Atípico

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Não podemos afirmar que tenha sido a força da sua personalidade metódica em manter a ordem onde algo estava fora de um padrão ou a simples curiosidade inata ao ser humano que o fizera estar prostrado ali, na porta de seu vizinho. Há 13 anos morando naquele prédio, nunca tinha visto a entrada daquele apartamento escancarada daquela forma pela manhã, como se estivesse abandonada. Com timidez, deu leves batidas na madeira dizendo “alguém em casa?”, mas não obteve nenhuma resposta. O silêncio lá dentro aguçou ainda mais a vontade de saber o que estava acontecendo… foi entrando devagar.

Algo como um assalto poderia ter ocorrido ou algum acidente. Teria o vizinho, talvez atrasado para um compromisso, esquecido a porta aberta ao sair pela manhã? Avançou alguns passos em silêncio, hesitante, pois apesar dos motivos plausíveis que justificavam aquela invasão, sentia-se constrangido pela a educação rígida de sua criação que o ensinara a nunca entrar num lar que não era o seu se não fosse convidado.

Da porta da entrada não era possível concluir muita coisa, a visão era apenas de um pequeno corredor que dava acesso à direita. Foi até lá a fim de espiar se estava tudo em ordem. Encontrou a sala em uma grande bagunça, percebeu que estava só ali e assim ganhou confiança para prosseguir na sua suposta invasão. O que lhe tranquilizava era que, de fato, a situação era estranha e suas intenções, as melhores.

Chamou novamente por alguém e ninguém respondeu. No chão havia revistas e livros de diversos temas, além de objetos pessoais. Teve dúvida se o apartamento estava revirado ou apenas desordenado. Olhou para o corredor que dava acesso aos quartos e banheiro, estava tudo apagado por ali, mas havia a porta de um quarto entreaberta que emitia uma suave luz que oscilava, dando a perceber que havia um aparelho de TV ligado, porém, nenhum som. Com suavidade, foi em direção ao quarto e abriu a porta com receio de encontrar algo que não devia. Flagrou apenas a cama desarrumada e um televisor ligado sem volume.

Dentro do quarto tinha uma outra porta fechada, pela fresta da porta era possível ver que estava com a luz acesa. Será que era um banheiro com alguém dentro? Novamente indagou “alguém em casa?”. Depois de insistir no chamado, bateu na porta de dentro do quarto. Olhava constantemente ao seu redor a fim de não ser surpreendido, mas a surpresa mesmo ocorreu quando esta porta abriu sozinha e ele viu o que tinha ali.

A visão era apenas de um pequeno corredor que dava acesso à direita. O mesmo corredor da entrada. Aquilo não fazia sentido, resolveu se certificar e andou até o acesso que dava à direita para ter certeza de onde ele estava, chegando lá viu a sala, a mesma sala de quando ele entrou no apartamento.

Entrou na sala novamente e viu o mesmo corredor com uma das portas emitindo a luz tênue do televisor. Como era possível? Voltou para o corredor que daria para a saída e a porta estava fechada. Mas ele não havia fechado a porta. Quando a abriu, estava no quarto novamente. Depois de repetir algumas vezes este trajeto, percebeu que aquilo ignorava as leis da lógica e era um ciclo interminável. Ele estava preso naquele apartamento sem saber como sair. Antes que entrasse em desespero e começasse a berrar, ouviu risadas vindo de dentro do armário do quarto.

Não podemos afirmar que tenha sido a força da sua personalidade metódica em manter a ordem onde algo estava fora de um padrão ou a simples curiosidade inata ao ser humano, mas foi direto ao guarda-roupas com irritação e fúria, abrindo as portas com violência. Não havia nada na direção dos seus olhos além de roupas, mas embaixo reparou no que pareciam ser duas crianças escondidas que correram ao serem notadas.

Elas pararam na direção oposta dele. Na luz, viu que elas não eram crianças. Eram criaturas com corpos idênticos ao de crianças de uns 5 anos, mas suas cabeças eram como a de idosos de 90. Atônito, viu que as criaturas riam dele. Apesar de aquilo ser perturbador, ele não sentiu medo, era mais como uma surpresa.

– Eu sou Gnos – Disse a criatura que tinha corpo de menino.

– E eu, Cere – Emendou a que tinha corpo de menina.

Riram e saíram correndo pelo apartamento derrubando tudo que encontravam pela frente. Era impressionante o barulho que as coisas faziam ao serem jogadas no chão. Às vezes as criaturas diziam “você precisa brincar com a gente”, mas ele se sentia apenas paralisado naquele absurdo que o cercava. Por não encontrar uma solução mais segura em meio àquele caos, resolveu tentar dialogar com os estranhos seres, mas eles não respondiam nenhuma de suas perguntas como quantos anos eles tinham, se moravam ali, se sabiam onde ficava a saída e outras questões do tipo. Elas apenas respondiam seus nomes e repetiam que ele precisava brincar com elas.

Ele estava quase chorando de desespero com a incapacidade de algum tipo de conversa com aquelas coisas e realmente acreditava que enlouquecera. Foi quando Cere, muito brava, parou na frente dele, colocou as mãos na cintura e disse “você precisa aprender a ouvir”. Voltou a rir e a correr destruindo as coisas com Gnos. Ele havia chegado naquele momento em que não há nada mais a perder, quando o absurdo lhe sufoca e faz com que as possibilidades de dias melhores se esgotem. É a falência da esperança, o indivíduo apenas se entrega à sorte do destino, movendo-se com a correnteza com o ânimo abatido. Essa sensação o fez ouvir o que Cere tinha dito e no que eles repetiam. Então decidiu começar a correr com as criaturas e a quebrar o pouco que ainda estava inteiro.

Sem que percebesse, estava rindo com elas, sendo como elas. Quando ele cruzou a porta do banheiro do quarto que dava acesso ao corredor da entrada para mais um circuito de destruição e risadas viu que estava no corredor do prédio novamente, fora do apartamento. A porta do vizinho fechada. Sua porta fechada. O elevador havia chegado. Olhou no relógio, aquele tempo interminável não havia passado. Não podemos afirmar que tenha sido a força da sua personalidade metódica em manter a ordem onde algo estava fora de um padrão, mas foi trabalhar normalmente como se nada tivesse acontecido. Se é que aconteceu.

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