Caderno de caligrafia

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Era uma arrumação de armário daquelas necessárias, na qual se tira todo o peso de um passado de acúmulos que ganha volume e vira uma bagunça sem sentido. Natália precisava desta limpeza para dar espaço a outras memórias concretas. Imagens e significados têm uma ligação muito intensa, daí vem a força dos símbolos e o peso das palavras. São duas formas totalmente distintas com a mesma essência de afeto. Para Natália, aquele descarrego era uma purificação, fazia parte de um expurgo e desejo de tirar de si um passado que se arrastava no presente.

Entre as coisas que nunca mais usaria e outras que julgava serem inúteis, Natália encontrou um caderno de caligrafia. O caderno trouxe à memória a lembrança de como foi difícil sua adaptação às palavras. Deu bastante trabalho às professoras e principalmente à sua mãe, que passou tardes inteiras ajudando-a a desenhar as letras e conseguir escrever de maneira com que fosse entendida. Não que Natália tivesse dificuldade em se fazer entender, mas ela tinha deficiência na forma das letras, defini-las em espaços limitados, algo que impedia sua expansão. Sua mãe sempre lhe dizia em tom de advertência: “você tem que desenhar a forma das letras para que o outros possam te compreender”.

Ao abrir o caderno, os exercícios eram extremamente simples e intuitivos, fáceis para que qualquer criança dotada de mãos pudesse fazer. Mas o que se via era outra coisa, os garranchos da pequena Natália iam além dos moldes pontilhados e convidativos das formas impressas na folha, eram verdadeiros desenhos à mão livre que não seguiam nenhuma lei de linearidade ou harmonia.

Era a linguagem de Natália. No dialeto que ela desenvolveu e que ninguém mais era letrado, por isso incompreensível a terceiros. Parecia desenhos de criança, cheios de riscos indecifráveis, os quais elas nos mostram orgulhosas apontando quem é quem em traços completamente aleatórios. Somente Natália conseguia ver sentido ali, algo muito além do poder do símbolo e da palavra. A criatividade da incipiência é de uma genialidade infinita. Ficou impressionada ao descobrir aquelas formas nas quais ela desenhava as letras. A sua maneira única de se expressar.

Natália achou curioso o fato de que só conseguiu realmente se comunicar com o mundo quando a forma daquilo que queria dizer ficou igual à dos outros, fazia com que sua letra não fosse realmente sua, mas sim de todos. Se deu conta de que se transformara em uma cópia. Em uma cópia, da cópia, da cópia, que se repetia num ciclo sempre nas mesmas formas, mas com traços diferentes. Checou seu histórico: era mãe, trabalhava, dava duro, mantinha boas intenções, mas no fundo era simplesmente uma cópia. Aquele caderno de caligrafia mostrou o seu original indizível. Reaprendeu a ler-se.

Aquele objeto não era algo que ela nunca mais usaria, muito menos algo inútil. Guardou com carinho o caderno de caligrafia que a partir de então seria o dicionário no qual ela escreveria a própria história.

 

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