Elevador

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O sol brilhava gritando por atenção naquela bela e convidativa manhã de sábado, porém isso pouca diferença fazia, o que realmente havia motivado um movimento para eu sair do meu apartamento foi o sincero ronco de meu estômago combinado com a dispensa vazia. Isso sim, mais do que qualquer outro convite, faria eu encarar qualquer tempestade ou intempérie em busca do meu objetivo. Nessas horas é que notamos o quão visceral somos, a maneira como nos portamos e agimos, por mais consciência e educação que se possa ter, carrega sempre um fundo bestial, que no meu caso era a fome.

Ainda com olhos turvos e se acostumando com aquele excesso de vida, saí do elevador e me deparei com caixas e uma grande movimentação no hall. Logo notei que se tratava de alguém que estava de mudança, ou melhor, alguém estava chegando, um novo morador, a julgar pelos móveis que entravam e iam direto para o corredor térreo. No caminhão da mudança havia uma menina sentada sobre um móvel, ela ficou me encarando com uma cara séria. Tentei sorrir para mostrar a simpatia de um vizinho novo, com quem desse “boas vindas”, mas ela não retribuiu o sorriso e me senti ridículo. Por algum motivo misterioso, crianças em geral gostam de me encarar e isso sempre me deixa desconcertado. De qualquer maneira, quando retornei carregado de sacolas, não havia mais ninguém, nem caminhão e muito menos a garota.

Me abasteci de tudo que precisava para nunca mais sair naquele final de semana, pronto para assistir a filmes ou séries e passar as horas enchendo a cara de cerveja e comendo tranqueiras, vivendo como um adolescente, embora minha idade já estivesse na fase dos “enta”. Não me incomodava passar o final de semana inteiro confinado em casa, muito pelo contrário. Sempre gostei da solidão, esse espaço que acolhe a alma, onde nossa imensidão consegue ficar à vontade, sem os incômodos da formatação. Com o tempo, aprendemos com nosso próprio funcionamento, além do que a vida social nunca me foi atrativa. Aliás, a solidão é uma companheira muito mais sociável para mim. De toda a forma, sinto que a solidão da companhia de outras pessoas é muito maior, mais densa e mais áspera. A verdade que ocultamos é que quem nos faz companhia, de fato, é a ocupação, e nunca pessoas. Isso não significa que eu dê crédito aos meus anos de experiência, mas sim às dores que ela me trouxe. Nesta descoberta da minha natureza, fiz escolhas, elas me satisfaziam plenamente, ali era o melhor local para se estar.

Já pela madrugada, com uma dose considerável de álcool no sangue, assistia a uma série na TV quando pensei ter ouvido algo na porta. Isso não é legal de acontecer em uma madrugada. Pausei o vídeo, o silêncio preencheu a sala, mas logo foi rompido por novas e suaves batidas na porta. O frio na espinha foi contido pela racionalidade, que costuma nos salvar dos excessos das emoções inexplicáveis. Afinal, por mais incomum que fosse, era algo possivelmente plausível que alguém batesse à porta, mesmo de madrugada. Fui lentamente em direção às batidas, esperando novas que não aconteceram. Pelas frestas da porta havia a luz acesa do corredor, o que indicava que o sensor de presença detectara alguém. Olhei através do olho mágico e vi a menininha que estava no caminhão mais cedo, já perto do elevador e longe da minha porta. Certamente ela se perdeu, por compaixão resolvi ajudá-la, decidido em levá-la ao térreo e, junto dela, procurar o seu apartamento.

Com uma cara apática similar àquela da manhã, a garota não retribuiu o sorriso que dei, assim como em nosso primeiro contato. Sinceramente eu esperava uma recepção mais calorosa, já que ela estava sozinha e com um ar de levemente assustada. Pensei que ao encontrar alguém ela se sentiria mais aliviada e segura, talvez o nervosismo de estar desamparada fizera ela se esquecer de sorrir, porém fez um sim frenético com a cabeça quando lhe perguntei se estava perdida. Fechei minha porta e disse que estava tudo bem e quis saber se ela saberia chegar ao seu apartamento, caso eu lhe indicasse o corredor certo. Novamente ela fez um sim com a cabeça sem dizer nada. Perguntei seu nome, e com uma voz doce ela me disse “Clara”.

Chamei o elevador e entramos, estávamos no oitavo andar, apertei o térreo e quando esperava a porta se fechar fui surpreendido pela menina que segurou minha mão como uma filha aperta os dedos do pai para passear. O contato para mim sempre soou como uma invasão, seja por meio do carinho ou simplesmente pelo afeto. Estava desacostumado com o calor humano, calor que queima nossas mesquinharias, que nos obriga a ser mais que a nossa individualidade. Na tentativa de encontrar meu melhor modo de ser, descobri o outro (e o outro sempre foi algo alheio), o termo “semelhante” sempre me pareceu antiquado e meu esforço era se distanciar dele, os constantes atritos que tive nesse âmbito fizeram-me alguém de emoções precavidas, reservado e, de certa forma, até fechado. Olhei para a garota e pude ver, pela primeira vez, que ela sorria.

