O Caixote

em

Aconteceu no passar do dia a dia, nas manhãs úteis de uma grande metrópole, povoada e abundante com seus transeuntes apressados nos gargalos das ruas cinzentas. Bem ali, naquela passagem e suas histórias, onde cruzam pessoas de negócios, pais de família, crianças carregadas por mães zelosas, jovens ousando ter esperanças, poetas, desiludidos, além de idosos e espécies sem vigor aguardando a morte lhes calar. Um maltrapilho se posicionava em cima de um caixote de madeira e gritava somente uma frase que ninguém ouvia.

Estava alheio entre as buzinas dos carros que velozes denunciavam seu atraso, as conduções públicas lotadas de propósitos, a correria insana que atropela o tempo como as engrenagens de um relógio que giram, giram e giram, mas nunca saem do lugar, contanto a mesma história. É comum estarmos muito ocupados com nós mesmos, talvez por isso ninguém o escutava. Nossos olhos buscam somente aquilo que nos complementa, criando vontades que são bizarras ilusões idênticas à realidade. Aquele senhor representava apenas um ruído na poluição sonora que a cidade produzia. Nada é mais alto que os interesses próprios. Existe no homem um egoísmo primitivo que o conduz com tamanha coerência e o põe em situações sem que se saiba o porquê, uma conduta simplesmente aceita e tampouco questionada, por isso, natural. Perceber o outro é algo extremamente remoto.

Aquele cruzamento era o caminho de um homem que tinha tudo para ser distinto. Mas não o foi. Passava todo dia naquele lugar, mas nunca percebera o mendigo que gritava. Era sobretudo um homem vulgar, alguém bastante comum, sem nenhum dom que o destacasse entre os demais apesar de seu status, títulos e um posicionamento privilegiado entre a hierarquia desses macacos funcionais. No mundo dos homens adultos, o óbvio e o comum sempre são bem-sucedidos. Por isso ele o era. Porém, naquele dia, sentia a forte presença da falta, sentia-se incompleto. Sentia-se assim porque as pessoas de sucesso raramente têm o que é essencial, não é possível enxergar isso com as mordaças do conforto, dadas por conquistas vazias, sem profundidade. É somente no vazio que se expande.

Este homem vivia como uma sombra que nada tocava, apenas roubava a vitalidade do colorido. Muitas existências são assim. Para ele, as verdadeiras cores da vida residiam apenas em um mundo de idealizações. Mas a verdade é que aquilo que nos impressiona mesmo sempre está na realidade, fora da imaginação.

O primeiro passo para se interessar pelo outro é ter nojo de si mesmo. É a podridão que nos torna puros. Este desprezo é fértil. O olhar do homem comum se cruzou com o do homem do caixote. O simpático maltrapilho repetiu a frase que sempre dizia: “Quem sabe um dia?”. A dúvida ecoou em seus pensamentos. Talvez um dia, talvez agora. A loucura tira a lógica do automático.

O homem comum estava cansado da própria companhia. Cercado somente pela solidão com pessoas que também não o ouviam. Deixou-se atingir pela pergunta e sentiu com força a gravidade das coisas ao seu redor, o tempo agindo com sua calma mórbida, não se importando com passado ou futuro, apenas cansando tudo à sua volta, rindo da inocência, testando a esperança e fazendo cicatrizes nas formas. Deforma. Cedo ou tarde a falta torna-se insuportavelmente presente, espaçosa.

Quando as ideias se conectam plenamente, o silêncio diz tudo o que as palavras não podem explicar. Na simples troca de olhar se entenderam. Ambos pararam, o que gritava parou de falar, o que andava parou de se movimentar. O segredo é desaprender o que sempre foi dito, aquilo que foi repetido e repetido e por isso imitado. O julgamento, o precipitado. Romper com o óbvio e esmorecer certezas para deixá-las que sejam absolutas. O velho paradoxo que nos tange: quanto mais desenvolvidos, mais cegas certezas. Apenas aquele que não sabe é capaz de realmente entender. Ambos ali estavam em estado de ignorância. O que sentir deste mundo plástico, destas relações estranhas.

Não há espera na satisfação. Naquela conexão a espera tinha sido criada. O homem do caixote se recolheu, sumiu na multidão. O outro, colocou sua pasta executiva que valia alguma fortuna ao relento, tirou seu elegante paletó, subiu no caixote para bradar aos passantes: Quem sabe um dia? Quem sabe um dia?.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s