O caso de Joel

em

Em uma chuvosa manhã, uma pequena garota alheia à movimentação intensa na rua dos Autólicos está encantada com um olho de vidro que encontrara na sarjeta. Feliz com a descoberta, ela tenta mostrar para a mãe o novo brinquedo, mas esta não lhe dá atenção por estar interessada em saber sobre um cadáver estirado a poucos metros dali. Aquele corpo era do jovem Joel, que despencou do décimo andar em uma história misteriosa. Uns dizem ter sido suicídio, outros acreditam no homicídio.

Há quem defenda que o suicídio é a maior injustiça que alguém pode cometer contra a vida, porém a história de Joel mostra que a vida é uma grande injustiça para ela mesma. O que sabemos dele é o que pôde ser encontrado em um diário e muitas anotações esquisitas, além de uma carta com um relato estranho sobre o ocorrido, coisas achadas na casa do coitado.

Qualquer existência é uma tragédia. Mas a de Joel teve uma dose especial de fatalidades. O desgraçado carregava desde pequeno defeitos que lhe custaram a paz. Nascera com problemas graves no olho esquerdo e a única opção foi retirá-lo. Além disso, também era vítima do que os médicos chamam de plagiocefalia, uma má formação no rosto, dando uma assimetria notória ao semblante do pequeno Joel.

O mundo recluso em que vivia não lhe deu outra opção a não ser desenvolver um grande poder de observação. Era um homem muito além de alguém solitário: era uma aberração. Na adolescência, o buraco de seu olho esquerdo foi preenchido por um olho de vidro. Aquele abismo negro deu lugar a um inexpressivo olho azul, gélido e penetrante, tornando aquele rosto ainda mais distinto. Sua presença, devida à plasticidade daquela expressão fixa de um olho falso com seus traços desalinhados, causava terror às crianças e repúdio aos adultos.

Desta forma, percebeu o mundo através das lentes do medo, aprendendo então a temer a proximidade das pessoas. Era um homem alto, cresceu de maneira mirrada e ossuda. Andava curvado, provavelmente pela vergonha de ser o que os outros não queriam ser. Na meninice, quando ele passava, ouvia-se comentários jocosos das crianças que, inocentes, o chamavam de monstro da Rua Tártaro, local onde cresceu.

Garoto muito esforçado e trabalhador, viveu em uma residência simples, somente com a mãe, sua única família. Ela o criou com o esforço do trabalho braçal de uma honesta lavadeira. Seu pai, nunca conheceu. Era assunto proibido em casa. Sabia-se somente que este era um alcoólatra que abandonou sua mãe ainda na gravidez. Em alguns momentos Joel pressentia que a própria mãe lhe reservava certa rejeição e nunca teria orgulho dele. Percepções que lhe assombravam a mente, pensamentos inoportunos que gostaria de não pensar. Por vezes, em seu íntimo, culpava a própria mãe pelos seus defeitos físicos. Aquele desgosto gerado pelo abandono do pai poderia haver lhe deformado ainda no ventre. Sabia a injustiça que era pensar dessa forma, sentia violento remorso por isso. Mas é sempre muito difícil entender o porquê das coisas serem como são. Sua mãe era a única demonstração de amor que conhecera. Porém, a necessidade de nomear e dar significado à própria miséria se fazia maior.

Joel cursou ensino técnico e começou a trabalhar como torneiro mecânico ainda jovem. Mantinha uma rotina inalterável de casa para o trabalho e vice-versa. Após a morte de sua mãe, que deixou a vida de forma tranquila enquanto dormia, viu-se realmente sozinho. Foi aí que resolveu mudar a fim de deixar para trás seu passado e histórico de monstro da Rua Tártaro. Com a diminuição das despesas que tinha com a mãe, sua renda possibilitou o pagamento de um aluguel de uma minúscula quitinete no centro da cidade, onde os prédios se amontoam uns aos outros.

Percebeu que não havia como deixar de ser ele mesmo, por mais que mudasse ou fugisse. Suas deformidades o marcavam. As situações seriam sempre as mesmas, mudando somente os personagens e endereços. O desconforto lhe era fiel companheiro, nada fazia Joel se sentir à vontade. Todos o evitavam e o desprezo foi seu principal professor. Austero mestre, ensinou o valor da atenção, fazendo-o entender que o que todos querem é mais que serem ouvidos, notados, percebidos. Pois ser notado e percebido ele era. As pessoas precisam é da comparação para ser, por isso a maioria das pessoas fala delas mesmas quase sempre, inclusive nos diálogos.