Pelo sexto andar, a luz do elevador simplesmente apagou e um barulho seguido de um leve tremor o fez parar, ficou apenas aceso o indicador digital que marcava 6. Clara soltou de minha mão e quando falei com ela não obtive resposta. Fiquei bastante assustado, principalmente porque me senti sozinho e tateando aquele pequeno espaço não encontrei nenhum sinal de Clara. Era impossível. O indicador digital começou a mudar lentamente e senti que o elevador se movimentava, 5, 4, 3, 2, 1, T. Estou a salvo, pensei, apesar de estar bastante abalado pelo fato da menina ter simplesmente sumido. Novamente um tremor, e o indicador digital começou a contar -1, -2, -3 e foi assim até chegar a -8. A essa altura eu estava sentado no chão, tentando encontrar alguma explicação lógica para aquilo tudo e com vontade de gritar por socorro.

Quando eu já estava quase a ponto de chorar, a porta se abriu, estacionado no andar -8. Saí desesperado quase que rastejando e vi que estava no meu corredor, reconheci o tapete de entrada e interpretei aquilo  como um defeito no visor digital. Corri para meu refúgio, o medo fizera eu esquecer completamente da menina. Entrei no meu apartamento e aí realmente fiquei em choque. Era um outro lugar, porém me era extremamente familiar, como um Déjà vu constante. Tive dúvida se permanecia ali ou saía, aquilo parecia um pesadelo e eu até acreditei que fosse e tentei acordar esfregando o rosto nas mãos e dando tapas na cara. A dor era real, tudo era muito real. Foi quando ouvi uma voz vinda lá do interior do apartamento que disse “pare de tentar encontrar explicações, perdemos muito tempo com isso, entre aqui e fique à vontade”.

Meu coração quase parou. Minhas pernas não se moviam pelo pavor. Porém, algo no fundo me dizia que fugir não era uma opção, que a melhor maneira de passar pelas circunstâncias era encarando-as frente a frente, e conduzido por essa diversa motivação, consegui atender ao pedido da voz, que apesar de misteriosa também era estranhamente familiar. Reparei que alguns móveis eram como os meus, de fato parecia meu apartamento, mas a maioria da mobília era desconhecida por mim. O que eu não compreendia era a familiaridade com que eu sentia tudo aquilo. Sempre acreditei que emoção e razão fossem parte de uma mesma coisa, mas naquele momento parecia que minha razão era independente de minha emoção, uma estava em alerta e a outra serena. Em uma poltrona estava um senhor, aparentava uma idade bastante avançada, uma semelhança comigo inacreditável, poderia ser meu pai, ou avô. Ao lado dele, estava Clara, sentada e alheia brincando com algumas bonecas que havia ali no chão como se nada tivesse acontecido.

Desisti de entender. Apesar de não conhecer aquela pessoa, me sentia íntimo, quase que confortável como na solidão. Ele me olhou com ternura, um carinho acima do que qualquer outro que já tive na vida, essa sensação me desarmou totalmente e sem perceber eu sorria para ele, que me disse em voz suave para me sentar, que precisava me dizer uma coisa, e prosseguiu sem cortes, como se lesse um texto, falava de forma que parecia decorado e treinado aquilo.

O grande mérito, e talvez o único, da consciência é a criação da mentira. Definir é aprisionar, fuja das opiniões, elas são como areia movediça da estupidez. A opinião ignora, exclui todos os argumentos em prol de uma visão, é o maior ato de covardia que pode existir à racionalidade. Toda crença é assassina, não há maior ditador que a fé. De todos os horrores e bênçãos que ela é capaz, sua maior característica é a alienação. Assim como o amor, uma das formas mais comuns de fé. O amor é simplesmente o medo da solidão. Por parte do amor, o medo da falta, por parte da solidão, o medo de ser corrompido pela companhia. Mas será que podemos suportar a realidade sem os caminhos óbvios da consciência? Sempre há meios diversos para um mesmo fim. A verdadeira trilha está no sentido, e este é o outro quem faz. É possível? Sim, é possível, bastante possível, viver sob qualquer filosofia e encontrar nela a felicidade e plenitude. Porém, não se esqueça que é na lembrança que a história é feita. Precisamos acreditar, por isso, creia em ti, o único que pode realizar.

As palavras dele foram rápidas, seriam difíceis de assimilar sem pedir que ele repetisse, mas estranhamente (como tudo ali era) eu as absorvi como se soubesse daquilo, como  um lembrete de algo nunca anotado. Por simpatia e também para entender o acontecido anteriormente, perguntei sobre a Clara, se ela era sua neta. O homem franziu o cenho e perguntou “Clara?”, como se a menina não existisse naquele ambiente. Nesse momento, ela se levantou e disse “vamos, está na hora de ir”, segurando minha mão com a mesma ternura de antes. Simplesmente me deixei levar, sem nenhuma explicação aparente. De volta ao elevador, na companhia de Clara e enquanto ele subia do -8º ao 8º andar, tentei dizer que nada daquilo fazia sentido, mas a garota me cortou, disse que o sentido está em nós e que eu não tentasse buscar a verdade, pois ela não passava de uma hipótese preguiçosa e antes de me deixar em meu andar me disse em tom de alerta que o conhecimento nunca venceria a natureza. Lembro-me de acordar em minha poltrona já pela manhã de domingo, fui procurar saber sobre os novos moradores com o zelador, que tinha me dito que ninguém se mudara para lá no dia anterior.

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