Corruptores

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A data em que ocorreu o que será descrito aqui pouco importa, já que essa combinação numérica não passa de uma ilusão de ordem humana que em nada representa a Vida na Terra. Porém, para situar-lhe melhor, podemos dizer que não se passou muito tempo desde o ocorrido, sendo os fatos narrados um tanto frescos.

Entre outras curiosidades desta história, está a constatação de que a monotonia é o natural dinamismo da vida. Para a percepção, um acontecimento exige a normalidade para se efetivar, como um suspiro de caos em meio à harmonia. Talvez seja por este motivo que o círculo quase sempre é usado como sinal da eternidade e totalidade, do mesmo modo no qual o símbolo de infinito e todas suas variantes têm aspectos arredondados. Muitos afirmam que isso acontece pelo fato de o círculo não ter início e nem fim, mas a real razão pode estar em sua previsibilidade. Por exemplo, um dos símbolos mais antigos do mundo com esse viés, representado por uma serpente circular que morde a própria cauda chamada Ouroboros, traz em uma de suas interpretações o conceito de “eterno engano”.

Outro exemplo é o simples, e também complexo, aparato que é o relógio. Ele consegue conter todo o tempo do Homem em um formato restrito. Isso nos leva a refletir que independentemente do que se suceda, amanhã, quando os ponteiros marcarem seis da manhã, o sol irá nascer. E ontem, por volta das seis da tarde, ele se pôs. Pode parecer óbvio, mas por mais previsível que isso soe, tem algo que nos inquieta: cada crepúsculo é único, nenhum pôr do sol se repete, mesmo sendo sempre igual. É bem estranha essa situação cotidiana de ser a mesma coisa de maneiras diferentes. E com essa sensação de continuidade sem esperança, pois a certeza nos tolhe as expectativas, é que Jhon costuma acordar todos os dias. Mas naquela segunda-feira que seu despertador anunciava, esse sentimento estava mais explícito.

Considerada útil, a segunda é o primeiro dia em uma jornada composta de cinco distantes e intermináveis períodos de expediente (isso caso você seja um funcionário comum, de uma empresa comum, em um cargo comum, assim como Jhon, que trabalha em um escritório de advocacia em um cargo que não exige muitas responsabilidades). Talvez essa variante explicasse aquele estado de humor que rondava Jhon.

O procedimento era o habitual, também conhecido como “de sobrevivência”. Um estado automático de pessoas que estão mergulhadas no cotidiano. Acorda e levanta, banheiro, cozinha, banheiro de novo, quarto, banheiro, cozinha e rua. Mais um dia desvendado pela mesmice da rotina, que, de certa forma, sempre foi um bom remédio para afastar a melancolia do tédio, mas tem como contraindicação o saborzinho de mal-estar da imobilidade, nos prendendo a uma existência cíclica. Funciona da mesma forma que uma gaiola serve a um pássaro, conforto e segurança vs. liberdade e expressão.

Esse aspecto mecânico da vida não impedia Jhon de sentir o ar rarefeito nos “bom dias” que lhe cruzavam. Uma falta de ânimo crônica, respostas retóricas a perguntas retóricas de “tudo bem?”, coisas que ele realizava como um ato de ironia. O mais engraçado é que sabia em seu íntimo que tudo estava indo mal. De mal a pior, aliás. Sabia também que as pessoas tinham ciência disso. Mas todos fingem e mentem muito bem, principalmente para si mesmos, com risinhos e acenos automáticos. Ter consciência dessa tragédia diária é algo significativo. A verdade que se oculta nesse tipo de educação mostra que nunca estamos à vontade, como se o coletivo fosse uma asfixia da alma. Para Jhon, viver embute um desconforto que não consta nos manuais de otimismo que a maioria das pessoas usa para se entorpecer e representar uma realidade montada. Aprender a lidar com esse pesar (e isso é algo que descobrimos sozinhos) era sua frequente luta.

Quando há conhecimento, a coisa fica mais fácil. Pois tudo que está no campo do nosso saber, de certa forma, está sob nosso domínio. O ponto central é até onde queremos realmente compreender a nós mesmos. Pois dominar não é simplesmente controlar, é saber se posicionar, é entender e não submeter. Nossos desejos correspondem apenas a uma parte daquilo que realmente somos e não devemos confiar neles, eles nos traem.

Jhon, apertado em roupas sociais que lhe tiravam a identidade e emprestavam preconceitos, ornado com olheiras de cansaço (mesmo tendo dormido a maior parte do final de semana) foi como uma engrenagem acéfala de uma grande máquina enfrentar a semana que se iniciava sem perceber que era escravo dessa condição, fruto de certo contentamento que a estabilidade oferece. Muitos veem essa capacidade de passar pelas merdas com um sorriso no rosto como um sinônimo de adaptação. Mas em alguns casos pode ser interpretado também como covardia. A resiliência é uma grande mentira, nada volta ao normal, tudo vai. Se tivermos sorte, aprendemos cedo que a vida está muito além do nosso controle. Por isso, muitos optam serem arrastados a ditar a direção, é menos doloroso em uma correnteza. Nesta segunda-feira comum, Jhon mudaria sua percepção de controle e de tudo em que acreditava.

