A Casa de Conserto

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A Casa de Conserto estava rotineiramente em seu trajeto. Sempre que ia trabalhar, via aquela estranha e singular loja antiquária que chamava a atenção de uma forma não muito positiva. Luzia a olhava e se perguntava: quem hoje em dia conserta alguma coisa neste mundo feito de coisas descartáveis? Aquela antiquada loja destoava em meio a cidade, parecia uma peça arqueológica em um lugar errado, um museu de itens abandonados. Não à toa, estava sempre às moscas, suas vitrines encardidas expunham objetos obsoletos e usados, utensílios que beiravam ao mau gosto, para não dizer ao grotesco.

No mesmo dia em que teve esses pensamentos, uma fatalidade fez com que uma boneca de louça exposta na sala de Luzia caísse durante a arrumação cotidiana. Com a queda, uma das suas delicadas perninhas de porcelana quebrou-se. Este movimento em falso evocou aquele abandonado comércio em sua memória. Frente a necessidade daquele reparo, a repulsa à Casa de Conserto foi condenada e o incidente visto como uma punição pelas considerações que fizera mais cedo.

A boneca não era apenas uma peça decorativa, era algo com significado e história, o que tirava toda a finitude do objeto. Luzia a tinha ganhado da irmã mais nova no dia em que saiu de casa. A boneca de louça era mais que uma lembrança, carregava o símbolo do pertencimento que Luzia sentia quando morava com os pais, sendo aquele objeto o último elo que concretizava seu vínculo com o passado. Desde então, Luzia provou o sabor acre do abandono para encarar a solitária luta da sobrevivência cotidiana.

A vulnerabilidade da porcelana e seus frágeis detalhes forçavam um cuidado redobrado à boneca que a irmã de Luzia nunca negligenciara. A tratava como filha, carregava com delicadeza para todos os lugares que ia. Rosto, bracinhos, pernas e seus perfeitos pezinhos, tudo desenhado com a perfeição daquilo que é uma imitação do real. Ao entregar a boneca de louça à Luzia, a pequena lhe disse para ter cuidado, pois a boneca era como as pessoas, podia quebrar.

Juntou os cacos, embrulhou com carinho em um jornal as peças que se soltaram, guardou-as para no dia seguinte ir à Casa de Consertos. Já em frente à loja, sentiu receio em entrar, talvez vergonha. Não tinha escolhido as palavras para falar sobre sua boneca, se sentiu inocente e um tanto boba por estar ali, já mulher adulta arrumando uma boneca. Resolveu primeiro ver as prateleiras antes de anunciar o verdadeiro objetivo de sua visita.

O local tinha um cheiro que lembrava mofo, mas não era desagradável, um cheiro de memória, usado. Viu objetos antigos, que guardavam seus momentos de maneira muda, com a perpétua mordaça da incompletude e esquecimento. Tudo parecia cansado demais para aceitar um novo destino, para recomeçar. A iluminação fluorescente dava um aspecto de sanatório aos corredores ermos. Luzia sentiu arrepios enquanto andava entre as estreitas prateleiras, imaginando como aqueles itens foram parar ali. Mantinha extremo cuidado como quem demonstra respeito perto de um altar, fazia movimentos suaves para não quebrar nada daquilo que não servia mais a ninguém.

No balcão, ao fundo da loja, a soturna iluminação desvendava uma senhora, provavelmente mais velha que a soma daquelas velharias expostas. Ela observava Luzia, que sorriu sem jeito e desviou o olhar. “Bom dia”, disse por fim, “vim por causa de uma boneca de louça, que num descuido teve uma das pernas quebradas”. Quando Luzia se aproximou, a velha pegou o embrulho, abriu e cuidadosamente acariciou os cacos de porcelana com seus dedos enrugados. Suas retinas verdes comprometidas pela catarata tinham um brilho de um olhar felino, miraram Luzia, e a velha lhe explicou que precisaria refazer a perna em gesso, o processo demoraria cerca de dois dias para aplicar, secar e pintar. O valor que a senhora cobrou era tão mínimo que Luzia se sentiu de alguma forma culpada, como se estivesse abusando da boa vontade da senhora. Tentou escolher outra coisa para levar, mas nada que tinha ali lhe atraía, deixou pago o valor combinado e a promessa de voltar.

