Presente de Natal

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25 de dezembro, noite de natal, um dia com uma quietude singular. Nas ruas, apenas a presença da solidão; portas fechadas, comércios silenciosos, janelas apagadas e calçadas nuas de movimento. A penumbra vestia aquelas esquinas abandonadas com certa dramaticidade, as tímidas oscilações de luz refletidas dos adornos natalinos revelavam uma silhueta de melancolia nas sombras dos objetos.

Algumas pessoas se sensibilizam nestes períodos de festas. Eu não. De fato, dias como estes quebram a rotina com sossego e espaço. A data faz com que seja necessário lembrar-se daqueles que realmente são importantes e também expõe à luz do tédio alguns trejeitos que temos e passam despercebidos no ruído do dia a dia, eles ficam mais audíveis perante o silêncio do ócio.

Caminhava nas calçadas desprovidas de vida sob o pretexto de procurar uma farmácia. Uma dor de cabeça motivou esta busca e resolvi ir a pé. A verdade era que eu me identificava com aquele cenário ermo e seguia contemplando aquela solidão natalina, acompanhada somente pelo eco de meus passos.

A ausência total de pessoas transfere um sentido especial a elas. De certo modo, essa escassez fazia-me esquecer os pré-julgamentos que tinha sobre a humanidade. Cada vivalma que surgisse naquele deserto de pedras seria como um tesouro a ser descoberto, uma estrela cadente que se destaca por seu movimento, mesmo que seja uma queda, em um céu repleto de pontos luminosos. A carência dá valor a qualquer coisa.

Eu já estava velha e não tinha família, até por isso era a única que caminhava naquela avenida e não estava como os outros, acolhidos no seio familiar. Envelheci sem me casar e sem ter filhos, nem mesmo animais de estimação tive. A solidão, temida por muitos, era-me uma deliciosa parceira e eu não tinha problemas com ela, muito pelo contrário, tive sempre mais problemas com minhas companhias do que com minha retração. A maturidade torna o equilíbrio em alegria, e é mais importante ser alegre do que ser feliz.

Depois de caminhar por alguns quarteirões, encontrei aberta uma farmácia. Lá dentro apenas um funcionário que quando entrei parecia esperar por minha chegada. Estava com boa disposição e cheio de curiosidade sobre mim. Imaginei quanto tempo que ele estava ali sem ver ninguém para disparar dessa forma a falar. Este tipo de interesse nascido da simples curiosidade é mais raro que o amor verdadeiro. Amar é uma necessidade do homem, já este tipo de interesse é um dom que poucos desenvolvem e muitos jamais terão.

Ele me falou sobre o Natal e perguntou se eu tinha ganhado presente do Papai Noel. Achei graça naquilo e brinquei dizendo que era velha, mas não o bastante para ser senil e acreditar em fábulas de crianças. Ele não riu da minha réplica, o que me deixou desconfortável. Já no caixa, ele me entregou o medicamento com o troco e sorriu, disse que a noite ainda não tinha acabado e ainda era tempo de receber um presente de Natal. Dessa vez apenas sorri com simpatia, sem retrucar.

Caminhava de volta pelas mesmas esquinas abandonadas das quais tinha vindo. Fui retida por um gemido de moça. Não era alto, em outra situação seria imperceptível, mas aquele silêncio natalino tornava obscena a mínima exposição. Parada, percebi que o som vinha de trás de uma caçamba de entulho. Quando contornei a caçamba, vi uma mulher jovem e grávida, sozinha, abaixada e sentido as dores do parto.

A cena me deixou assustada, lembrei-me do funcionário da farmácia, ele devia ser farmacêutico e poderia ajudar, porém a mulher agarrou com tamanha força meu braço que não pude ir imediatamente, tive que convencê-la que buscaria ajuda para ela e ao bebê, mostrei a sacolinha da farmácia para dar veracidade ao meu relato. Ela teve medo que eu não voltasse, tentei tranquilizá-la. Fiz com que contasse sua história, dentro do possível disse que seu nome era Beatriz e contou-me que esperava um menino. Pelas circunstâncias, iria ser chamado de Jesus.

Depois de fazer com que eu prometesse que voltaria, pediu para ficar com minha bolsa como garantia. Após isso, deixou que eu partisse. Assim fui, correndo o mais rápido que podia em direção à farmácia, mas quando a vi de longe, suas luzes estavam mortas igual as dos outros comércios. Não era possível! Resolvi ir perto para certificar se o funcionário ainda estava lá dentro.

Depois de algumas voltas, constatei que o estabeleciomento realmente estava vazio. Eu não podia abandonar a moça que estava dando a luz em pleno o Natal ao menino Jesus. Onde estava a família dela? Apesar da simplicidade, a moça não aparentava ser uma moradora de rua. Voltei com a mesma intensidade para de alguma forma ajudá-la, e também para lhe fazer perguntas como quem eu poderia chamar.

Com a caçamba já em meu plano de visão, pude ouvir o som da criança chorando e tive muito medo de encontrar a mãe inconsciente ou algo pior. Quando cheguei, a surpresa foi a maior reação. Havia um bebê, limpo, vestido, envolto com um edredom, nenhum sinal da mulher, nenhum bilhete, nenhum recado, apenas uma mamadeira que quando peguei ainda estava quente e minha bolsa.

Não sou dada a crianças, mas ao pegar o bebê ele parou imediatamente de chorar e abriu um sorriso encantador, como se me agradecesse. Por um momento esqueci que estava no meio da rua. Peguei a mamadeira e cheirei o leite, coloquei na boca para provar e depois de de certificar ser seguro, dei para ele. O neném tomou com vontade. Olhei para os lados e apenas a melancolia das sombras dos objetos me faziam companhia.

Fui para casa. Era tarde da noite e queria um pouco de paz antes de levar aquela criança à polícia e explicar o que eu não sabia ter explicação. Depois de acomodar bem a criança, que não me deu nenhum trabalho, peguei no sono ao lado dela em minha cama.

Acordei sozinha na cama. Levantei como louca e meu primeiro pensamento foi que alguém havia invadido minha casa. Quando cheguei na sala, soltei um berro de susto. Encontrei um senhor de idade, longos cabelos brancos e grande barba grisalha. Quando me viu, soltou o mesmo sorriso doce que aquela criança tinha me dado quando a peguei nos braços. Aquele senhor era o velho Noel bem na minha frente. E ele me disse “Viu como ainda há tempo de ganhar seu presente de Natal”. Eu estava paralisada enquanto ele saiu pela porta da frente e agradeceu por tudo que eu tinha feito, disse que o presente estava dentro de meu coração, disse para eu tirá-lo do embrulho que o esconde. Depois se foi. Quando a porta se fechou, desembrulhei o presente e percebi que acreditar é o melhor que alguém poderia ganhar.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Fi disse:

    Pare se usar drogas, cara.
    Belo texto!

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