Uma sucessão de eventos fora da normalidade foi responsável pelo espaço que a apatia cedeu à curiosidade. O dia corria normalmente, até Jhon ir à impressora, que era compartilhada por todo o escritório de 3 andares em um único ponto. Foi buscar nela alguns documentos que mandou imprimir, mas encontrou misturado ao seu arquivo uma planta arquitetônica de um prédio que coincidentemente alguém devia ter mandado no mesmo momento que ele. Enquanto separava os documentos, chegou um colega muito apressado e até um pouco assustado, no qual ele não tinha contato, e o interceptou dizendo que aquele arquivo era dele. Rapidamente, tirou das mãos de Jhon as folhas da planta como se estivesse atrasado para alguma coisa muito importante.

Já em sua mesa, Jhon notou que faltava uma folha do seu arquivo, que provavelmente o outro rapaz havia sequestrado em sua angustiante pressa. Jhon era pouco sociável e aquele era um escritório de advocacia de grande porte e estrutura, como resultado, ele mal sabia o nome de muitas pessoas que estavam ali diariamente. Esse era o caso do rapaz mirrado que nunca lhe despertara a atenção. Já o tinha visto por ali outras vezes, o que indicava que trabalhavam no mesmo andar. Com um pouco de esforço mental, lembrou-se onde ficava a mesa dele e resolveu ir até lá perguntar sobre esta página que faltava em seu arquivo.

Ao chegar, a mesa estava vazia. Normalmente, Jhon voltaria para sua, mas antes disso ele correu com os olhos os documentos que estavam ali em cima, pensando que com a pressa para uma reunião, talvez o outro tivesse deixado por ali a folha adicional que não lhe pertencia. Foi quando encontrou outra coisa. Viu uma pasta com seu nome, embaixo de outras que pareciam sem importância. Instigado, pegou e ao abrir ele ficou realmente surpreso com o conteúdo. Era um completo dossiê, com mensagens pessoais que estavam em seu celular, de não muito tempo atrás, horários em que chegava em casa do trabalho e coisas que ele pensou só existir em telas de cinema. Havia outras pastas, outros nomes, pessoas que trabalhavam ali, mesmo modelo de informações, teve uma sensação de pânico, como se estivesse sendo observado.

Voltou para sua mesa, deveria falar com seus chefes? Chamar a polícia? Trouxe a pasta com seus dados. Com certeza o mirrado não tinha uma cópia daquilo, porém evitou imaginar como e quais meios foram usados para reunir tais informações. Sentiu-se vulnerável. Precisava pensar rápido, ficou de olho para ver se aquele mirradinho estranho voltava à mesa dele, pensou em dar um bom chacoalhão e assustá-lo com ameaças eloquentes. Lembrou-se da planta arquitetônica e da urgência do rapaz. Um calafrio lhe percorreu como um presságio. Uma ideia. Entrou nas configurações da impressora compartilhada e mandou reimprimir os últimos arquivos do histórico. O raciocínio era lógico: se o rapaz estava com tanta pressa, a ponto de deixar pastas com nomes em cima da própria mesa, dificilmente teria o cuidado de apagar esse registro. A aposta deu certo, a impressora cuspiu a planta, era daquele prédio em que estava e tinha três pontos assinalados com círculos vermelhos e um azul, no terceiro andar.

É preciso manter a calma. A calma é a única que nunca nos trai. Mas naquele momento as coisas pareciam ter uma urgência que tornava a calma antiquada. A opressão do segredo causava uma angústia enorme. Precisava compartilhar aquilo com alguém para realmente tornar real. Compartilhar é dividir a densidade das coisas. Poderia ser um grande mal-entendido? Precisava de mais informações. Era quase hora do almoço, resolveu antes de sair ver o que havia nos pontos marcados na planta. Os 3 vermelhos eram no subsolo e o azul no terceiro andar. Foi aos vermelhos, o primeiro ponto marcado no mapa tinha um veículo no estilo “van”, branco e os vidros totalmente tapados com plásticos. O carro estava trancado e estacionado perto de uma grande viga. Explosivos? Manutenção de alguma coisa? Pintura? Melhor verificar o segundo ponto. Estava lá, uma segunda van com as mesmas características, ficou realmente preocupado, pegou seu celular e tirou fotos desse veículo, precisava de alguma prova, com muito esforço de uma conexão 4G precária, conseguiu mandar pelo menos uma imagem para seu e-mail pessoal. Achou mais prudente não ir ver os outros pontos marcados e sair o mais rápido possível dali, em sua visão, tinha informações suficientes para acreditar nisso. Quando estava saindo, ouviu um barulho vindo de trás, mas antes que pudesse virar e identificar o que era sentiu uma pancada forte na cabeça que o derrubou, depois algo que colocaram em seu rosto, com cheiro forte. Apagou.

