Circo Show da Vida

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Era tarde da noite e o comércio onde eu trabalhava era o único estabelecimento da região aberto. O dono, um velho mesquinho, fazia questão de fechar a loja bem tarde, apostando que ganharia em cima da falta de opção das pessoas. Após certo horário da noite, não entrava uma alma viva ali, mesmo assim a loja ficava aberta. Claro que o sacana não permanecia por lá para enfrentar o tédio, a função de fechar a loja era minha. Além de ser o último a sair, eu também era o cara que abria o comércio.

Em frente ao meu trabalho havia um grande espaço que era um estacionamento, mas estava há algum tempo abandonado. Naquela manhã eu tinha visto uma movimentação estranha por ali, mas de noite, quando saí, fiquei surpreso ao perceber que havia sido montada uma arena de circo com neons que tingiam o asfalto ao seu redor.

Aquela imagem me remeteu a lembrança de quando meus pais me levaram para ver um show em um circo itinerante que estava em minha cidade. Eu fiquei fascinado pelo palhaço com seus trejeitos de trapalhão. Alguma coisa me chamava atenção na falta de coordenação, nas cambalhotas tortas e nos modos desastrados que arrancavam risos da plateia. Isso tudo me trazia mais que gargalhadas, despertava certa admiração.

A pintura no rosto como um eterno sorriso era como uma cicatriz da alegria. Via de regra o palhaço mostrava o erro para as pessoas e todos achavam graça daquilo. Apresentava números em que anunciava o mais incrível salto do mundo e na sequência aquilo se transformava em algo pífio, que beirava ao ridículo. A plateia só sabia rir. O palhaço é um grande desajustado, no dia em que o vi pela primeira vez, tive a sensação de estar confortável em ser eu mesmo.

No outro dia quando fui abrir a loja me esqueci totalmente do circo, somente à noite, já sozinho e me preparando para ir embora, vi através do vidro da janela principal o reflexo do neon piscante, sendo aquele o único movimento da rua naquele horário.

Comecei a fechar o caixa quando reparei em um papel brilhante em cima do balcão. Era um cartão dourado que dizia “Circo Show da Vida – Convite VIP” e a data era de hoje, mas não tinha horário ou outra informação. Alguém devia ter esquecido. Eu com certeza não conseguiria assistir ao show, pois naquela hora já deveria ter acabado. Tive a ideia de tentar trocar aquele ingresso por um para outro dia, resolvi ir até lá e já me informar sobre o preço e o horário do espetáculo.

Em frente ao circo, o lugar parecia deserto, porém as luzes estavam todas ligadas. Na entrada havia uma fileira de roletas em que tinham um buraco que dizia “insira seu convite”. Coloquei meu cartão dourado ali, a máquina o engoliu e escutei o barulho da catraca destravar. Na única abertura que havia na tenda estava escrito “Nada pode ser notado, se não há um interessado”, achei interessante a mensagem e diferente para um circo. Fui entrando de intrometido e arriscando um “olá” para sinalizar minha presença.

Quando finalmente entrei na tenda, já em uma das entradas para o palco principal que era uma espécie de coliseu, uma forte luz me colocou em foco, o outro foco estava no centro do palco, mas eu não conseguia enxergar com exatidão por ainda estar me acostumando com a intensidade da luz na qual fui exposto. Ali no meio estava um palhaço, que gritando disse: “Bem-vindo, o Show da Vida não começa sem você! ”. Depois de uma breve pausa, completou: “Mentira, já estamos nos divertindo aqui faz um tempo”. Risos surgiram e eu percebi que o coliseu estava cheio de pessoas.

Sem saber como agir, o palhaço prosseguiu e perguntou à plateia se alguém gostaria de fazer alguma pergunta ao novo convidado. Comecei a achar que eu realmente tinha chegado no meio ou no final do espetáculo e estavam me ridicularizando por isso, aí um holofote iluminou um ponto na plateia e o palhaço anunciou que tinham uma pergunta.

A pessoa iluminada era meu pai, que agiu como se eu fosse um estranho, perguntou “Se o nada existe, por que quando o nada era tudo ele deu origem ao tudo ao invés do nada? ”.  Outro holofote em outro ponto, era minha professora do primário, que mal me lembrava da existência, mas ao bater os olhos reconheci, ela disparou “qual o sentido da vida? ”. Mais um holofote, uma ex-namorada pergunta, “por que você está sempre atrasado? ”. Todas as luzes se voltaram ao palhaço que disse: aposto que você não sabe essas!

Aquilo estava sendo constrangedor e eu já transpirava excessivamente por causa do nervoso e da luz quente que me mirava. Dois palhaços me agarraram por traz e praticamente me levaram arrastado para o centro da arena. Fui sem resistir para não ficar ainda mais embaraçoso para mim, tentei pedir para me soltarem, mas não deram atenção. Me colocaram sentado numa cadeira em que amarraram minhas mãos enquanto o palhaço principal lidava do caso de forma jocosa, dizendo que o show da vida tinha esperado a melhor parte para me contar, para dizer a grande palhaçada que ainda está por vir. “Devo contar a ele a grande palhaçada? ”, ironizou com a plateia que respondeu com um enérgico e estendido SIM.

“Eu vou te dar um desse”, disse apontando a maquiagem de sorriso em seu rosto. O eterno sorriso! Com um movimento rápido ele se aproximou de mim e com uma mão tapou meus olhos e depois aproximou sua boca ao meu ouvido e disse baixinho:

“A grande palhaçada é que somos programados ao conformismo. Em aceitar e se conformar, em entender, mesmo que isso signifique crer. Todos têm seu tempo em perceber o quão pequena é nossa existência frente ao mundo e a tudo que acontece ao nosso redor, por isso é comum sermos levados a uma força que nos arrasta mesmo sem perceber.

Então sorria! Sorria! Alguns atribuem isso como se fosse destino, uma sensação além de nosso controle. Outros se rebelam, mas percebem que no final esse era o caminho deles. Essa simbiose com o planeta apenas nos distrai, de certa forma mantém a sanidade (ouvi risos da plateia ao fundo).

Mas no final, nada pode vencer a realidade (ele tirou as mãos de meus olhos, não havia mais nada ao meu redor, somente eu a cadeira e o palhaço). Apenas a loucura consegue se sobrepor a ela, criando nossas consciências falhas. O entretenimento cada vez mais nos torna ignorantes e entorpecem a capacidade de refletir ou duvidar. Quando menos percebemos, somos o cordeiro que em outros tempos enxergávamos com clareza.

Guerras, mercado, empregos, pessoas, tudo existindo num ritmo em que os olhos não podem mergulhar, vendo apenas uma forma superficial que nos torna tão rasos e reduz tudo a críticas e preconceito. A fé é nossa maior ignorância. Ela traz consigo o manto da inocência, que tem o poder de transformar a sujeira em beleza, a crueldade em hábito e desconfigurar um fato. Quando a inocência reveste alguma atitude, seja qual for, jamais haverá um culpado. Será tudo uma palhaçada. ”

Acordei no balcão da loja, eu ainda não tinha fechado o caixa e não havia nenhuma luz neon piscando na janela. Foi um sonho perturbador, mas o mais intrigante foi quando por acidente vi meu reflexo e percebi que tinha um sorriso de palhaço estampado no rosto.

 

 

 

 

 

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