Vitrinista

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Há muito Berton estava nesse ramo. Manejava aqueles moldes de realidade e peças plastificadas que apenas representavam a aparência, artefatos sem nenhuma emoção, dotados de um senso de estética. Seu trabalho era transformar aquela plasticidade de bonecos em sentimentos que despertariam admiração aos olhos. Mas andava cansado de tudo isso.

É que na verdade, o tempo não envelhece e nem mata, ele cansa as coisas. O coração não para, ele também cansa. É por cansaço que ele deixa de bater. A pele enruga tão somente por perder a firmeza. O tempo afrouxa. Não necessariamente envelhece, o tempo só cansa. E era essa a sensação de seu espírito, uma estafa de tudo, o que é bem diferente de estar triste, apesar de o cansaço ser um rápido atalho à infelicidade. Talvez ele só estivesse entediado, sem perceber que o tédio é como um útero para as ideias e inovações.

Diante da visão dos outros, levava uma vida invejável. Tinha beleza, sucesso, fortuna, mulheres, mas mesmo assim se sentia incompleto, não parecia o bastante. Era quase uma injustiça, um pecado, reconhecer essa falta que havia em seu tudo. No trabalho, suas vitrines reproduziam o perfeito, ele era o melhor no que fazia. Tinha uma sensibilidade que não poderia ser encontrada em outro profissional. Um talento genuíno em explicitar, por meio dos seus manequins, o desejo. Afinal, esta é a finalidade de uma vitrine e isso ele fazia como ninguém.

Aquele trabalho era extremamente importante, viraria a noite para entregar aquela vitrine que estava prometida para a manhã seguinte. Toda a equipe tinha ido embora e ele, já acostumado com isso, ficaria sozinho para concluir os últimos detalhes e deixar tudo pronto para a estreia de uma nova coleção de uma grande marca. Porém, Halla, uma estagiária recém-contratada, se ofereceu para ficar com Berton e auxiliá-lo. A garota aspirava e sentia-se radiante em estar ao lado de um dos principais vitrinistas do mundo. Isso enchia de orgulho seu eu, por isso servia a Berton com admiração sincera.

O real talento de Berton estava no seu poder de observação, tinha olhos obscenos que desnudavam qualquer situação, despindo as formalidades e expondo as intimidades. Em Halla, via o desejo dos sonhadores, daqueles que acreditam sempre no amanhã, alguns podem afirmar que seja por inocência, outros por ignorância. Seja como for, Halla tinha um brilho a mais nos olhos, que ofuscava algumas realidades e iluminava outras invisíveis.

Foi então que tudo se apagou. O escuro apareceu ocultando todas as outras cores com sua intensidade. Não que elas estivessem sumido, mas apenas estavam cobertas pelo véu do desconhecido. A partir daí, teriam que seguir pela intuição. Quando se está na escuridão tudo parece mais denso, e não há nada que flutue na densidade. “Vou verificar a caixa de luz”. Disse a voz naquele vazio. O breu se juntou àquele silêncio ruidoso, que dá sensação de microfonia.

Estaria sozinho? Ouviu um som, um ruído, talvez de ratos. “Halla?”, questionou ele à escuridão, dando nome a ela. E aconteceu por acidente, um descuido, uma falta de atenção que resultou num estado de surpresa, semelhante a um caso de amor, em que as circunstâncias simplesmente fogem do controle e nos afeta. Foi um esbarrão mais profundo que o fez perceber a abundância que há no contato. Um simples toque foi capaz de animar o inanimado. Algo que estava fora do lugar, mais por distração que por erro, e num descuido se fez perceber.

Segurou em seus braços aquele mistério e, como quem desperta do sono no qual sonhara os mais doces destinos, a luz voltou abrupta clareando tudo com suas certezas. Percebeu então seu equívoco no pesadelo da realidade. Estava com um manequim nos braços, que lhe escapou junto com a percepção, fazendo o boneco de cerâmica se romper com o chão, fragmentando-se em diversas partes. Halla logo apareceu atraída pelo barulho e viu o manequim quebrado aos pés de Berton.

“Está tudo bem?”, perguntou.

Berton apenas sorriu.

Percebeu naquele átimo de surpresa que estava cansado dele mesmo, da sabedoria que o passado havia acumulado na experiência do seu olhar, precisou o desconhecido da escuridão lhe tocar, as certezas se esvaírem, para fazer do equívoco uma descoberta. A cerâmica quebrada no chão, via a perfeição do modelo, agora deficiente, e entendia a sua plasticidade. Por mais que parecesse humano, não tinha vida. O cansaço levara Berton ao esgotamento fazendo com que suas defesas estivessem baixas. Estava inocente. Tinha desistido de saber. Olhou Halla nos olhos e ofuscou-se com o brilho. A luz preenche tudo, é o corpo da alma. Por isso que aproximar é conhecer, é identificar, entender. Porque ilumina. A garota ficou envergonhada sendo fitada daquele jeito, também sorriu. Amar é desistir de si mesmo, mergulhar no desconhecido. “Que tal deixar isso tudo aqui e tomar alguma coisa lá fora?”, respondeu.

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