacta, era um indivíduo sem o vírus. Dr. Morga ficou surpresa com a constatação porque ela não fazia sentido, resolveu colher mais uma amostra e novamente o aparelho mostrou estruturas perfeitas, sem nenhuma deformação pelo Dilectio. O que então tornou aquele homem mudo e em um estado tão catatônico. Descrente, a Dr. Morga resolveu retirar uma sexta amostra de sangue, quando foi impedida por a mão firme de Quielf. “Você ainda não está convencida?”, disse ele rompendo o silêncio.

“O que não se recorda, se repete”, disse ele relembrando Freud, um pensador obsoleto daquela época. O problema é que eu tenho total consciência de tudo e compreendi em profundidade o Dilectio. – prosseguiu. Ambos conversaram em termos médicos que não seria compreensível para nós, mas totalmente lógico para eles. Constataram que não era o vírus a causa da decadência, mas o hospedeiro que não tinha um organismo evoluído para a simbiose. Quielf se autocurou após se infectar diversas vezes e a oscilação entre essas realidades lhe deu a plenitude de entender a complexidade dos dois mundos, dessa forma estava num campo de incompreensão, como uma semente da mais bela árvore em um campo infértil.

Depois de muito falar, Quielf pediu a Dr. Morga que retirasse seu próprio sangue e submetesse ao aparelho decodificador de DNA. Temerosa, ela primeiro tirou seu capacete e depois atendeu ao pedido. A emoção tomou conta de seu olhar a ver que estava infectada. Mas é impossível! – protestou. Quielf explicou que o vírus não estava no ambiente e sim dentro de nós, apenas se manifestava quando havia uma compreensão mútua e esse elo era a maior realização da existência. “Antigamente chamavam de amor. Tornaram-no em algo patológico porque é natural da nossa espécie excluir aquilo que não se entende perfeitamente. O desenvolvimento desse vírus deve ser acompanhado de um progressivo avanço neural, mas quando aplicado em uma base atrofiada causa os efeitos colaterais desastrosos que já conhecemos. É a lei da natureza em ação, tudo é um processo com ganhos e perdas, depende da maneira como aplicamos. Não estamos prontos para Dilectio, pois nossa sociedade não cria um habitat saudável para sua evolução”.

Dentro daquela bolha, totalmente protegidos das influências externas, se entenderam o suficiente para o Dilectio pudesse evoluir naquele inóspito habitat. Tomaram juntos uma decisão e já era noite quando ambos saíram da hermética câmara. As mãos de Quielf e da Dr. Morga estavam unidas, seus olhares firmes para o horizonte. Assim que saíram, diversos médicos com roupas de astronautas os separaram com violência, a multidão via aquilo horrorizada. Lágrimas densas deslizavam na face dos dois que viam amputadas as esperanças pelo ceticismo de uma humanidade doente. Não resistiram, apenas lamentaram, era insanidade ser lúcido dentro de um manicômio. Porém haviam conseguido causar um pequeno lampejo nos expectadores que viam aquela cena. Talvez esse fosse o objetivo deles. Semanas depois foram exterminados como uma ameaça à fria e insossa ordem pública… e a vida se seguiu normalmente.

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