Já no trabalho, durante o almoço, comentou o incidente com as colegas e contou sobre a curiosa Casa de Consertos. Elas não se recordavam desta loja tão distinta ali nas redondezas, isso chamou a atenção de Luzia, que propôs passar em frente à loja na volta do almoço ao trabalho. Porém, quando chegaram ao local, havia somente uma obra abandonada. As amigas riram de Luzia que ficou bastante desconcertada, mas logo mudou de assunto e disse que havia confundido o local, apenas para não evidenciar este estranho fato.

O dia correu sem ser reparado pelo relógio e o assunto parecia ter sido esquecido. Não para Luzia, que apesar de ficar até tarde atolada aos compromissos, estava pensando na embaraçosa situação da loja ocorrida no almoço. Obviamente ela não tinha pegado nenhum cartão ou telefone, duvidava que aquele comércio tivesse alguma dessas coisas. Decidiu passar lá ao sair, mesmo tarde da noite.

Tudo já estava fechado e silencioso, Luzia caminhava com seus pensamentos quando de repente parou em frente à Casa de Consertos. Para sua surpresa, estava aberta com suas luzes tétricas acessas. Entrou. Depois de ficar parada na porta, ouviu ecoar a voz da velha com onipresença naquele espaço preenchido com o silêncio da solidão. “Dificilmente os outros veem aquilo que é especial para nós”, disse como se respondesse à pergunta que Luzia planejava fazer sobre o desaparecimento da loja mais cedo. Luzia a avistou no balcão e em palavras rápidas e um tanto confusas comentou sobre ter passado ali e encontrado um local abandonado. “Ficou com medo de perder sua boneca?”, retrucou a senhora; “Fiquei com medo de perder a sanidade”, respondeu com bom humor Luzia.

“Eu sabia que você viria, estou aberta esperando por você. Hoje em dia é bastante raro pessoas que consertam as coisas, não é?” Sem entender muito bem o que acontecia, Luzia apenas se moveu porque a senhora a chamou com um gesto. “Apesar de ter lhe dito que demoraria alguns dias para sua boneca ficar pronta, eu tenho uma surpresa aqui”. A velha entrou na área privativa da loja e voltou com a boneca completamente restaurada, perfeita.

Luzia pegou, mas teve a impressão de que era outra boneca. Estava cansada demais para formular questionamentos e queria apenas ir embora, usou um sorriso para retribuir a presteza da idosa, que reparou na frustração de Luzia. “Qual o problema?”, indagou “o importante é aquilo que representa no coração”, disse para tentar alegrar a garota. Ao sentir a boa intenção da senhora, Luzia sorriu com sinceridade, e como quem pensasse alto respondeu, “não é isso, o problema é que eu já não sinto mais nada”.

Enquanto caminhava, Luzia olhou para aquelas prateleiras, viu um espaço ali, depois olhou para sua boneca. “Nunca se sabe. E é bom que nunca se saiba mesmo”, comentou a velha ao fundo, “pois quando sabemos é que erramos. Uma pessoa que erra sem saber que está cometendo uma infração tem culpa pelos seus males? Nunca se sabe. E é bom que nunca se saiba mesmo.” O olhar de Luzia voltou a cruzar as cataratas da velha, “posso guardar aqui? Encontrei um lugar especial”, perguntou Luzia e de repente todos os objetos ali lhe pareceram mais interessantes que da primeira vez que os vira. “Claro que pode, isso te fará mais leve, te levará mais longe.” Luzia arrumou a boneca na prateleira, agradeceu e foi em direção à saída, “Espere;” disse a velha, “antes de sair, faça-me um favor, apague a luz que fica ao lado da porta”. Quando Luzia apagou, reparou raios da luz do sol que entrava pelo encardido das vitrines e das frestas das janelas. Se assustou e quis saber que horas era. “Está na hora do espetáculo do amanhecer. A razão vai lhe encorajar em dizer que não é nada especial, que é apenas um pôr do sol qualquer, mas não, é um espetáculo que nunca vai se repetir da maneira bela como transcorre agora. Você entende o que querem nos tirar?”, Luzia colocou a mão na maçaneta; “todos vão dizer que não somos especiais, que somos matérias finitas amaldiçoadas pela extinção. Mas é mentira. Cada pôr do sol é um espetáculo, cada rosa tem seu perfume, cada espírito sua grandeza. Há muito o que consertar ainda, está na hora de acordar, Luzia”.

Abriu os olhos e estava em sua cama, era madrugada, não lembrava como tinha chegado ali.  Luzia se levantou na escuridão e foi até a sala, sentiu uma dor afiada no pé que a fez gritar, ao acender a luz, havia alguns pedaços de porcelana no chão e a boneca não estava mais lá.

 

 

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