A Mudança

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Aqueles detalhes guardavam tantas histórias. E agora estavam ali, dentro de caixas com suas respectivas etiquetas, como que sepultadas e catalogadas para que não se percam. Cada pedaço daquele apartamento tinha seu significado, guardava uma lembrança, escondia em suas sombras momentos de uma exposição rara. Porém, uma proposta irrecusável de emprego em outra cidade não me deu escolha a não ser me mudar. Nada, a não ser minhas recordações, me prendia onde eu estava.

O mudar e a dor têm uma relação íntima. Por isso, para mim, toda a mudança é dolorosa. A transformação que ela causa é uma mutação que punge até se acomodar na estabilidade. Tenho a crença de que nossa vida é contada pelo passado, que ela é formada pelas memórias. Isso não significa que temos de viver acorrentados às origens, indica somente que o futuro se forma como uma construção que só pode ser produzida com a matéria-prima de nossas experiências. Até então, eu tinha tido vivido experiências não muito boas, isto é um tipo de coisa que, apesar de nossas atitudes contarem muito, está além de nosso controle. Aquela oportunidade surgia inflada de expectativa e esperança.

Sentada entre os objetos embalados, separados hierarquicamente considerando quesitos como importância, fragilidade, tamanho e tipo, tive minhas reflexões espantadas pelo interfone que tocou como uma sirene de emergência. Era o rapaz do caminhão da mudança, ele e mais um ajudante entraram e levaram tudo. O combinado era que nos encontraríamos no meu futuro destino, eu iria com meu carro que estava carregado com algumas malas com roupas.

No fundo, o que queremos é a confiança de um lugar onde podemos criar raízes. No apartamento desnudo, fiquei um pouco só com o eco de meus pensamentos para me despedir de meu antigo lar. A nostalgia é entorpecente. Mas depois de todo o torpor, vem o choque com a realidade. O apartamento já não tinha mais minha cara, meu jeito, era apenas um espaço. Espaço. Algo tão óbvio que nunca reparamos. Estar dentro daquele vazio era estranho, parecia que minha identidade tinha também se esvaziado. Reparei que aquele lugar era gigantesco, mas quando minha personalidade o habitava, ocupava demais. A amplitude de agora era intimidadora, tinha uma superioridade revestida de silêncio que denunciava minha pequenez, a mesma sensação de quando estamos em frente ao mar e notamos que somos apenas um detalhe naquela paisagem. De alguma forma, com aquele momento, notei que ser eu mesma não dava espaço para o diferente. Afinal, o que está cheio não pode acomodar novas formas. É necessário ser espaço. É necessário acolher.

Quando cheguei ao meu novo apartamento, o caminhão da mudança não havia dado sinal de vida. O que era bastante estranho, pois eles saíram bem antes de mim. Liguei para a transportadora em busca de respostas. Para minha grande surpresa, meu cadastro e meu registro não foram localizados. Entrei em pânico, será que tinha caído em um golpe e minhas coisas roubadas? Na esperança de conseguir mais informações, entrei em meu e-mail para ver as confirmações do serviço que eu tinha contratado e a data agendada. Não pude acreditar quando simplesmente não encontrei nenhum vestígio das mensagens trocadas.

Todas minhas etiquetas e memórias sequestradas. Tive a ideia de ligar no meu antigo prédio. O zelador provavelmente não viu a mudança, era cedo e não havia portaria, eles tocaram direto no meu apartamento. No telefone, ele confirmou que não chegou a ver o caminhão, nem a mudança. Expliquei o acontecido e pedi as imagens câmeras de vigilância do prédio. Nas câmeras do elevador certamente continha os “funcionários” da transportadora e essa era minha única esperança de ter minhas coisas de volta.

Eu mesma fui ao prédio pegar as gravações com o zelador, aproveitaria para usar a TV de lá e assistir, já que tudo que era meu estava no caminhão. Duvidei da minha sanidade quando vi a fita. Briguei com o zelador dizendo que era impossível aquela ser a certa. As câmeras não registraram nenhum movimento anormal ou de mudança. Depois de muito discutir, quis sair de lá, eu estava esgotada. Vim o caminho todo para o apartamento novo chorando no carro, só parei quando o cansaço me venceu e acabei dormindo na sala vazia, com uma mala de roupas como travesseiro.

O apartamento não tinha cortinas e logo que a luz da manhã entrou por ali meus olhos se incomodaram. Quando os abri, apenas o nada me fazia companhia. Foi quando reparei que… eu estava deitada na minha cama. Meu lençol, meu travesseiro! Era impossível, como minha cama apareceu ali no meio da sala? Corri por todos os cômodos. Nada. Apenas a cama e minhas malas que estavam no carro no dia anterior. Fui até a porta com olhar investigativo, procurando denúncias daquele estranho fato, estava tudo trancado.

O impossível estava acontecendo diante dos meus olhos. Tudo que a razão não alcança, assusta. Temos o controle somente daquilo que entendemos o porquê. Os argumentos sustentam nossa sanidade. Aquilo não poderia ter outra definição senão a loucura. Se eu contasse os fatos a qualquer pessoa, soaria como insanidade. Fui tomar meu café da manhã com meu segredo estranho, censurada pela vergonha, procuraria alguma padaria ao redor, eu estava com muita fome e não havia nada em casa. Com o estômago cheio, eu pensaria melhor em alguma resposta para aquilo tudo.

Quando saí do prédio, fui andando a esmo pelas ruas, absorta em pensamentos. Me distraí o suficiente para notar que estava em um lugar que nunca tinha visto. Andei mais um pouco e não reconhecia nada ali, eu estava perdida. Recorri ao GPS do celular, que estava sem sinal, o jeito era perguntar por minha rua em algum comércio dali. O primeiro que vi, entrei, fui direto ao caixa perguntar se ele sabia me informar onde era a Rua dos Comendadores.  Foi quando o caixa me respondeu de uma forma que me fez hesitar: “você quer saber a verdade ou a resposta certa?”, disse ele.

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