Quando acordou, estava com as mãos para trás, amarrado em uma cadeira, com uma mordaça na boca, notou que seus pés também estavam presos. Enquanto se acostumava à penumbra, identificou uma pessoa sentada próximo dele.  Era o rapaz da impressora, que o encarava como se esperasse a algum tempo que Jhon acordasse, com um sorriso irônico e feliz no rosto se apresentou como Petter.

Até que enfim a bela adormecida acordou. Começou ele. Este não é o melhor modo de me apresentar, mas não temos tanto tempo para formalidades. Então vamos direto ao ponto, você sabe exatamente o que está acontecendo aqui. Por um momento você achou que tinha o controle de tudo e… Bam! Eu te peguei. E você colaborou bem com o plano todo. Mas só terá um jeito de sair daqui. Debaixo dos destroços! Seu papel será fundamental em todo o plano. Será o grande herói que derrubou esse prédio em um ato suicida. Petter deu três sonoros e pausados aplausos. Era muita informação de uma vez para Jhon, que expressava uma dúvida no olhar que foi logo percebida.

Petter tornou a explicar todo o plano. Consistia em destruir o escritório de advocacia que, como toda a justiça, transformava opiniões falsas em realidade decadente, não atingia a pureza de seu conceito, ainda mais naquele grande escritório onde havia casos polêmicos em seu endosso que Petter fez questão de enumerar a Jhon, como se aquilo validasse toda a ação. Bateram na porta e ele ouviu uma voz lá de fora dizer “primeiro marcador”. Petter explicou que aquilo era como uma festa surpresa. Para o plano de incriminá-lo ser perfeito, ele teria que saber no momento do grande ato. Em poucas horas, o prédio estaria abaixo. O fato dele ter enviado uma foto da van para o próprio e-mail foi essencial para coroar o plano. Petter agradeceu sinceramente aquela atitude. Alguém precisaria assumir a culpa daquilo e analisando o perfil de todos os colaboradores, Jhon era quem tinha um perfil mais inclinado a realizar algo desse tipo.

Jhon entendeu e riu, isso incomodou Petter, que arrancou sua mordaça para saber o que era tão engraçado. Jhon começou na falar com uma calma tibetana. Petter, seu plano de me acusar não vai dar certo, acredita mesmo que você não deixou nenhuma brecha, explosivos envolvidos, vans, será fácil conectar isso a mim? Eles vão a fundo, cara. Mas e se eu te disser que eu quero ser o personagem que você quer que eu seja. A morte não é ameaça, a vida que é.

Havia surpresa e interesse nos olhos de Petter. Seria um blefe? Uma tentativa desesperada pela vida? A verdade é que tinha medo, como todos têm. Essa insegurança sempre nos acompanha e seu confronto é necessário. Como sombra atada ao corpo, ela só pode ser ocultada se preenchida por escuridão. Entender a naturalidade deste afeto é ver o humano em nós mesmos. Na dúvida, sempre opte pelo caminho que te dê mais medo. Ambas as sombras eram refletidas por uma precária luz que vinha de um abajur de mesa que estava posicionado no chão perto da tomada. Pela angulação, fazia com que as sombras dos dois estivessem monstruosamente grandes, imensamente desproporcionais.

Vamos lá, Petter. Você pode me poupar. Conhece minha vida, quero fazer isso dar certo e sou o cara pra isso. Você sabe o quanto é miserável tudo isso, o que eu preciso é um motivo. Apenas.

Toc. Toc. “Segundo marcador”. Disse a voz do lado de fora. Petter mordia os lábios e começou a soltar Jhon, disse a ele que tinham pouco tempo, que iam assistir a tudo em um restaurante ali próximo onde já estavam os outros sem entrar em detalhes. Petter entregou a carteira e celular de Jhon e saíram de lá, que era o ponto azul no terceiro andar do mapa.

Já no restaurante, Jhon conheceu outros 4 caras. Faltavam 15 minutos para tudo ir pelos ares. Jhon estava apertado e precisava ir ao banheiro, quando disse isso Petter fez uma cara séria e brincou, “você não iria fugir ou chamar a polícia, né?” voltando a sorrir. Jhon riu com desconforto e disse que precisava muito mijar. No reservado do banheiro, pegou o celular e pensou se deveria entregar toda a verdade à polícia e tentar pelo menos evacuar o prédio antes da explosão. Podia até simpatizar com a causa, se tivesse realmente participado talvez agisse diferente, mas não concordava com o modo como aquilo estava sendo conduzido. Ligou. Discou 190, deu falha na ligação.

Ouviu do banheiro a explosão, e quase ao mesmo tempo arrombaram a porta do reservado onde ele estava, o jogaram no chão, ouviu a ordem de prisão. Petter era esperto o bastante para saber que Jhon o trairia. Desde o princípio era essa a intenção. O celular devolvido estava com um dispositivo que com o código “190” acionava a explosão das vans. Tentou contar a verdade, mas as provas todas estavam contra a ele, os funcionários do restaurante afirmaram que ele entrou sozinho ali, o que já dava descrédito a sua versão da história. Mais tarde descobriu que Petter era um policial à paisana infiltrado para tentar evitar esse tipo de tragédia. E que ele tinha falhado.

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