O Pedido

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Era uma pessoa que dormia muito, mas muito mesmo. Todo o tempo que tinha livre ele dava aquela cochilada até o próximo compromisso. Sentia preguiça do universo. Ele até tinha grandes ideias na cabeça, mas não passavam de sementes que não eram nutridas e nem cultivadas, nada concretizava, ao final, sempre sentia sono e dormia.

O sono é sinal de tédio ou de conforto?

A cidade já sonhava quando algo incomum o despertou. Uma voz longínqua, porém amplificada pelo silêncio da madrugada (que torna todo o ruído em um estrondo), veio de forma urgente a clamar “Socorro! Socorro!”. Em um curto período de tempo, o berro se repetiu da mesma forma, mas agora mais nítido com a consciência de que se tratava realmente de um pedido de ajuda. Morava em uma grande metrópole, seu apartamento era cercado de outros prédios que lhe roubavam a intimidade tamanha a proximidade. Hesitou. Pensou Será que mais ninguém ouviu o grito de socorro? e uma segunda voz, desta vez de homem formado, disse algo que ele não conseguiu entender. Entretanto, o silêncio perturbador que se seguiu conseguiu ser mais barulhento que os pedidos de ajuda.

Sentiu seu coração disparado, mas permaneceu imóvel em sua cama, a sensação era como se tivesse omitido socorro. Não adormeceu, levantou para ver na janela se identificava a origem daquelas vozes. Ao observar a madrugada, constatou que a cidade dormia imersa em uma tranquilidade incomum às grandes metrópoles e que era tarde demais para ter uma atitude.

No outro dia, acordou como quem tivesse passado a noite em claro. Mesmo exausto e torcendo para o dia acabar, cumpriu normalmente suas obrigações diárias como ir ao trabalho, sorrir por conveniência e manter conversas de elevador com pessoas que não lhe interessavam. Finalmente quando chegou a sua casa, depois de um trânsito infernal, as boas-vindas era um monte de cartas sobre o tapete da porta de entrada. Conta para pagar, conta para pagar, convite para gastar, mais conta para pagar e uma carta que chamou a sua atenção pela singularidade.

Era um envelope comum, com seu nome escrito à máquina de escrever, sem selos, sem remetente. Entrou e fechou a porta para ver o que continha ali. Ao ler, suas tripas congelaram e sentiu um arrepio na espinha. A mensagem dizia à letra cursiva de criança, “Por que você não me salvou?”.

Como salvar o desconhecido?

Depois de se recompor da surpresa daquilo e sem entender seu significado, resolveu ir ao zelador que provavelmente foi quem deixou as correspondências em sua porta. A ideia era perguntar se ele tinha visto algo estranho e se se lembrava de ter deixado esta carta. Percebendo o incômodo que causou com suas dúvidas (pois o homem já não estava em seu expediente), logo se desculpou. O outro não disfarçou a cara de descontentamento e cortou o assunto dizendo de modo rude que não costumava xeretar as coisas dos moradores. As pessoas sempre entendem aquilo que querem ao invés do que realmente é dito.

Voltou para a casa sem respostas e com mais perguntas. Por trás de toda a estranheza dos fatos, de alguma forma aquela carta denunciava a sua inércia, lhe apontava uma vergonha. O sentimento da culpa é a única força capaz de transformar. Não há metamorfose mais plena que o arrependimento.  Experimentou o que seria sua primeira insônia.

Olhos vazios que fitavam um rack no escuro, não passava de formas geométricas sem sentido. Sem pensar em nada, sem sonhar nada, sem desligar de nada. Uma inarticulação claustrofóbica que aquela madrugada se tornava, até este torpor ser rompido pelo o toque do telefone celular.

04h35 da madrugada, número desconhecido, dizia o visor. Alô?, disse. Uma respiração ofegante se ouvia do outro lado, além de passos fortes de alguém correndo. Ficou ouvindo e repetiu algumas vezes até que a pessoa do outro lado da linha pareceu parar. Sua respiração se estabilizou. Alô?, repetiu, e BAM! BAM! BAM! respondeu três pancadas na porta de seu apartamento.

O coração quase lhe saiu pela boca. Novamente a paralisia o abraçou e não conseguiu se mover. Estava incrédulo e assustado. A ligação havia desligado fazia um bom tempo, mas ele não percebeu. Esperou na cama o suficiente para ter certeza que não haveria outra pancada. Levantou com cautela, saiu do quarto tateando a escuridão à procura de luz. Quando a acendeu, tudo estava fora do lugar, como se tivesse sido saqueado. A porta trancada, sem nenhum sinal de violação. A sensação de se sentir inseguro onde você deveria estar mais seguro trouxe imensa angústia. O desconhecido pareceu ser mais estável que seu conhecido lar. Abriu a porta e correu para o elevador, só queria sair, ficar longe de lá. Pela primeira vez almejou ver outro rosto humano, mas todos estavam escondidos, adormecidos no manto de Orfeu.

Adentrou as ruas correndo feito louco, rompendo o silêncio que habitava as esquinas. Só parou quando viu um menino no horizonte que lhe disse “Moço, por aqui” e começou a correr virando uma esquina. Algo de familiar lhe soou ali. Não saberia explicar, mas aquilo liberou sua confiança e correu na mesma direção. A confiança é o elemento mais poderoso de um elo. 

Conseguiu por um tempo acompanhar o garoto com os olhos, correndo atrás dele mas sem alcançá-lo. Quando virou em uma dessas esquinas, deparou-se com uma rua sem saída, o menino sumiu e havia apenas um caderno no chão. Pela capa ele já reconheceu, era seu primeiro caderno de desenhos. Sempre pensou em ser desenhista e levava jeito para os traços, ele tinha uma habilidade incomum que foi anestesiada pelo cotidiano. Sentiu uma alegria intensa em reencontrar essa memória, porém, quando foi abrir o caderno, o despertador tocou. Despertou. 

Apartamento organizado, nada de carta, até que ponto aquela loucura tinha sido sonho? Duvidou inclusive de ter falado com o zelador. Foi trabalhar sentindo-se tenso. Quando voltou para casa, em sua porta tinha outras cartas, entre elas, uma caixa de papelão. Abriu e encontrou ali seu caderno de desenhos, o mesmo do sonho, e suas páginas estavam em branco.

 

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