Prisioneiro

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Era minha última semana quando inesperadamente me fizeram uma oferta. Como cortesia para quem está fadado a morrer, foi-me concedido um último desejo. Este pedido, obviamente, poderia ser qualquer coisa que não fosse minha própria liberdade, muito menos eventos mirabolantes. Era um desejo com diversas restrições, mas ainda assim a possibilidade de um pedido. Por mais benevolente que possa parecer isso, seu contexto é antagônico à dignidade humana. Porém, para um homem como eu, largado ao abandono e ao esquecimento, confere uma espécie de valorização ao sentido da vida, exigindo de mim cautela naquilo que eu poderia escolher.

Usei o direito idealizado das leis (que incidem sobre a soberania da existência) com sincera ironia. É complicado manter a sanidade quando se percebe que o mundo é conduzido por uma simples linha de raciocínio, se é que podemos chamar assim, dando um sabor de naturalidade às coisas artificiais, com distorções e um conjunto de normas que nos conduzem ao fracasso fantasiado de sucesso. A solidão do cárcere e a miséria do esquecimento muito me ensinaram dentro daquele silêncio inquiridor, que corriqueiramente é preenchido com o cotidiano, algo que eu não tinha, e transformava os sussurros em berros que contam segredos sobre nós. Consegui me manter centrado, apesar de tudo. Apesar do nada.

Minha escolha foi um caderno e uma caneta para escrever esta carta que você lê agora, garantindo que ela fosse publicada sem censuras no jornal no dia da minha execução. Claro que isso tem um motivo; que sem adentrar em pormenores, posso resumir dizendo que é porque eu sou você. Ou como você, caso tenha achado a última colocação invasiva demais. No seu estágio de agora, seria errado afirmar que é por você, mas será quando terminar. De toda a forma, não podemos escolher o que as coisas devem ser, a escolha é uma covardia da consciência, lembre-se sempre que nenhuma escolha pode ser 100% verdadeira.

A morte, o fim, a destruição, a tudo toca. Este é um fato que não se escolhe, por exemplo. Um processo de maturação que alguns enxergam como decomposição. Existe uma definição sobre nós muito interessante que diz que somos cadáveres adiantados. Minha prisão representa exatamente esta vida que já está morta, com soberba intensidade, em um realismo literal de algo que compartilhamos e nos torna semelhantes. A diferença em relação a mim é que você não tem clareza sobre sua própria extinção como eu tenho da minha.

Não posso afirmar que a justiça seja responsável por minha condição de prisioneiro. Deixando tudo mais contraditório. A palavra justiça no sentido etimológico não tem o mesmo significado de seu sentido institucional. No vocabulário usual dos homens, ela não passa de uma boa articulação verbal sob um ponto de vista favorável. Crimes são apenas julgamentos, não necessariamente uma violação. Culpado? Apenas condenado. E todos nós estamos. Quando a sentença é determinada, a inocência tem um valor incerto. Em quanto tempo uma certeza se torna relativa? Não tenho muito tempo.

Porém, tudo tem a ver com tempo. Podemos ter percepções diferentes dele, mas isso não significa que ele seja mutável. O presente é o futuro e também o passado. O passado principalmente. Além dos aspectos biológicos, que valem a pena consultar para entender como nosso raciocínio nos induz alterando a real compreensão (e não se esquecer de nunca confiar em si mesmo), todas as nossas ações só ganham valor no campo da memória. A lembrança mora no passado e projeta a expectativa do futuro. Isso representa bastante. Esta árdua trajetória que tive até aqui me obrigou a aceitar minha própria natureza, entendendo, assim, como funciona o tempo. Quando nosso corpo ecoa no fundo de onde não existe nada, você percebe que precisa criar o valor. Que aquilo precisa fazer sentido. Do contrário, a existência não passará de uma leve brisa.

O que é importante salientar é a mensagem que precisa ser passada. A existência coletiva pode nos conduzir a um grau de evolução capaz de reverter as deficiências do espírito e nossas falhas como seres humanos. Em outras palavras, o homem individual é miserável, enquanto ele como ser social consegue superar suas limitações evolutivas. Isso não é simplesmente uma hipótese, é um fato. Já falamos sobre escolhas, não?

Portanto, só faz sentido aquilo que é entendido e percebido. A compreensão é quem forma a realidade e consegue unir duas matérias em um vínculo metafísico, encontram ali o motivo que se fortifica com as ações. Vira atemporal, não pode envelhecer e muito menos morrer. A eternidade está longe de ser uma utopia, ela é concreta e corriqueira na memória, pois tudo aquilo que é uma causa, produz efeito, existindo. É tudo muito natural e simples, os mesmos motivos que tornam de difícil percepção.

Essa estranha proximidade mórbida com a finitude me fez ver com lucidez a tragédia que é nomeada de vida. Somos a solidão condenada à companhia. Consigo ver as verdadeiras prisões, quem são os inocentes e a descoberta de valores realmente notáveis. Ser um entre tantos, ao mesmo tempo em que se é tantos em um. Percebe como o entendimento pode nos tornar melhores? Eu não morri neste dia, viverei marcado em sua memória, talvez assim minha existência não tenha sido vã. Pois deixar marcado no outro um traço é construir uma história. É como uma linha de um verso, que solto não forma uma poesia e pode não ter sentido, mas que na construção das estrofes pode despertar as mais intensas sensações dando significados, densidade, importância.

Este é o sentido da continuidade. Por isso, relações e amores têm impacto direto em nosso desenvolvimento, eles mantêm uma estrutura para acomodar nossas mesquinharias e enaltecer nossas grandezas. No meu fim, quero fazer um começo. Podemos dar o primeiro passo,

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2 comentários Adicione o seu

  1. Stella disse:

    Se tentar digerir tudo isso, acho que vou ter gastrite.
    Preciso reler, e reler, e reler.
    Aliás, posso musicar?

  2. Pessoa Hjr disse:

    Nunca me canso de me impressionar com suas palavras… Sinto o peso delas, vejo o caminho que cada uma percorreu pra estar ali, as vezes posso ver a historia por tras delas, sentir elas pulsarem e correrem vivas nas veias…
    Perfeito como sempre guri, na sua complexidade humilde da pra sentir tudo, como se vivemos dentro do seu texto, como se fosse parte dele… Adoro quem faz isso, quem leva a gente pra dentro da sua cabeça e mostra o mundo com seus olhos. Fugir da realidade sempre foi um dom vivo seu e esta na ponta do lapis…

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