Ser percebido é diferente de perceber. Joel percebia, era um perfeito observador. Quando sua virtude virou um vício, criou o estranho hábito de vigiar as pessoas dos prédios vizinhos. Julgava-se um observador da decadência, cansado do cotidiano mundano, das coisas triviais, dos nadas nomeados como compromissos de uma agenda sem finalidade alguma. Era alguém que queria fugir de si próprio, tentando encontrar o valor dos outros para valorizar a si. O que ele via nas janelas eram partes. Sempre algo incompleto. A incompletude de uma coisa feita para se encaixar, porém nunca se encaixava. Como um olho de vidro em um rosto irregular.

Saboreava a pequenez mundana, a desoladora escassez do pensamento humano escravo do egoísmo. A aparência das coisas contra a essência delas. Via e percebia pessoas submersas na alienação de prioridades inventadas, vivendo impérios de misérias em imaginações doentias.

A vida daqueles distantes semelhantes era sua mais valiosa distração. De todas as formas de entorpecer a mente, esta era a favorita de Joel. Porém toda sua constatação lhe cansava. Tinha um binóculo como quem tem um animal de estimação. Observava os movimentos dos seus vizinhos com a ajuda dele como quem usa um óculos para ler melhor as legendas de um filme na TV. Fazia de sua discreta janela no décimo andar seu contato com o mundo.

Talvez Joel sentisse inveja da normalidade oca ou gostasse de contemplá-la simplesmente por não a ter. Era um trabalho anônimo, assim como um biólogo estudando o comportamento de um animal, com a curiosidade de um cientista, uma visão espectadora que não influencia, somente analisa. Gostava, sobretudo, de ver o desconforto das pessoas em serem elas mesmas, era o único momento que se sentia próximo a elas.

Os relatos de seu diário mostra que ele observava um casal há bastante tempo, o preferido de todas as pessoas que ele acompanhava. Bem em frente à vista de Joel, existe três janelas. Ali, ele tinha a cobertura privilegiada da vida deste casal extremamente metódico. Para Joel, a vida daqueles dois davam um espetáculo de monotonia. Agiam como uma engrenagem de uma máquina em pleno funcionamento, o que mostrava uma energia invejável, porém sempre previsível.

No dia anterior à sua morte, ele conta em seu diário sobre uma movimentação diferente destes vizinhos. Naquele dia ele documenta que o casal estava agitado, eles carregavam algo que estava enrolado em um tapete e parecia bastante pesado. Na narrativa, Joel conta em detalhes o ocorrido:  o casal solta o peso na sala e a mulher sai de seu campo de visão, deixando o homem e o objeto não identificado ali. O homem parecia nervoso e anda de um lado para o outro, quando percebe que as mãos do homem estavam sujas de algo que se parecia com sangue. Joel conta que de repente o rapaz parece ter ouvido o chamado da mulher no quarto ao lado. Quando ele passou a lente do binóculo para a outra janela, teve uma surpresa: a mulher fixava o olhar nele, haviam descoberto seu anonimato.

Mesmo sabendo que eles o tinham visto, seu corpo respondeu sozinho à denúncia, agiu como criança que se cobre com o lençol pelo medo do escuro e se jogou no chão sentindo uma mescla de vergonha e terror. Depois de um tempo atônito, levantou e viu as janelas dos vizinhos fechadas, luzes apagadas. Como num ato de mimetismo, fez a mesma coisa. Fechou a janela e apagou as luzes. Esta é a última anotação do diário, nela ele teme a própria vida e acredita ter testemunhado algo grave, terminando com a frase “Olhar também é participar. É melhor ter cuidado com aquilo que vê”.

Na casa de Joel foi encontrado um manequim enrolado em um tapete. Dentro dele tinha órgãos de animais simulando o corpo humano. As câmeras de segurança do prédio de Joel registram imagens de um casal que leva algo enrolado em um tapete ao décimo andar, em um horário em que Joel não estava em casa. Depois ele chega, porém a saída do casal não é registrada pelas as câmeras. Dentro do manequim, próximo ao coração de boi, tinha uma carta envolta em um plástico escrita com a letra de Joel.

Nela ele diz do casal que mora em frente a seu apartamento, que havia descoberto um assassinato e que eles estavam o ameaçando caso não ajudasse a esconder o cadáver. Ele dá a entender que de alguma forma o casal havia dado um jeito de incriminá-lo, então se ele denunciasse, também seria preso como cúmplice. O corpo de Joel apresenta marcas de lutas físicas que aconteceram antes da queda. Porém algumas coisas não se encaixam. O detalhe mais importante é que o apartamento localizado em frente à janela de Joel está há anos sem moradores. A responsabilidade pela morte de Joel ainda permanece uma incógnita. O que será que ele viu que lhe puxou ou jogou para o abismo?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s