O Germinar

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O céu está à vista para todos. Tão presente e distante, ele traz uma imensidão que nos abraça e dá consciência do quão pequenos somos frente ao infinito. Seria uma ambição desejar alcançá-lo? Ou simplesmente algo de nossa natureza? Independentemente da resposta, sonhos podem encurtar distâncias que a física, com sua rigidez, impõe. Por isso que o impossível, frequentemente, é apenas uma questão de ponto de vista.

Foi com essa determinação de sonhador que o pequeno Caule germinou, fitando a luz pela primeira vez. Aquela beleza esplêndida da manhã o encantou e naquele momento desejou tocar o céu. A partir de então, a cada pôr do sol o Caule persistia em construir sua jornada, sempre com o desejo ardente que o empurrava para cima. Alcançar o sol ganhou mais força que um objetivo comum, tinha o encanto de um sonho, que fornecia ao pequeno Caule afinco e uma determinação inocente, pura, verdadeiramente genuína, que era fruto de sua esperança.

Nesta subida, o jovem Caule viu em sua volta outras plantas que tinham formatos diferentes e também variadas alturas. Alguns tipos o chocaram, outros pareciam cansados e se voltavam para baixo, cabisbaixos, tinha ainda plantas do tipo rasteiras, outras que até davam vontade de se enroscar e havia também as que poderíamos considerar como parasitas. Algumas só eram possíveis de serem vistas pelo ângulo do jovem Caule, e ali foram ultrapassadas e permaneciam como que ofuscadas pelas sombras das plantas mais altas, esquecidas pela luz do sol.

O jovem Caule não desviava sua atenção, com seu sonho como guia ele continuava a crescer e seguir seu caminho. Quando finalmente chegou ao cume, percebeu que não era como esperava que fosse, sentiu um desconforto. Sua posição privilegiada permitia ver a todos e também ser visto por todos. Sentiu que atrás dos sorrisos que vinham das plantas ao redor, havia uma raiz de descrença, uma plasticidade. Não deixou se abalar, ultrapassou todos e foi a flor mais bonita do jardim. No dia seguinte, a Poda chegou, o primeiro corte.

Um dos mais velhos zombou com ironia. “Sabíamos que a Poda iria deixar você sempre no tamanho padrão, pode continuar tentando crescer”, e todos riram. Machucado, porém ainda com esperanças, tentou diversas vezes e voltou toda sua energia a se recuperar e continuar a seguir seu sonho. Fez de seu sonho uma questão de honra para provar a todos ali que era possível alcançar o que quiser com a fé.

Novamente foi mais alto, florido, e com vontade. Tempos depois, a Poda. Os risos. Isso voltou a acontecer por muito e muito tempo, até a exaustão do jovem Caule (que já não era mais tão jovem assim). Apesar da falta de reconhecimento cansar mais que seu esforço, não sentia rancor do desdém de todos, o Caule apenas sabia de seu potencial. Acreditar em si era o que lhe dava segurança para continuar crescendo mesmo quando não se tem estímulos. Continuou. Tentou diversas formas, timidamente, com velocidade e afinco, camuflado, florido… mas nada dava certo, a Poda sempre o fazia regressar ao padrão.

Em mais um pôr do sol que repetiria sua angústia e desejo platônico, o Caule finalmente entendeu o mecanismo. À medida em que teve sua resposta, também sentiu seu peso, que era mais denso que a gravidade, mais determinante que o tempo. Ser destaque não o aproximava de seu sonho, muito pelo contrário, o fazia sofrer mais e ainda sentir a humilhação entre as outras plantas em sempre regressar ao padrão. Percebeu que a individualidade não nos faz crescer, mas a força e o poder do outro podem nos levar a evoluir. Teve então sua epifania. Se todos crescessem juntos, a Poda não perceberia uma mudança de padrão e todos poderiam alcançar o céu. Sorriu com cansaço, o sol já estava indo embora, faltavam adubos essenciais para isso, já era tarde, a escuridão adormeceu seus pensamentos, amanhã o sol virá com mais um dia.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Fi disse:

    clap clap clap, fazia tempo que não saía um texto aqui.
    Bela metáfora. Espero que esteja bem, meu caro! 🙂

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